É facto mais ou menos consensual na história da difusão da técnicas que a moagem de cereais com recurso à energia eólica, fora da Ásia e da Europa, se deve à colonização europeia. Teriam sido esses colonizadores que, conhecedores dessa técnica, a teriam replicado nos novos locais de fixação.
Mostert´s mill (vista actual)
No que toca ao continente americano, os exemplares conhecidos por todo o continente são facilmente identificados com as tipologias existentes nos países europeus de origens dos colonizadores. As datações atribuídas à sua construção. estabelecidas em face dos exemplares subsistentes, reforçam a opinião de que terão sido os Espanhóis, os Portugueses e os Holandeses a difundir os moinhos de vento no continente americano.
Na África, esquecida a África do Norte que bordeja o Mediterrâneo onde são conhecidos alguns exemplares instalados pelos árabes, mas também pelos espanhóis (Oliveira, 1983: 236) são escassíssimas as informações sobre instalações de moagem com recurso à energia eólica. Referem-se quase exclusivamente à África do Sul que, na Província do Cabo e arredores, mantém um número significativo de exemplares com utilizações diversas.
Construídos entre 1717 e 1860, os moinhos sul-africanos filiam-se em três tipologias típicas, de proveniência holandesa: o moinho-poste, moinho-torre e, uma variante deste, o moinho-blusa (na designação de Veiga de Oliveira ou, na designação inglesa, smock mill). Pelo menos um destes sobreviventes, o Nieuwe Molen (moinho novo) em Maitland, na cidade do Cabo, está classificado na lista de Monumentos Nacionais da África do Sul desde 1978.
Mostert’s Mill (por volta de 1900)
Para além de alguns exemplares que foram reconduzidos à sua função original de produção de farinha (por exemplo o Mostert´s mill, talvez o mais bem conservado exemplar), os outros adquiriram novas funções: museu (o de Loeriesfontein), eco-museu (o Oude Molen eco-village), alojamento turístico (um resort com o curioso nome de Club Mykonos, uma referência explícita à famosa ilha grega e aos seus célebres moinhos de vento), restaurante, clube de mergulho (localização muito perto da costa, em Port Elizabeth) e até um Casino!

Windmill Casino em Bloomfontein
Esta era a única informação que possuía até que, há poucos dias, deparei com esta fotografia extraordinária!
A fotografia, que encontrei inserida num
blog dedicado às “coisas” do Sul de
Angola (Angola profunda, post de 12.06.2014, acedido em 28-05-2016) reporta-se à cidade de Moçâmedes, em Angola, embora o local fotografado seja, de facto, nos arredores da cidade. Especificamente junto à estrada de saída para Porto Alexandre (actualmente Tombwa). Tem, manuscrita a data de 23/7/1922.
O contacto com o administrador da página para informação mais aprofundada sobre a origem da fotografia, redundou num fracasso. Também nada sabia sobre ela e desconhecia totalmente a sua proveniência.
Pesquisas posteriores, permitiram-me encontrar uma reprodução desta fotografia no livro de E. Veiga de Oliveira et alii (Sistemas de moagem, INIC, Lisboa, 1983, pg. 238). Em Nota, o autor refere que “o moinho de tipo mediterrânico” (como o que aparece na fotografia) aparece em Moçamedes, levado por portugueses e posto a funcionar em 1853. Veiga de Oliveira, na mesma Nota, remete a proveniência da fotografia para a obra de Carlos Lopes Cardoso sobre os Primitivos sistemas de farinação de cereais no Distrito de Moçamedes.
Anteriormente já tinha encontrado a mesma imagem (imagem acima), num Bilhete-postal (com carimbo e selo de correio de 1907), editado por Mário Alfredo, na cidade de Moçâmedes.
O exemplar mais recente, que tem, manuscrita, a data de23 de Junho de 1922, é um dos documentos que integra o espólio de Jaime de Morais (médico e capitão-tenente que ocupou vários cargos na estrutura governativa colonial angolana entre 1911 e 1917) existente na Fundação Mário Soares.
Uma análise comparativa entre as diversas “versões” da fotografia suscita algumas considerações pertinentes.
Em primeiro lugar, a data de construção (ou de inauguração) indicada por Veiga de Oliveira, 1853, parece-nos muito serôdia face se atendermos que a implantação dos primeiros colonos portugueses, (que, vindos de Pernambuco, chegaram em duas levas: a primeira em 1849 e a segunda em 1850) só tem lugar depois . Considerando, portanto, que os primeiros anos foram instalação, frustração e desânimo; que só em 1855 o pequeno aglomerado foi elevado a vila e que só em 1859-60 se entra numa fase de crescimento, prosperidade e auto-suficiência alimentar (referida nomeadamente numa comunicação dessa época, do Marquês de Sá da Bandeira à Câmara de deputados), até novas averiguações, considero que a data mais verosímil de construção do moinho referida por Veiga deverá ser na segunda metada da década de 50 do século XIX.
