BRAGANÇA – Novas catedrais, novas arquitecturas

Sempre me habituei a olhar para os edifícios das catedrais (em especial das católicas) como exemplares paradigmáticos de formas arquitectónicas históricas, com séculos de depuramento, sempre imponentes e belas, independentemente da  fábrica que está na génese de cada uma delas.

Não sendo exclusivo nacional, esta constatação quase universal: um valor quase absoluto nas diversas paragens do continente europeu e um peso mais reduzido noutras regiões do mundo, de cristianização mais recente.

Vem isto a propósito da nova Sé Catedral da diocese Bragança-Miranda.

Inicialmente, todo o território do nordeste transmontano integrava a diocese única de Mirando Douro, instituída em 25-3-1545 por desmembramento do território da Diocese de Braga). Depois, o fluir da história conduziu ao declínio de Miranda e à ascensão de Bragança. E esta alteração teve consequências quer civis, quer eclesiásticas.

Miranda do Douro, a centralidade mais antiga que tutelava, para lá do seu próprio território, também as regiões bragantinas, assistiu, impotente, ao deslocamento da importância civil e religiosa para a cidade de Bragança.

Em termos religiosos, esse longo e atribulado ciclo de declínio pode considerar-se encerrado no final do século XX (27-5-1996), data em que o processo de fusão das duas dioceses se pode considerar concluído. A memória da antiga prevalência de Miranda apenas subsiste na designação: diocese de Bragança – Miranda.

Mas, voltemos à Sé Catedral.

Quando, em 1764, a sede da diocese (Miranda) se fixa em Bragança e, em 5 de Março de 1770, D. José conseguiu do Papa o beneplácito para a criação duma nova diocese nessa cidade (com território amputado a Miranda) foi necessário dar-lhe “sede”, ou seja, dotá-la de uma Sé.

À falta de melhor opção, a Igreja de S. João Baptista, – parte de um antigo convento, inicialmente destinado à Clarissas e que, por falta de candidatas a freiras, tinha sido entregue à Companhia de Jesus (desde 1561), – foi consagrada como Sé Catedral da nova diocese de Bragança e Miranda.

Ao que parece, – provavelmente porque se não considerava a Igreja existente (de traço jesuítico) com qualidade e grandeza suficientes para a dignidade catedralícia, – a solução foi sempre encarada como provisória. A partir de 1770 e por largas décadas, a necessidade de construção de uma nova catedral foi uma evidência inquestionável. Porém, apesar da unanimidade, a ideia nunca se transformou em realidade!

Só em 1981, o bispo de então, D. António Manuel Rafael recentemente falecido, decidiu construir a nova Catedral e, no ano seguinte, lançou a primeira pedra. A construção durou uns longos 20 anos e apenas em 7 de Outubro de 2001 a nova Catedral foi consagrada. É a primeira (e única) catedral construída neste século.

Independentemente da religiosidade e da fé de quem a visita, a Catedral de Bragança, dedicada a Nossa Senhora Rainha, é um exemplar de arquitectura religiosa moderna que merece referência e visita.

O projecto tem assinatura do arquitecto e urbanista Luís Vassalo Rosa (falecido em Junho deste ano) que conta, entre outras intervenções relevantes no todo nacional, o Plano de Urbanização da Expo 98 e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa.

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O edifício, de pedra e cores claras, dominado por uma torre altaneira onde se alojam 21 sinos de várias dimensões, situa-se numa plataforma pentagonal com cerca de 10.000 m2, numa elevação com larga visibilidade sobre a cidade, donde dialoga com o velho castelo, na colina oposta, do outro lado da cidade. No eixo imaginário que liga os dois “poderes”, desdobra-se o tecido urbano, desenhado pelas ruas e vielas da malha citadina.

De formato poligonal, o interior da igreja desenvolve-se em anfiteatro ocupando o altar-mor uma cota rebaixada em relação aos assistentes, proporcionando uma excelente visibilidade, qualquer que seja a localização no interior do espaço. Uma espécie de coro alto (na realidade, mais balcão que coro!…), de dimensões incomuns, corre adossado a todas paredes opostas ao altar-mor. O mobiliário e o revestimento das paredes, de madeira castanha clara, favorece a luminosidade do ambiente e a acústica dos actos.

No tecto, suportado por colunas em cruzeta e vigas que simulam as formas das abóbadas góticas, abrem-se clarabóias por onde jorram feixes de luz que iluminam o interior, com especial destaque para o altar e o painel cerâmico que cobre praticamente a totalidade da parede principal.

