Moinhos de vento em África

É facto mais ou menos consensual na história da difusão da técnicas que a moagem de cereais com recurso à energia eólica, fora da Ásia e da Europa, se deve à colonização europeia. Teriam sido esses colonizadores que, conhecedores dessa técnica, a teriam replicado nos novos locais de fixação.

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Mostert´s mill (vista actual)

 

No que toca ao continente americano, os exemplares conhecidos por todo o continente são facilmente identificados com as tipologias existentes nos países europeus de origens dos colonizadores. As datações atribuídas à sua construção. estabelecidas em face dos exemplares subsistentes, reforçam a opinião de que terão sido os Espanhóis, os Portugueses  e os Holandeses a difundir os moinhos de vento no continente americano.

Na África, esquecida a África do Norte que bordeja o Mediterrâneo onde são conhecidos alguns exemplares instalados pelos árabes, mas também pelos espanhóis (Oliveira, 1983: 236) são escassíssimas as informações sobre instalações de moagem com recurso à energia eólica. Referem-se quase exclusivamente à África do Sul que, na Província do Cabo e arredores, mantém um número significativo de exemplares com utilizações diversas.

Construídos entre 1717 e 1860, os moinhos sul-africanos filiam-se em três tipologias típicas, de proveniência holandesa: o moinho-poste, moinho-torre e, uma variante deste, o moinho-blusa (na designação de Veiga de Oliveira ou, na designação inglesa, smock mill). Pelo menos um destes sobreviventes, o Nieuwe Molen (moinho novo) em Maitland, na cidade do Cabo, está classificado na lista de Monumentos Nacionais da África do Sul desde 1978.

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Mostert’s Mill (por volta de 1900)

 

Para além de alguns exemplares que foram reconduzidos à sua função original de produção de farinha (por exemplo o Mostert´s mill, talvez o mais bem conservado exemplar), os outros adquiriram novas funções: museu (o de Loeriesfontein), eco-museu (o Oude Molen eco-village), alojamento turístico (um resort com o curioso nome de Club Mykonos, uma referência explícita à famosa ilha grega e aos seus célebres moinhos de vento), restaurante, clube de mergulho (localização muito perto da costa, em Port Elizabeth) e até um Casino!

Windmill-casino_Blomfontein

Windmill Casino em Bloomfontein

Esta era a única informação que possuía até que, há poucos dias, deparei com esta fotografia extraordinária!

A fotografia, que encontrei inserida numMoinho de vento e camelos
blog
dedicado às “coisas” do Sul de
Angola (Angola profunda, post de 12.06.2014, acedido em 28-05-2016) reporta-se à cidade de Moçâmedes, em Angola, embora o local fotografado seja, de facto, nos arredores da cidade. Especificamente junto à estrada de saída para Porto Alexandre (actualmente Tombwa). Tem, manuscrita a data de 23/7/1922.

O contacto com o administrador da página para informação mais aprofundada sobre a origem da fotografia, redundou num fracasso. Também nada sabia sobre ela e desconhecia totalmente a sua proveniência.

Pesquisas posteriores, permitiram-me encontrar uma reprodução desta fotografia no livro de E. Veiga de Oliveira et alii (Sistemas de moagem, INIC, Lisboa, 1983, pg. 238). Em Nota, o autor refere que “o moinho de tipo mediterrânico” (como o que aparece na fotografia) aparece em Moçamedes, levado por portugueses e posto a funcionar em 1853. Veiga de Oliveira, na mesma Nota, remete a proveniência da fotografia para a obra de Carlos Lopes Cardoso sobre os Primitivos sistemas de farinação de cereais no Distrito de Moçamedes.

Anteriormente já tinha encontrado a mesma imagem (imagem acima), num Bilhete-postal (com carimbo e selo de correio de 1907), editado por Mário Alfredo, na cidade de Moçâmedes.

Moinho de vento_MossamedesO exemplar mais recente, que tem, manuscrita, a data de23 de Junho de 1922, é um dos documentos que integra o espólio de Jaime de Morais (médico e capitão-tenente que ocupou vários cargos na estrutura governativa colonial angolana entre 1911 e 1917) existente na Fundação Mário Soares.

Uma análise comparativa entre as diversas “versões” da fotografia suscita algumas considerações pertinentes.