A segunda questão refere-se ao trajecto seguido pela tecnologia até chegar a Moçamedes. Parece-me inquestionável que a origem da tecnologia moageira utilizada será portuguesa. Porém, para chegar a Angola, o trânsito terá sido feito pelo Brasil, especificamente por Pernambuco já que daí provieram as famílias que primeiro se fixaram nessas paragens. E, como no Brasil está registada a presença deste tipo de moinhos, não será desprovido de sentido que esta técnica de farinação fizesse viagem com os primeiros povoadores.
A terceira questão centra-se na relação entre as diversas “versões” da mesma imagem. Há, pelo menos, três “versões”: a do livro de Lopes Cardoso (que não possui qualquer legenda identificativa impressa); a do Bilhete-postal de 1907 (que tem uma legenda na margem inferior) e a de 1922 (que tem uma legenda impressa sobre a própria fotografia no canto superior esquerdo.
Qual das fotografias será a original?
Assumindo que a imagem do livro de Lopes Cardoso (e reproduzida no de Veiga de Oliveira) não foi manipulada, ela será o original utilizado para a produção dos dois bilhetes-postais. Mas essa é a menor das questões! Porque, de qualquer forma, a imagem, pelos elementos que insere, é um documento extraordinário e demonstra, em primeiro lugar, a existência de moinhos de vento na África, fora da área de influência holandesa, e com tecnologia portuguesa; depois, a utilização de camelos como animais de carga e, finalmente, a subsistência de carregadores nesta região costeira do sudoeste de Angola no início do século XX.
Quanto aos camelos, importados das Canárias pela similitude climática de ambas as regiões, foram introduzidos em Moçâmedes nessa época, numa tentativa imaginativa para resolver o problema dos transportes numa região arenosa e semi-desértica. Mais tarde, uma outra tentativa de aclimatação de animais importados foi feita na Lunda sob a direcção da recém criada Companhia dos Diamantes de Angola.
Tanto num caso como noutro, a imaginosa tentativa de solução do problema dos transportes não teve continuidade. Na Lunda, os animais desapareceram sem deixar vestígios, em Moçamedes os animais tiveram vida mais longa: uma amiga nossa garantiu-nos que eles ainda existiam na Chibemba (município de Gambos, província da Huíla) nos anos 50 do século passado e o fotógrafo Charles Pinheira (Angola 1 – As nossas aventuras, disponível em http://palancanegra.com/images/pdf/Angola%201.pdf) refere ter encontrado vários exemplares, em estado selvagem, no Parque Nacional do Iona, a sul de Moçamedes, que, aliás, fotografou. Todavia, não nos foi possível, confirmar a existência actual da espécie nesta região.
No caso dos moinhos movidos a água, sabe-se que foi a instalação dos bóeres na região da

Azenha bóer na Humpata (Angola)
Huíla (a partir de 1880 e até 1926, fugidos à guerra anglo-boer), deu lugar à construção de moinhos de água, nomeadamente azenhas de roda vertical com propulsão média, como a que a fotografia documenta. A região onde maioritariamente se instalaram, possui boas condições hidrográficas para accionar tais estruturas moageiras.
No restante território angolano, nas décadas de 60 a 80 do século XX, não constatei nunca o uso destas formas de energia (de água ou de vento) para moer de cereais. A farinação era, na generalidade dos casos, feita, ou or processos arcaicos (pilão), ou por processos modernos (moinhos de martelos de propulsão eléctrica). O que se podia facilmente constatar nessa época, em praticamente todo o território de Angola, era a presença altaneira de turbinas metálicas (entre nós usadas nos moinhos “de armação” também designados por “americanos”) sem funções moageiras. Estas turbinas eólicas, em Angola, eram usadas essencialmente para bombear água, das cacimbas ou dos poços, para os tanques de abastecimento das pessoas ou do gado.
A despeito da exiguidade dos vestígios, a imagem do bilhete-postal que aqui deixamos vem comprovar inequivocamente que, tal como para o continente americano, também para África os colonizadores europeus transportaram as tecnologias de farinação que usavam nas suas regiões de origem. Moinhos de vento – na versão lusitana (estrutura fixa de alvenaria, dois pisos, capelo giratório e velas latinas, mas sem búzios!) ou na versão holandesa (moinhos de poste e de torre).