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Nessa parede, atrás do altar-mor, um belíssimo painel cerâmico gigante, da autoria do mestre Mário Silva onde se destaca um Cristo, de braços abertos, vestido com uma túnica azul de mangas longas e largas. Ao lado, o orago da Catedral: Nossa Senhora Rainha. À esquerda do altar-mor, do mesmo autor, um sacrário verdadeiramente inovador: uma espécie de cofre dourado, de formato circular, incrusta-se num relevo colorido que representa o território do distrito de Bragança onde se insere a catedral.

À direita do altar-mor, no nicho formado por uma parede semicircular, sobressai a pedra de mármore escura que constitui a pia baptismal. Atrás, na parede, um tríptico de mosaicos coloridos, assinados pela artista Ilda David: ao centro, o baptismo de Cristo; do lado direito, os discípulos de Emaús; à esquerda, o anjo da vida.

Em cada um deles, uma árvore típica da região: a amendoeira, o castanheiro e a oliveira. Todas elas com simbologia bíblica: o castanheiro, a árvore que renasce quando cortada, símbolo da ressurreição; a amendoeira, a árvore cuja floração assinala o fim do Inverno, símbolo da esperança e da renovação; a oliveira, símbolo da paz e da confiança.

Também o escultor José Rodrigues (com ligações familiares à região) quis enriquecer o conjunto significativo das obras de arte da nova catedral.

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São dele os sete vitrais alusivos às sete últimas palavras de Cristo na cruz que, desde 2012, enchem de cor o ambiente da igreja. Porém, o destaque da intervenção deste escultor, é a “Pietá”, esculpida em bronze, que ilustra a dor indescritível de qualquer mãe que, por força das circunstâncias da vida, se veja obrigada a carregar nos seus braços um filho morto.

A longa gestação, de várias décadas (a partir do projecto original) e a atribulada concretização (que se estendeu por mais de 20 anos) não constituíram razão suficiente para diminuir a qualidade arquitectónica e plástica da nova Catedral de Bragança, digna continuadora das magníficas catedrais do antigamente.

Independentemente do seu valor religioso para os que são cristãos, a nova Catedral de Bragança é uma obra digna de visita para todos os que disfrutam de liberdade mental suficiente para apreciar a arte para lá de qualquer fanatismo exclusivista e de ideologias constritoras da liberdade pessoal.

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O ESPOLIO FOTOGRÁFICO DE JOSÉ REDINHA

IMG_9888bUma das ferramentas essenciais que o etnógrafo José Redinha utilizou, para documentar as realidades socio-antropológicas que ia observando, foi a foto-grafia. Aliás, a máquina fotográfica foi a sua companheira inseparável: em campanha ou em viagem de lazer.

Nos lugares mais díspares e nos sítios geograficamente mais distantes o etnógrafo fez milhares de fotografias nos mais diversos suportes. Dos daguerreótipos às cópias em papel fotográfico, passando pelos slides e pelos negativos de diversos formatos, todos os suportes estão representados no vasto espólio que nos legou.

No seu espólio pessoal, nas suas publicações, no Museu do Dundo e em muitos outros locais é possível encontrar as suas fotografias. Fixando cenas anódinas da vida quotidiana, instantâneos da vida pessoal e familiar, mas, sobretudo, pessoas, objectos, actividades e representações que foi encontrando durante a sua vida como etnólogo em trabalho de campo.

Neste domínio, o registo fotográfico foi especialmente usado como documento privilegiado de vivências quotidianas, de estilos de vida e de detalhes antropológicos das sociedades e das pessoas que integravam as comunidades que foi encontrando ao longo da sua actividade. As fotografias servem, por isso, como ferramenta valiosa para a identificação, fixação, estudo e explicação de algumas formas e situações, pessoais ou comunitárias, que, de outra forma, poderiam subtrair-se à análise etnográfica.

Contudo, actualmente, a identificação, a interpretação e a utilização documental desse valioso espólio enfrenta algumas dificuldades. A maior das cópias fotográficas referentes à actividade etnográfica na Lunda, integrantes do espólio pessoal de José Redinha, dispõe de parca informação adicional sobre o local, a data e a descrição do conteúdo da imagem. A maioria apresenta, no verso, somente um número (que estamos em crer que seja o código de registo do original no inventário do Museu do Dundo) e um código identificativo do autor: duas letras, “JR”, às vezes, apenas uma “R”. Raras vezes uma breve descrição indicando o local, a comunidade ou a actividade retratada. Felizmente, um grande número delas está guardado em envelopes que geralmente referem o tema das fotos aí contidas.

