ALENQUER – memória da Cheia de 67
Este registo – que aqui fica para a posteridade, – é o relato-memória de uma pessoa que viveu essa noite trágica de 25 para 26 de Novembro de 1967.
“Naquela noite de sábado, aí pelas oito e meia da noite, já chovia! Uma chuva forte, continuada e aborrecida que, mesmo assim, não me impediu de procurar forma de iniciar da melhor forma um fim-de-semana que pretendia alegre e divertido.
Depois do jantar, como habitualmente, congregámos o nosso grupo de amigos que, à falta de alternativa mais atraente, concordou que deveríamos ir ao cinema.
Dirigimo-nos ao Cine Alenquer. Adquiridos os bilhetes e ultrapassado o controle de entradas, afundámo-nos nas cadeiras e esperámos pelo início da projecção. Lá fora, a chuva engrossava cada vez mais.
Já não me recordo do título do filme! Apenas me recordo que a cerca de meia hora de filme, a projecção extinguiu-se, mas as luzes não se acenderam.
– Faltou a luz! informou alguém lá para os lados da cabine de projecção.
Lá fora, a chuva não dava sinais de abrandar. E nós, na escuridão apenas riscada por ténues fogachos de luz, mantivémo-nos sentados à espera que o regresso da electricidade pertimisse retomar a projecção do filme. Demorou algum tempo, mas a electricidade voltou e a projecção foi retomada.
No exterior, a chuva não dava tréguas. Mas, para nós, isso era um detalhe insignificante, incapaz de alterar a nossa disposição de gozar o fim-de-semana.
Alguns minutos depois a electricidade voltou a faltar. Era demais! Nós, irritados com a intempestiva impossibilidade de assistir ao filme, decidimos que o melhor seria procurar outro local de diversão. Entre A Nau e o Sporting, as opiniões dividiram-se e o grupo também. Alguns atravessaram a ponte e dirigiram-se à cervejaria. O dono da viatura que nos transportava, um outro amigo e eu próprio, debaixo de uma chuva grossa e irritante, optámos por ir até à sede do Sporting, onde decorria um baile. Entrámos no carro e fomos até lá sempre acompanhados pela escuridão e pela chuva.
Parámos frente à sede e fizémos um compasso de espera para avaliação da intensidade da água que poderíamos apanhar até chegar à porta. O condutor foi o primeiro a abri a porta da viatura e a pôr o pé na rua.
– Eh pá! Isto está mau! Está tudo inundado! disse ele com a água a atingi-lo até ao meio da perna.
– Aqui o único que não sabe nadar és tu! brinquei eu. E abri também a porta. Coloquei o pé de fora, ouvi o ruído do sapato entrando na água, e senti as calças encharcadas até bem acima do tornozelo.
– Bolas! encolhi a perna e voltei a sentar-me. Do outro lado, o condutor tivera reacção idêntica.
– Saiam daí! ouvimos alguém gritar. – Está tudo inundado! Fujam!
Nem pestanejámos. O condutor fez marcha atrás, arrancou, deu meia volta e começou a dirigir-se ao centro da Vila.
Não vão para aí! A água já tem mais de um metro na Rua de Triana! gritou a mesma voz que nos intimara a fugir dali. Voltámos a inverter a marcha e subimos rapidamente a avenida. Saímos para a Estrada Nacional e dirigimo-nos para Santa Catariana.
Ao chegar à ponte, parámos por momemtos e rapidamente nos apercebemos da dimensão da inundação. À nossa frente, do lado de lá da ponte, as luzes do automóvel reflectiam um imenso lençol de água que cobria por completo toda a zona. O pequeno rio estava transformado num imenso mar de água que cobria toda a baixa da vila. Os únicos lugares seguros, pareceu-nos, situavam-se na Vila Alta onde aliás, residia o condutor da viatura.
Foi para lá que nos dirigimos procurando acolhimento na garagem do Dr. Teófilo Carvalho dos Santos onde permanecemos algum tempo, à espera que a borrasca amainasse.
As primeiras horas da madrugada trouxeram alguma acalmia e resolvemos dirigir-nos para local onde, apesar da escuridão, pudéssemos ter uma percepção do que se estava a passar e que apenas pressentíamos. O barulho da chuva, o ruído das águas revoltas e os gritos de socorro que, da negrura da noite, e apesar da distância, nos chegavam, não indiciavam nada de bom.
E, foi à luz dos faróis da viatura que nos transportava que vislumbrámos a dimensão da tragédia. Aos nossos olhos, incrédulos, toda a baixa da Vila estava transformada num mar de água escura, lodo, detritos, destroços e gritos aflitivos de gente fustigada pela tragédia.”