Uma das ferramentas essenciais que o etnógrafo José Redinha utilizou, para documentar as realidades socio-antropológicas que ia observando, foi a foto-grafia. Aliás, a máquina fotográfica foi a sua companheira inseparável: em campanha ou em viagem de lazer.
Nos lugares mais díspares e nos sítios geograficamente mais distantes o etnógrafo fez milhares de fotografias nos mais diversos suportes. Dos daguerreótipos às cópias em papel fotográfico, passando pelos slides e pelos negativos de diversos formatos, todos os suportes estão representados no vasto espólio que nos legou.
No seu espólio pessoal, nas suas publicações, no Museu do Dundo e em muitos outros locais é possível encontrar as suas fotografias. Fixando cenas anódinas da vida quotidiana, instantâneos da vida pessoal e familiar, mas, sobretudo, pessoas, objectos, actividades e representações que foi encontrando durante a sua vida como etnólogo em trabalho de campo.
Neste domínio, o registo fotográfico foi especialmente usado como documento privilegiado de vivências quotidianas, de estilos de vida e de detalhes antropológicos das sociedades e das pessoas que integravam as comunidades que foi encontrando ao longo da sua actividade. As fotografias servem, por isso, como ferramenta valiosa para a identificação, fixação, estudo e explicação de algumas formas e situações, pessoais ou comunitárias, que, de outra forma, poderiam subtrair-se à análise etnográfica.
Contudo, actualmente, a identificação, a interpretação e a utilização documental desse valioso espólio enfrenta algumas dificuldades. A maior das cópias fotográficas referentes à actividade etnográfica na Lunda, integrantes do espólio pessoal de José Redinha, dispõe de parca informação adicional sobre o local, a data e a descrição do conteúdo da imagem. A maioria apresenta, no verso, somente um número (que estamos em crer que seja o código de registo do original no inventário do Museu do Dundo) e um código identificativo do autor: duas letras, “JR”, às vezes, apenas uma “R”. Raras vezes uma breve descrição indicando o local, a comunidade ou a actividade retratada. Felizmente, um grande número delas está guardado em envelopes que geralmente referem o tema das fotos aí contidas.
Só um trabalho aturado de pesquisa, análise e classificação poderia permitir conhecer e revelar o valioso manancial de informação que se esconde por trás das imagens fixadas. Infelizmente, o projecto que iria integrar esta vertente de valorização do espólio pessoal de José Redinha, já depois de autorizado superiormente pelas entidades competentes, foi inviabilizado pela ganância vil de pessoas que deveriam ser os primeiros interessados nesse trabalho.
E, se dúvidas houvesse sobre a valia deste património iconográfico, deixem-me referir o que ocorreu numa das poucas ocasiões em que alguns exemplares fotográficos de José Redinha estiveram publicamente expostos.

Em Maio de 2010, “Dia de África”, o Museu Afro Brasil e a Secretaria de Estado de S. Paulo promoveram várias iniciativas culturais para assinalar essa data. Tais comemorações integraram conferências e mesas redondas, mas também três exposições fotográficas. Uma delas, a que nos interessa, tinha por título “Isto foi o Ngola: isto é África”[1] e esteve patente no Museu Afro Brasil de 25 de Maio a 11 de Junho de 2010.
Esta exposição, publicitada na Agenda Cultural do Governo do Estado de S. Paulo[2], integrou trinta e cinco foto-grafias da autoria de José Redinha que pertencem ao espólio do Museu de cujo inventário constam, desde a sua integração oficial no ano de 2010[3].
À data da montagem da exposição, a autoria das fotografias não estava ainda completamente estabelecida e o especialista em arte africana, Dr. George Nelson Preston, professor no City College da Universidade de Nova Yorque, refere-se à origem das fotografias e ao seu autor da seguinte forma: “
“Menos de duas décadas após a viagem de Torday ao Bushong, em 1908[4], e contemporaneamente às suas visitas posteriores ao antigo Congo Belga, várias aldeias de Angola foram visitadas por um fotógrafo que, no momento, se deve manter anónimo nos estágios preliminares deste projecto em andamento. Não temos sequer certeza do seu sexo ou nacionalidade. Sabemos, isto sim, que foi uma pessoa de grande integridade. Milagrosamente, o fotógrafo carregava uma quantidade desprezível de bagagem eurocêntrica os retratos no estilo moribundo e tardio de um estúdio vitoriano. Interessado em “tipos de paisagem” ou em estereótipos de selvagens depravados.”
Só um pouco mais tarde foi estabelecida a autoria das fotografias assumindo-se que o “R” – que Preston refere aparecer no “canto inferior direito do verso” – corresponde a “Redinha”. Aliás, a justeza desta interpretação pôde ser por nós comprovada quando observámos centenas de outras imagens do mesmo tipo existentes no espólio pessoal de José Redinha e que mostram, de forma e em lugar idêntico, a mesma letra.
No caso vertente, as temáticas e a valia das imagens como documento etnográfico, mas, principalmente, a importância do espólio fotográfico de José Redinha pode inferir-se das palavras do especialista que vimos citando:
“Esta colecção de fotografias (…) proporciona-nos alguma percepção sobre a vida quotidiana do afro-angolano num ambiente tradicional.
Até mesmo o observador casual ficará impressionado com as revelações directas e imparciais do estilo de vida africano e da vida quotidiana nessas fotografias. Um observador mais crítico cedo descobrirá que essas fotografias oferecem valiosas referências sobre detalhes iconográficos: penteados, ornamentos e vestimentas retratados em esculturas colecionadas no sul do Zaire, nordeste da Zâmbia e em Angola.”
Pena é que as largas centenas, senão milhares, de fotografias que integram o espólio de José Redinha estejam a degradar-se, sem qualquer remorso, e sem que se cuide de dar-lhe o devido tratamento e o cuidado estudo que merecem.
É criminoso um espólio desta dimensão não estar num museu…é o que temos em termos culturais
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Completamente de acordo!
E o espolio fotográfico é apenas um parte da totalidade do espólio…
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Sim os carvões são magnificos e as aguarelas também, lamentávelmente as peças são, na sua maior parte dos escultores do Dundo, porém tem peças magnificas. O que eu não daria para ter algumas peças do Redinha…. lamentávelmente sou apenas um apaixonado pela arte africana e um modesto colecionador, admirador desse notável homem… pode ser que um dia tenha uma peça para a mminha modestissima coleção…vida de funcionário publico é assim … enorme abraço e parabéns pelo artigo… magnifico e rigoroso
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Enfim um homem extraordinário pouco valorizado….
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Foi um homem para além do seu tempo, enorme, adoro tudo o que escreveu, se tivesse dinheiro o espólio ficaria em minha casa especialmente as peças…e os carvões, lamentávelmente fiquei apenas com os livros que comprei aqui e ali. Como gostava de ter meia duzia de peças do mestre Redinha… era Natal mais cedo…
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