A imagem mais longínqua que tenho de Luanda é de Julho de 1962.
Não me recordo do dia exacto! Recordo-me apenas de um Land-Rover – de “caixa comprida” como lhe chamávamos para o diferenciar da outra versão mais pequena e mais usual, – que me transportou, pela primeira vez, à Rua de S. Tomé, ali bem ao lado da Missão de S. Paulo, onde se situava a minha primeira morada em Luanda.
Desse primeiro contacto com a cidade apenas me recordo de uma estrada de terra que, da Nazaré, subia pelas “barrocas”, onde depois seria criado o “Eixo viário”, e desaguava no Kinaxixe, entre o Museu de Angola e o Mercado. Lembro-me também da minha surpresa ao olhar para uma espécie de viveiros (ao que creio de um departamento dos Serviços de Agricultura) que ocupavam as traseiras do colégio de S. José do Cluny e onde vicejavam, luxuriantes, algumas as espécies tropicais que eu nunca vira! De forma especial lembro-me das bananeiras, de folhas largas e um verde-claro completamente diferente dos tons verdes que conhecia, e que surgiam da terra em tufos vistosos que emergiam da argila avermelhada numa explosão de cor e de vida que não parecia possível em terreno tão árido.
Foi o meu primeiro contacto com a nova terra que assistiria ao meu crescimento, à minha formação, à autonomização pessoal e ao nascimento dos meus filhos!
Foram 23 ininterruptos anos de vida angolana, de uma importância crucial, que moldaram o meu modo-de-ser e o modo-de-estar no mundo!
Em 1981, pressionados pela carência das instalações escolares, – que obrigava os pequenitos a transportar consigo, debaixo do braço, uma lata de leite que lhes servia de assento durante as aulas enquanto escreviam as primeiras letras num caderno apoiado sobre o joelho! – saímos de Luanda com destino a Lisboa tentando proporcionar educação mais adequada a quem não deveria sofrer consequências por actos que não cometera e dos quais não tinha quaisquer responsabilidades.
Em Agosto de 1985, foi a minha vez de atirar a “toalha ao chão”! Deixei Angola, desiludido e pesaroso, na certeza, quase absoluta, de que nunca mais aí voltaria.
Nos longos trinta e três anos que se seguiram, o aliciamento, as sugestões e os convites para o regresso foram vários e repetidos. Todavia, o regresso, quer revestisse forma temporária, quer definitiva, nunca se desenhou como horizonte possível depois da minha saída de Angola.
Costumava dizer, aliás, que “Angola era um capítulo encerrado”. E era!..
Mas a vida, sempre mais imprevisível que os nossos raciocínios, trocou-me as voltas e obrigou-me a reabrir as páginas já esquecidas do meu livro luandense.
Os imperativos de uma amizade profunda e duradoira, que resiste à erosão do tempo e sobrevive à amplidão do espaço, fizeram-me voltar a Luanda trinta e três anos depois para apresentar um livro sobre um tema que sempre me apaixonou!
A África – e Angola em particular, – aparecem quase sempre aos olhos do observador externo como lugar de conflitos, mais ou menos violentos e mais ou menos duradoiros, mas sempre repetidos.
Encontrar as razões profundas deste status quo apresentou-se-me sempre como um desafio intelectual interessantíssimo. Neste aspecto, determinar causalidades será abrir caminho às soluções.
Também é esse, creio, o objectivo do livro Angola: Estado-nação ou Estado-etnia política Marcolino Moco que me levou a Luanda ao fim de 33 anos de ausência.
Prefaciá-lo foi um prazer, apresentá-lo, – ademais numa instituição com os pergaminhos da Liga Africana (hoje rebaptizada de LAASP – Liga angolana de amizade e solidariedade com os Povos) – foi uma honra!
Penso que, em outros textos deste blog, já aludi às Campanhas Etnográficas que José Redinha levou a cabo durante toda a sua vida.