Em primeiro lugar, a data de construção (ou de inauguração) indicada por Veiga de Oliveira, 1853, parece-nos muito serôdia face se atendermos que a implantação dos primeiros colonos portugueses, (que, vindos de Pernambuco, chegaram em duas levas: a primeira em 1849 e a segunda em 1850) só tem lugar depois . Considerando, portanto, que os primeiros anos foram instalação, frustração e desânimo;  que só em 1855 o pequeno aglomerado foi elevado a vila e que só em 1859-60 se entra numa fase de crescimento, prosperidade e auto-suficiência alimentar (referida nomeadamente numa comunicação dessa época, do Marquês de Sá da Bandeira à Câmara de deputados), até novas averiguações, considero que a data mais verosímil de construção do moinho referida por Veiga deverá ser na segunda metada da década de 50 do século XIX.

A segunda questão refere-se ao trajecto seguido pela tecnologia até chegar a Moçamedes. Parece-me inquestionável que a origem da tecnologia moageira utilizada será portuguesa. Porém, para chegar a Angola, o trânsito terá sido feito pelo Brasil, especificamente por Pernambuco já que daí provieram as famílias que primeiro se fixaram nessas paragens. E, como no Brasil está registada a presença deste tipo de moinhos, não será desprovido de sentido que esta técnica de farinação fizesse viagem com os primeiros povoadores.

A terceira questão centra-se na relação entre as diversas “versões” da mesma imagem. Há, pelo menos, três “versões”: a do livro de Lopes Cardoso (que não possui qualquer legenda identificativa impressa); a do Bilhete-postal de 1907 (que tem uma legenda na margem inferior) e a de 1922 (que tem uma legenda impressa sobre a própria fotografia no canto superior esquerdo.

Qual das fotografias será a original?

Assumindo que a imagem do livro de Lopes Cardoso (e reproduzida no de Veiga de Oliveira) não foi manipulada, ela será o original utilizado para a produção dos dois bilhetes-postais. Mas essa é a menor das questões! Porque, de qualquer forma, a imagem, pelos elementos que insere, é um documento extraordinário e demonstra, em primeiro lugar, a existência de moinhos de vento na África, fora da área de influência holandesa, e com tecnologia portuguesa; depois, a utilização de camelos como animais de carga e, finalmente, a subsistência de carregadores nesta  região costeira do sudoeste de Angola no início do século XX.

Quanto aos camelos, importados das Canárias pela similitude climática de ambas as regiões, foram introduzidos em Moçâmedes nessa época, numa tentativa imaginativa para resolver o problema dos transportes numa região arenosa e semi-desértica. Mais tarde, uma outra tentativa de aclimatação de animais importados foi feita na Lunda sob a direcção da recém criada Companhia dos Diamantes de Angola.

Tanto num caso como noutro, a imaginosa tentativa de solução do problema dos transportes não teve continuidade. Na Lunda, os animais desapareceram sem deixar vestígios, em Moçamedes os animais tiveram vida mais longa: uma amiga nossa garantiu-nos que eles ainda existiam na Chibemba (município de Gambos, província da Huíla) nos anos 50 do século passado e o fotógrafo Charles Pinheira (Angola 1 – As nossas aventuras, disponível em http://palancanegra.com/images/pdf/Angola%201.pdf)  refere ter encontrado vários exemplares, em estado selvagem, no Parque Nacional do Iona, a sul de Moçamedes, que, aliás, fotografou. Todavia, não nos foi possível,  confirmar a existência actual da espécie nesta região.

No caso dos moinhos movidos a água, sabe-se que foi a instalação dos bóeres na região da

Angola_Afrikaner_mill_at_Humpata

Azenha bóer na Humpata (Angola)

Huíla (a partir de 1880 e até 1926, fugidos à guerra anglo-boer), deu lugar à construção de moinhos de água, nomeadamente azenhas de roda vertical com propulsão média, como a que a fotografia documenta. A região onde maioritariamente se instalaram, possui boas condições hidrográficas para accionar tais estruturas moageiras.

No restante território angolano, nas décadas de 60 a 80 do século XX, não constatei nunca o uso destas formas de energia (de água ou de vento) para moer de cereais. A farinação era, na generalidade dos casos, feita, ou or processos arcaicos (pilão), ou por processos modernos (moinhos de martelos de propulsão eléctrica). O que se podia facilmente constatar nessa época, em praticamente todo o território de Angola, era a presença altaneira de turbinas metálicas (entre nós usadas nos moinhos “de armação” também designados por “americanos”) sem funções moageiras. Estas turbinas eólicas, em Angola, eram usadas essencialmente para bombear água, das cacimbas ou dos poços, para os tanques de abastecimento das pessoas ou do gado.

A despeito da exiguidade dos vestígios, a imagem do bilhete-postal que aqui deixamos  vem comprovar inequivocamente que, tal como para o continente americano, também para África os colonizadores europeus transportaram as tecnologias de farinação que usavam nas suas regiões de origem. Moinhos de vento – na versão lusitana (estrutura fixa de alvenaria, dois pisos, capelo giratório e velas latinas, mas sem búzios!) ou na versão holandesa (moinhos de poste e de torre).