Só um trabalho aturado de pesquisa, análise e classificação poderia permitir conhecer e revelar o valioso manancial de informação que se esconde por trás das imagens fixadas. Infelizmente, o projecto que iria integrar esta vertente de valorização do espólio pessoal de José Redinha, já depois de autorizado superiormente pelas entidades competentes, foi inviabilizado pela ganância vil de pessoas que deveriam ser os primeiros interessados nesse trabalho.

E, se dúvidas houvesse sobre a valia deste património iconográfico, deixem-me referir o que ocorreu numa das poucas ocasiões em que alguns exemplares fotográficos de José Redinha estiveram publicamente expostos.

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Em Maio de 2010, “Dia de África”, o Museu Afro Brasil e a Secretaria de Estado de S. Paulo promoveram várias iniciativas culturais para assinalar essa data. Tais comemorações integraram conferências e mesas redondas, mas também três exposições fotográficas. Uma delas, a que nos interessa, tinha por título “Isto foi o Ngola: isto é África”[1] e esteve patente no Museu Afro Brasil de 25 de Maio a 11 de Junho de 2010.

Esta exposição, publicitada na Agenda Cultural do Governo do Estado de S. Paulo[2], integrou trinta e cinco foto-grafias da autoria de José Redinha que pertencem ao espólio do Museu de cujo inventário constam, desde a sua integração oficial no ano de 2010[3].

À data da montagem da exposição, a autoria das fotografias não estava ainda completamente estabelecida e o especialista em arte africana, Dr. George Nelson Preston, professor no City College da Universidade de Nova Yorque, refere-se à origem das fotografias e ao seu autor da seguinte forma: “

“Menos de duas décadas após a viagem de Torday ao Bushong, em 1908[4], e contemporaneamente às suas visitas posteriores ao antigo Congo Belga, várias aldeias de Angola foram visitadas por um fotógrafo que, no momento, se deve manter anónimo nos estágios preliminares deste projecto em andamento. Não temos sequer certeza do seu sexo ou nacionalidade. Sabemos, isto sim, que foi uma pessoa de grande integridade. Milagrosamente, o fotógrafo carregava uma quantidade desprezível de bagagem eurocêntrica os retratos no estilo moribundo e tardio de um estúdio vitoriano. Interessado em “tipos de paisagem” ou em estereótipos de selvagens depravados.”

Só um pouco mais tarde foi estabelecida a autoria das fotografias assumindo-se que o “R” – que Preston refere aparecer no “canto inferior direito do verso” – corresponde a “Redinha”. Aliás, a justeza desta interpretação pôde ser por nós comprovada quando observámos centenas de outras imagens do mesmo tipo existentes no espólio pessoal de José Redinha e que mostram, de forma e em lugar idêntico, a mesma letra.

No caso vertente, as temáticas e a valia das imagens como documento etnográfico, mas, principalmente, a importância do espólio fotográfico de José Redinha pode inferir-se das palavras do especialista que vimos citando:

“Esta colecção de fotografias (…) proporciona-nos alguma percepção sobre a vida quotidiana do afro-angolano num ambiente tradicional.

Até mesmo o observador casual ficará impressionado com as revelações directas e imparciais do estilo de vida africano e da vida quotidiana nessas fotografias. Um observador mais crítico cedo descobrirá que essas fotografias oferecem valiosas referências sobre detalhes iconográficos: penteados, ornamentos e vestimentas retratados em esculturas colecionadas no sul do Zaire, nordeste da Zâmbia e em Angola.”

Pena é que as largas centenas, senão milhares, de fotografias que integram o espólio de José Redinha estejam a degradar-se, sem qualquer remorso, e sem que se cuide de dar-lhe o devido tratamento e o cuidado estudo que merecem.