O conhecimento comum, quase geral, apenas integra uma dessas campanhas, a mais conhecida, que é a Campanha do Tchiboco. Aliás, é esta a única que está gravada em memória escrita nas Publicações Culturais da Diamang: Subsídios para a história, arqueologia e etnografia dos povos da Lunda -Campanha etnográfica ao Tchiboco (Alto Tchicapa), 2 vols, Companhia dos Diamantes de Angola, Lisboa, 1953.
Nas minhas andanças pelas memórias biográficas desta figura invulgar, tenho andado às voltas destas viagens que, pelo número e extensão, devem ser exemplar único na história da etnografia portuguesa.
Na realidade, desde o início, elas se configuram como um verdadeiro “trabalho de campo” de cariz etnográfico. É que, para lá de um objectivo perfeitamente definido, – mas imediato e, de certa forma, limitado, – que lhe é atribuído pela Direcção Técnica da Diamang, (a aquisição de “peças etnográficas” para o futuro museu) José Redinha ultrapassou larguissimamente o reduzido objectivo da tarefa que lhe fora cometido.
Não só ultrapassou o que se lhe pedia, como o fez com muito gosto! Vejam-se as descrições vivas e coloridas que ele faz dos serões, na tchota, com os sobas e a população dos vários locais onde acampava, conversando sobre a sua história, as suas tradições, as suas crenças e os seus costumes, enquanto se livravam dos rigores do frio da noite, ao calor da fogueira mas também do hidromel, inebriando-se com o fumo da mutopa passado de mão em mão: melhor, de boca em boca!
Foi aí, na fonte, ouvindo, atenta e pacientemente, os relatos da tradição oral que José Redinha construiu o conhecimento antropológico e social que está plasmado na sua vastíssima obra.
Às vezes, ao ler as saborosas descrições destes serões, recordo-me de muitos outros serões, bem longe da Lunda, na casa do Pedro Redinha, onde, depois do jantar, costumávamos sentar-nos ouvir as inacabáveis histórias que José Redinha tinha para contar.
Nesses serões inesquecíveis, por trás do seu inseparável cachimbo, sempre fumegante e aromático, era um nunca acabar dos relatos mais diversos. Coloridos, repletos de peripécias e episódios picarescos, jorravam, encadeados, e apenas intercalados pelo gesto, automático, de passar a mão pelo rosto acompanhado pela inevitável fungadela, característicos trejeitos faciais que invariavelmente sublinhavam o seu discurso.
Muitas vezes, único ouvinte desses relatos, nunca me preocupei verdadeiramente em transformar esses longos monólogos em diálogo verdadeiro. Aliás, não era necessário!
Para início de conversa, bastava um mote inicial identificando um tema. Esse breve simulacro introdutório de diálogo, transformava-se no “pontapé de saída” para várias horas de relatos-memórias duma vida repleta de deambulações, dificuldades, êxitos e muita aventura!
Depois, bastava ir entremeando as narrações com brevíssimas intervenções monossilábicas de admiração ou de presença para dar novo alento ao desfiar de memórias vivíssimas que nos prendiam invariavelmente até à madrugada!
Verdadeiramente um homem singular!…
Mas, estávamos a escrever sobre as campanhas… e perdemos o fio à meada! Ficará para próxima oportunidade. Mas, ainda assim, vamos deixar aqui uma espécie de mapa-resumo das campanhas cuja simples leitura permite visualizar o percurso de vida de um personagem fascinante que hoje, quando não ignorado, é alvo de um desmerecido desprezo só explicável pela ignorância e pelo preconceito.
En effet, (en
Afrique) aucun problème ne sera véritablement solutionné en matière
de développement sans une appropriation et réappropriation critique, par les sociétés africaines (élites
politique et intellectuelle, populations) elles- mêmes, des savoirs et savoir-faire
endogènes, ainsi que de l’héritage scientifique et technologique disponible. Dans cette perspective, il est nécessaire que les États africains
modernes mettent en œuvre des mesures qui favorisent l’émergence d’une
nouvelle manière de faire la science et d’opérer le développement. Ces nouvelles
pratiques doivent progressivement mettre un terme à l’extraversion, de manière
à donner lieu à des structures scientifiques et technologiques locales résolument tournées « vers la résolution des
problèmes locaux – ce qui n’exclut pas, mais bien au contraire, suppose
l’effort pour domestiquer, apprivoiser l’universel
»
Yao Assogba
Poder-se-ia dizer que a obra agora dada à estampa,
tendo presente a multiplicidade
tipológica dos textos que acolhe, – um conjunto de escritos muito diversos
entre si: textos de análise académica, transcrições de palestras,
conferências, entrevistas e pequenos
escritos de blog, – careceria da unidade orgânica que lhe daria uma
temática e uma tipologia única.