 

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Alenquer 25-11-1967

26-11-1967 Alenquer está de luto

26-11-1967
Alenquer está de luto

Ao contrário do que acontece hoje, o dia 25 de Novembro de 1967 foi um típico dia de inverno: chuvoso, baço, frio e nublado. Nada, porém, que fizesse adivinhar a catástrofe!

À medida que as horas iam passando, a chuva, em vez esmorecer e dar tréguas, vai engrossando cada vez mais, sem parar, até às primeiras horas da madrugada. Das 18 horas à meia-noite, a precipitação foi de 92 mm, “um recorde nos últimos 100 anos” como refere a imprensa da época.

A precipitação foi de tal forma intensa que, em poucas horas, todas as ribeiras e os rios da região atingiram caudais extremamente elevados, extravasaram os seus leitos, destruíram pontes (em Alenquer, das quatro pontes que ligavam as duas margens do rio, apenas uma ficou transitável!), estradas, casas, condutas de drenagem e vias de comunicação.

Com a cheia do rio a ultrapassar todas as outras cheias conhecidas, a morte e a destruição espalhou-se pelas margens do rio Alenquer e espraiou-se pela vila.

Geografia da cheia

Em Alenquer, toda a “baixa” da vila ficou completamente inundada!

Da ponte do Barnabé (severamente danificada) à Romeira (onde cerda de 6.000 galinhas da Avinova tiveram morte imediata), escoadas as águas, ficou apenas lama, lixo e destroços.

A fúria da água não poupou nada! Nem a forças das estruturas industriais existentes conseguiu enfrentar a força destruidora da cheia.

Na Fábrica de Cartão e Papel da Ota, as instalações foram completamente amputadas em cerca de 20 metros em toda a sua extensão com as bobines de papel e as pesadas máquinas transportadas pela enxurrada a distância inacreditável. Na Fábrica de Lanifícios do Tejo (Chemina) os danos que se verificaram foram severos na Moagem Hidráulica de Alenquer as perdas foram severas: para lá de equipamentos arrastados pela força da água, foram inutilizadas muitas toneladas de cereais e farinha que aí se encontravam a aguardar moagem ou transporte para os seus destinos. O mesmo destino tiveram cerca de mil toneladas de trigo que estavam armazenadas nos celeiros da FNPT (Federação Nacional dos Produtores de Trigo), destruídos pela água numa perda que se calculou na época em “mais de 3 mil contos” (cerca de 15.000 euros).

No centro da vila, residências, estabelecimentos comerciais e todo o tipo de instalações existentes foram inundados.

No “Cine Alenquer”, a sala de cinema da vila, a água subiu aos 3 metros e a plateia ficou totalmente inutilizada. O posto da PSP (ainda havia polícia em Alenquer) n~ºao escapou aos prejuízos e a Agência do Banco Fonseca & Burnay foi invadida pela água e pela lama (no meio da tragédia. Um pormenor curioso: na agência, o relógio existente parou às três horas e cinco minutos da madrugada do dia 26. Inconsciente testemunha da altura da água a essa hora: 3 metros!

Escritórios, farmácias (onde uma grande quantidade de medicamentos ficou inutilizada) e a pequena indústria que se localizava na baixa da vila viram a sua actividade intempestivamente interrompida pela destruição causada pela cheia. Das três ourivesarias existentes, donde somente algumas peças de ouro conseguiram ser recuperadas, e, ao que referem os testemunhos da imprensa da época, a “Ourivesaria Cabaço” foi a que maiores danos sofreu. Aí, a destruição foi praticamente total.

Nem os bombeiros escaparam. À época, com quartel na baixa da vila, a organização viu sete das suas viaturas completamente submersas! Valeu-lhe, para a assistência que não deixaram de prestar às vítimas, a cedência generosa de equipamentos e meios de transporte efectuada por corporações vizinhas do Sobral de Monte Agraço, do Bombarral, de Peniche e das Caldas da Rainha.

O Matadouro Municipal foi outro dos locais atingidos. Aí, para além da destruição de géneros alimentares, várias foram as reses que aí se encontravam e que morreram por afogamento.

Nem as instalações das agremiações desportivas ficaram indemnes. Sporting de Alenquer e Alenquer e Benfica sofreram danos importantes nas suas instalações.

Mas, no concelho de Alenquer, a área de destruição não se circunscreveu à vila.