[1] Notícia em https://imafotogaleria.wordpress.com/category/uncategorized/page/36/ (acedido em 06/09/2018)
[2] Vid. http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/ultimas-noticias/confira-as-atracoes-da-agenda-cultural-deste-final-de-semana-9/ (acedido em 31-05-2013).
[3] Cfr. DOSP – Diário Oficial do Estado de S. Paulo, secção I, nº 120 (163) de 27-08-2010, pgs 144-146. O espólio integra um total de 46 fotografias, todas a preto e branco, com diversas dimensões e várias temáticas embora todas referentes a populações de Angola.
[4] Preston está equivocado sobre a data em que as fotografias foram realizadas. Na realidade foi-lhe atribuída génese, no lapso temporal da década de 1920-30. Claramente, pelo que conhecemos actualmente da biografia de José Redinha, elas devem ter sido realizadas na década de 30 do século XX porquanto José Redinha apenas desembarca em Angola no final da década de 20 e só vai para a Lunda (local da maior parte da fotografias expostas) em meados da década de 30.
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Os burros dos padres…

Ilha da Cazanga_n

Igreja de S. João da Cazanga

Frente a Benfica e ao Museu da Escravatura, entre a “ilha” do Mussulo (que mais não é que uma península!) e o continente, situam-se três pequenas ilhotas que, actualmente, creio desertas. São: o ilhéu Deserto, o ilhéu dos Pássaros e, a maior das três, a ilha “dos Padres”; também conhecida por ilha da Cazanga.

O topónimo “dos padres” remonta ao tempo em que essa ilhota era ocupada apenas por padres e madres e o titular da sua propriedade era a Arquidiocese de Luanda. A despeito das alterações ocorridas, quer em termos de ocupação quer em sede de titularidade, o topónimo sobrevive.

No final dos anos 60 do século passado por várias vezes estive na Cazanga. Umas vezes para participar na festa do padroeiro, – S. João Baptista, – que se celebrava no próprio dia 24 de Junho, se este ocorresse em dia de domingo, ou, no domingo seguinte, se o dia do padroeiro ocorresse em dia de semana; outras vezes para acampar, com a rapaziada dos escuteiros, beneficiando das facilidades da missão dos padres (ou “dos rapazes”, como lhe chamávamos) apesar da proverbial embirração do padre Maréchal com os alíenigenas que ousavam perturbar a paz doméstica da “sua” missão.

Igreja da Kazanga

No topo norte da ilhota, bem em frente do ilhéu deserto ficava a Missão Feminina, local de visitas frequentes mas furtivas (não fosse dar-se o caso de um encontro desastroso com alguma das madres!…), para apreciar a beleza das “internas” que se mostravam sensíveis aos nossos galanteios desajeitados.

Nesses tempos, a ilhota era terra deserta e hostil onde só as espinheiras conseguiam obter o alimento mínimo para sobreviver. De animais, à excepção de algumas galinhas, magrísssimas e esquivas, só burros e cabras!

Apesar dos tratos que dei à imaginação, nunca consegui descortinar que subtil objectivo perseguia quem para ali levou tais animais. O certo é que eles lá estavam e, tal como os rapazes e as raparigas, separados por sexo: os burros (presumo que todos eles machos!…) eram pertença “dos padres” (um plural que encerrava para mim um outro mistério porque não conheci nunca qualquer outro padre que não fosse o cara-de-pau do padre Maréchal); as cabras (todas fêmeas, está visto!…) pertenciam às madres!

Uns e outras passeavam-se em plena liberdade pela ilha já que não havia qualquer risco de fuga. Que eu saiba, os animais não sabiam nadar e, por isso, seriam esbanjados os esforços e os recursos destinados a estabulá-los.

Acontece que, nesses tempos recuados, penso que à falta de local mais aprazível, D. Moisés, o arcebispo de Luanda, costumava passar alguns dias de descanso estival na “sua” ilha. Uns dias na missão masculina, outros, na missão das madres.

Contou-me ele, sufocado pelo riso, que todos os anos os seus dias de descanso eram ensombrados pelas queixas recorrentes, dos padres contra as cabras das madres que tosquiavam as míseras couves que, esforçadamente, ele e os seus rapazes teimavam em plantar naquele areeiro seco e estéril; das madres contra os burros dos padres, cabeludos esquálidos e manhosos que tinham o deplorável costume de visitar a pequena horta que também elas teimavam em manter!

E o bispo rematava com uma ponta de malícia: “Os burros dos padres e as cabras das madres, definitivamente, não se entendem!”

 

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Alenquer, 25-26.11.1967, na primeira pessoa

ALENQUER – memória da Cheia de 67

Este registo – que aqui fica para a posteridade, – é o relato-memória de uma pessoa que viveu essa noite trágica de 25 para 26 de Novembro de 1967.