Nada mais distante da realidade que esta análise
superficial, baseada apenas na forma.
De facto, a leitura atenta dos diversos textos e a análise dos conteúdos facilmente colocará em evidência um
denominador comum de toda a obra. Tendo como pano de fundo uma observação contextualizada e centrada no seu espaço
natural de inserção (o continente
africano) o tema central à volta do qual se desenvolvem todos os textos chama-se ANGOLA.
Diferentemente de outros países que desenharam as
suas fronteiras com a ponta das baionetas, Angola, como a generalidade dos
países[1] da
África sub-sahariana, acedeu à
independência e constituiu-se como estado-nação[2] no
respeito estrito das geografias definidas pelas potências coloniais
europeias. Aliás, por todas as razões – inclusive por razões de bom senso, –
não poderia ter sido de forma
diferente e, por isso, os Chefes de Estado e de Governo presentes na 1ª Cimeira
de Chefes de Estado da OUA (realizada no Cairo em 1964) declararam “de maneira
solene que todos os Estados Membros se comprometem a respeitar as fronteiras
existentes no momento em que ascenderam à independência”. Como
diz B. Davidson, as “linhas traçadas no mapa
não podiam ser
apagadas pura e simplesmente e substituídas por fronteiras mais razoáveis e justas”. Uma tentativa desse jaez teria causado mais
problemas que aqueles que pretendia resolver!
A questão é que os traçados fronteiriços coloniais
em África foram esboçados à medida
dos objectivos das respectivas metrópoles e realizados num contexto de uma particular correlação de forças vigente à
época da sua definição, no final do século XIX, com pequenos ajustamentos no primeiro quartel do século XX.
Como é sabido, nesse tempo, a
despeito das chamadas “expedições científicas” que foram feitas um pouco por toda a África, o conhecimento deste
continente, dos seus povos, da sua geografia e
da respectiva história era pouco mais que nulo, quando não eivado de preconceitos, desinformação e efabulações
diversas.
No caso vertente, a configuração geográfica do
espaço actual de Angola é um processo longo e atribulado que, iniciado no
início do séc. XIX (1817) sobre os espaços descontínuos (e exíguos) da
primordial fixação costeira portuguesa (Luanda e Benguela), se foi desenrolando
(até ao início dos anos 30 do século XX, época em que ficaram definitivamente
fixadas as fronteiras coloniais de Angola) paulatinamente num intrincado processo
de negociações diplomáticas, acções militares, guerras de ocupação, trocas
territoriais e “tratados” de protecção com autoridades africanas preexistentes.
Nestas circunstâncias, pretender que a
delimitação de fronteiras que foi efectuada coincidisse, de alguma forma, com as “fronteiras
naturais” das comunidades
(nações[3]) existentes no espaço
angolano (e do africano de uma forma geral também!), seria esperança vã.
Por outro lado, o acesso à independência
(independentemente da forma que assumiu) assentou sempre num “legado” colonial
ambíguo: se, por um lado, a autonomia
possibilitou uma “tomada das rédeas do poder” e a definição das estratégias futuras de desenvolvimento nacional, por outro
lado, deixou “marcas” profundas que se repercutiram (repercutem) em todos os domínios, – do paradigma governativo às abordagens
culturais passando pela estrutura económica deixada no terreno que se subordinava,
não a um desenvolvimento interno equilibrado, mas à satisfação de objectivos
impostos do exterior.
Nestas circunstâncias, na hora de aceder à
independência, para montar as suas estruturas jurídico-políticas e económicas, as jovens
nações africanas optaram por um dos dois únicos caminhos possíveis: ou reproduziram
os modelos europeus ocidentais (democracias representativas
multipartidárias), ou optaram pelo modelo antagónico do bloco comunista
(governos autoritários assentes num único partido).
Em qualquer dos casos, a adaptação dos modelos
adoptados à realidade africana lato sensu foi nula ou despicienda. Na generalidade optou-se
por uma reprodução de um mimetismo
quase total, assumindo-se como pressuposto que os modelos testados no espaço europeu tinham validade
universal e, por isso, seriam também aplicáveis em África. Como diz M. Moco (pg. 192): “o Estado-nação africano foi tomado como uma realidade igual à do Estado-nação
europeu” não carecendo por
isso de diferente estruturação. No
caso angolano, a desadaptação do estado à realidade é também uma evidência (pg. 154).
Em Angola, aliás, as próprias vicissitudes do
processo libertador, a descolonização
(entendida como o processo histórico de concertação bilateral que conduziu à independência) e os desenvolvimentos
históricos posteriores à independência
(nomeadamente a guerra civil e a aniquilação – quase sempre violenta, – de todas as “oposições”
ao partido no poder)
conduziram à definição de um estado unitário[4] (que mantem até hoje) onde,
numa primeira fase, se assistiu ao estabelecimento
de um regime autoritário de partido único (com uma sujeição completa do Estado
ao Partido[5]). Posteriormente, embora
se tenham efectuado alterações constitucionais que configuraram o estado como
uma democracia formal, a sua praxis, no
entender do Autor da presente obra, assemelha-se, de forma muito evidente, à de
um regime autocrático porquanto se
mantém inquestionável o domínio absoluto do partido que, por ter arrecado mais
votos, se apossou completamente da economia e do aparelho do estado e, em sucessivas alterações jurídicas, vai procedendo, na sua estrutura jurídico-legal, às re-configurações
que lhe possibilitam a sua perpetuação no poder (pg. 123).
Se, numa situação de coincidência directa entre
Estado e Nação, tal situação já seria deplorável, no caso angolano (e no da África
de forma geral) ele é muito mais preocupante e perigoso. Preocupante, porque
é um desvirtuamento grave de um dos aspectos fundamentais da democracia que é a
alternância; perigoso, porque gera tensões sociais capazes de por em perigo a
estabilidade e a paz do país.
Alberto Santos
Lisboa, Dez. – 2015
[1] País – Território geograficamente delimitado,
habitado por uma comunidade com história comum.
[2] Estado-nação – Agrupamento político autónomo que
ocupa um território com limites definidos e
cujos membros (povo), ainda que
não necessariamente com a mesma origem, língua, religião ou raça, respeitam
instituições compartidas (leis, constituição e
governo)
[3] Nação – Grupo de pessoas que acreditam possuir
(possuam ou não) uma tradição histórica e cultural comum e que se reconhecem como pertencentes
a esse grupo (“nós”) por oposição aos estranhos (“outros”).
A viagem de avião para a minha mais recente viagem à Polónia foi a ocasião, não programada mas propícia, para rever antigas recordações que me ligam a este país.
Uma das mais antigas, prende-se com a leitura de um romance, volumoso, que devorei nos verdes anos da minha juventude, o MILA 18.
MILA 18 é um romance que toma o nome de uma das ruas do gueto de Varsóvia (Ulica Mila) e o número 18 é o que identificava a porta por onde se acedia aos subterrâneos do gueto e ao bunker da ZOB, a Organização de Resistência Judaica que, durante a II Guerra, liderou e organizou a resistência judaica ao nazismo alemão.
Memorial que assinala o nº 18 da Rua Mila
Nos anos 60 do século passado, no meu tempo de adolescente e de leitura de romances, nenhum dos jovens estudantes liceais (ao menos os do meu círculo) desconhecia esse nome. Nesses tempos, MILA 18 era um dos romances de leitura obrigatória e o seu autor um daqueles cujas obras gozavam de popularidade e venda garantidas.