“Naquela noite de sábado, aí pelas oito e meia da noite, já chovia! Uma chuva forte, continuada e aborrecida que, mesmo assim, não me impediu de procurar forma de iniciar da melhor forma um fim-de-semana que pretendia alegre e divertido.

Depois do jantar, como habitualmente, congregámos o nosso grupo de amigos que, à falta de alternativa mais atraente, concordou que deveríamos ir ao cinema.

Dirigimo-nos ao Cine Alenquer. Adquiridos os bilhetes e ultrapassado o controle de entradas, afundámo-nos nas cadeiras e esperámos pelo início da projecção. Lá fora, a chuva engrossava cada vez mais.

Já não me recordo do título do filme! Apenas me recordo que a cerca de meia hora de filme, a projecção extinguiu-se, mas as luzes não se acenderam.

– Faltou a luz! informou alguém lá para os lados da cabine de projecção.

Lá fora, a chuva não dava sinais de abrandar. E nós, na escuridão apenas riscada por ténues fogachos de luz, mantivémo-nos sentados à espera que o regresso da electricidade pertimisse retomar a projecção do filme. Demorou algum tempo, mas a electricidade voltou e a projecção foi retomada.

No exterior, a chuva não dava tréguas. Mas, para nós, isso era um detalhe insignificante, incapaz de alterar a nossa disposição de gozar o fim-de-semana.

Alguns minutos depois a electricidade voltou a faltar. Era demais! Nós, irritados com a intempestiva impossibilidade de assistir ao filme, decidimos que o melhor seria procurar outro local de diversão. Entre A Nau e o Sporting, as opiniões dividiram-se e o grupo também. Alguns atravessaram a ponte e dirigiram-se à cervejaria. O dono da viatura que nos transportava, um outro amigo e eu próprio, debaixo de uma chuva grossa e irritante, optámos por ir até à sede do Sporting, onde decorria um baile. Entrámos no carro e fomos até lá sempre acompanhados pela escuridão e pela chuva.

Parámos frente à sede e fizémos um compasso de espera para avaliação da intensidade da água que poderíamos apanhar até chegar à porta. O condutor foi o primeiro a abri a porta da viatura e a pôr o pé na rua.

– Eh pá! Isto está mau! Está tudo inundado! disse ele com a água a atingi-lo até ao meio da perna.

– Aqui o único que não sabe nadar és tu! brinquei eu. E abri também a porta. Coloquei o pé de fora, ouvi o ruído do sapato entrando na água, e senti as calças encharcadas até bem acima do tornozelo.

– Bolas! encolhi a perna e voltei a sentar-me. Do outro lado, o condutor tivera reacção idêntica. 

– Saiam daí! ouvimos alguém gritar. – Está tudo inundado! Fujam!

Nem pestanejámos. O condutor fez marcha atrás, arrancou, deu meia volta e começou a dirigir-se ao centro da Vila.

Não vão para aí! A água já tem mais de um metro na Rua de Triana! gritou a mesma voz que nos intimara a fugir dali. Voltámos a inverter a marcha e subimos rapidamente a avenida. Saímos para a Estrada Nacional e dirigimo-nos para Santa Catariana.

Ao chegar à ponte, parámos por momemtos e rapidamente nos apercebemos da dimensão da inundação. À nossa frente, do lado de lá da ponte, as luzes do automóvel reflectiam um imenso lençol de água que cobria por completo toda a zona. O pequeno rio estava transformado num imenso mar de água que cobria toda a baixa da vila. Os únicos lugares seguros, pareceu-nos, situavam-se na Vila Alta onde aliás, residia o condutor da viatura. 

Foi para lá que nos dirigimos procurando acolhimento na garagem do Dr. Teófilo Carvalho dos Santos onde permanecemos algum tempo, à espera que a borrasca amainasse.  

As primeiras horas da madrugada trouxeram alguma acalmia e resolvemos dirigir-nos para local onde, apesar da escuridão, pudéssemos ter uma percepção do que se estava a passar e que apenas pressentíamos. O barulho da chuva, o ruído das águas revoltas e os gritos de socorro que, da negrura da noite, e apesar da distância, nos chegavam, não indiciavam nada de bom.

E, foi à luz dos faróis da viatura que nos transportava que vislumbrámos a dimensão da tragédia. Aos nossos olhos, incrédulos, toda a baixa da Vila estava transformada num mar de água escura, lodo, detritos, destroços e gritos aflitivos de gente fustigada pela tragédia.”

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