Os ecos da Guerra Mundial ainda se sentiam, intensos e dramáticos, apelando ao conhecimento do que se realmente se passara nesses anos de loucura. Por isso, às narrativas históricas da actividade militar, a leitura dos romances históricos sobre a guerra acrescentava cor, brilho e realismo aos dramas ocorridos nos diversos palcos da guerra
Nos dias de hoje, os ecos da guerra, do gueto, do nazismo, das deportações, da barbárie ou já se desvaneceram, ou estão profilaticamente enterrados na poeira da história, escondidos atrás duma ignorância que se ocupa de imaginários mais inócuos e menos aterradores. Infelizmente, já ninguém lê o Mila 18 e Leon Uris é, para a generalidade dos jovens actuais, um ilustre desconhecido.
Na primeira vez que estive em Varsóvia, – já lá vão algumas décadas, – relembrando essa leitura da minha juventude, a despeito da preenchida agenda de trabalho, não quis deixar de ver o que restava do mais célebre gueto polaco.
Por isso, no final de um dos dias de trabalho. pedi ao meu anfitrião (um jovem engenheiro mecânico polaco a quem a ocupação nazi da sua terra já pouco dizia, suplantada pela posterior ocupação russa e continuada por uma opressiva ditadura comunista imposta e apoiada pela URSS) que me levasse a visitar o gueto de Varsóvia.
O pedido, talvez estranho e despropositado, deixou atónito o meu anfitrião que me faz saber que muito pouco restava do antigo quarteirão onde estiveram confinados, a partir de 1940, mais de um milhão de judeus. Na sua maioria polacos, mas não exclusivamente polacos.
Mostrou-me apenas aquilo que seria o remanescente de todo o gueto: três edifícios de poucos pisos, paredes esburacadas, janelas entaipadas e em adiantado estado de degradação e ruína. Perguntei-lhe se não havia sinagogas. A resposta, negativa, foi aclarada com a indicação de que as vicissitudes da história as teriam convertido em igrejas de outros cultos que não o judaico!
Pensei para comigo que talvez os polacos não se sentissem confortáveis com o seu passado. Mas não! Constatei que, de facto, a cidade de Varsóvia (mas não só) tinha sido alvo de uma destruição maciça pelos sucessivos exércitos ocupantes. Aliás, esse facto estava patente por toda a cidade, especialmente no seu centro histórico. Todo espaço urbano parecia um gigantesco estaleiro, todo ele, literalmente, atulhado com os destroços das demolições ou com os materiais para as novas construções. Tantas eram as obras que, talvez com algum despropósito, não me coibi de chalacear sobre esta situação comentando: – primeiro vieram os alemães e destruíram um terço da cidade. Depois, chegaram os russos e destruíram o segundo terço. Enfim, vocês querem acabar com o resto!…
Não tenho a certeza que o meu guia improvisado tenha achado qualquer graça ao meu desabafo.
Depois desses primeiros contactos com a realidade polaca não voltei a Varsóvia senão passados onze anos. Desta vez, com tempo e disposição para me reconciliar com a cidade. E o meu espanto teve a mesma dimensão da desilusão dos primeiros tempos.
Do “estaleiro geral” tinha renascido uma cidade moderna que, apagadas as memórias da inestética má qualidade da arquitectura estalinista, não esqueceu o seu centro histórico e o reconstruiu exemplarmente.
Uma vez mais, tentei encontrar as recordações do gueto e as reminiscências do MILA 18.
In loco, pude confirmar que o que resta do gueto e da Grande Sinagoga de Varsóvia era praticamente nada. Todas as edificações do quarteirão judaico foram arrasadas por ordem do General Juergen Stroop depois de celebrada “vitória” de 16 de Maio de 1943 sobre os resistentes judeus que, no gueto, resolveram organizar-se e enfrentar o exército ocupante e a suas ordens de deportação.
Para lá de sinalética delimitadora do antigo gueto, apenas encontrei o memorial da célebre rua que dá o nome ao romance, alguns restos do muro que circundava toda a área e alguns (poucos) edifícios contemporâneos da revolta e da resistência dos judeus polacos.
Mas, a memória não foi apagada.
A barbárie nazi e as deportações do holocausto lá estão, lavradas na singeleza duradoira da pedra. Para que o mundo não esqueça e para que o caminho feito não volte a ser percorrido!