Todas as localidades em margens ribeirinhas, seja em cursos de alentados e permanentes ou em linhas de água minúsculas e intermitentes, foram atingidas em maior ou menor grau. Aí, mais que vítimas humanas – que também as houve! – foram os animais, as instalações agrícolas, os currais, os campos e habitações os principais atingidos. Pedrulho, Pancas, Porto da Luz, Estalagem, Lugar do Mato, Espiçandeira, Azedia, Ribafria e Canados foram algumas das localidades atingidas.

Também as povoações situadas junto ao leito da ribeira da Carnota e ao rio Grande da Pipa foram duramente atingidas: nas Antas os estragos mais evidentes foram nas vias de comunicação; em Santana da Carnota, o cemitério ficou totalmente destruído. Várias azenhas, adegas, residências e estabelecimentos agrícolas e comerciais foram invadidos e danificados pelas águas transbordantes da pequena ribeira. Refugidos teve casas, hortas e parcelas agrícolas destruídos e Cadafais foi dos locais mais duramente castigados e onde faleceu o maior número de pessoas no Concelho.

 

Vítimas mortais

O número de vítimas mortais no concelho de Alenquer, nos dias seguintes (Diário Popular, 28-11-1967, balanço às 10 horas e trinta), é fixado em 62, deixando-se, no entanto, ressalvado que poderiam aparecer outros cadáveres em locais ainda não acessíveis. Na vila, foram contabilizadas10 pessoas (entre as quais 4 crianças); 29, em Cadafais, no Soupo, 1; em Refugidos, 7; e 15 no Casal Gois onde apenas sobreviveu um dos habitantes dos 16 habitantes.

No dia 2 de Dezembro, o jornal local A verdade refere 66 mortos, indicando apenas tratar-se do apuramento até essa data.

 

Prejuízos

Alenquer - Cheias 1967

Em casos como este nunca é fácil estabelecer quantitativos exactos que demonstrem a grandeza dos prejuízos.

Os jornais da época falam em cerca de 150.000 mil contos (cerca de 750.000 euros), – uma cifra astronómica para a época! – que, dada a dimensão dos danos provocados pela cheia, não deverá estar longe da realidade. Aliás, no jornal O Século, de 28 de Novembro de 1967, o presidente da Câmara e o seu staff fazem uma primeira avaliação dos prejuízos em mais de 117.000 contos mais ou menos 583.000 euros).

 

Solidariedade e auxílio

 

No dia a seguir à tragédia (26 de Novembro), independentemente do auxílio prestado pelos organismos oficiais que a isso estavam obrigados, a sociedade mobilizou-se.

Nesta mobilização voluntária da sociedade assume especial relevo a actuação da população estudantil, sobretudo a população universitária mais esclarecida, politizada e mais organizada, que resolveu empenhar-se na ajuda às vítimas da tragédia.

A população estudantil (especialmente universitária, mas não apenas essa) de vários locais (com especial destaque para Lisboa e Santarém) mobilizou-se para o socorro às populações atingidas. Associações estudantis (de Medicina, de Direito e de Letras por exemplo), outras associações de juventude (por exemplo a JOC, a JUC e os escuteiros) e até alguns pequenos colégios particulares (o Externato do Parque cujas alunas estiveram em Alenquer a distribuir bens essenciais) foram algumas das organizações que integraram a cadeia de socorro e se envolveram nas acções de auxílio dedicando-se às tarefas mais díspares: “da limpeza de ruas, residências e estabelecimentos” a outras tarefas igualmente preciosas e imperiosas como “vacinações e outros trabalhos clínicos”.

Do mesmo modo se comportaram outras organizações e estruturas.

Os militares da Base da Ota, que ajudaram a desobstruir as ruas e as habitações e que, no dia seguinte, ofereceram todo o pão que lhes estava destinado para ser distribuído pelas vítimas das cheias, os guardas da GNR, incansáveis no apoio às comunicações, e que estiveram também envolvidos na distribuição de géneros e agasalhos, os bombeiros locais, as organizações de solidariedade e algumas instituições governamentais (Cruz Vermelha e o Instituto de Assistência à Família) prestaram uma ajuda preciosa angariando donativos, distribuindo alimentos e medicamentos, fornecendo agasalhos e, sobretudo, levando água potável aos locais atingidos pela catástrofe.

Mas, o mais interessante foi a mobilização das localidades do concelho que não foram atingidas com a mesma violência ou que, pela sua localização, não sofreram danos substanciais. A solidariedade dessas gentes foi de tal forma assinalável que o presidente da Câmara e a sua vereação se deslocaram propositadamente a esses locais para agradecer a sua solidariedade. Abrigada, Aldeia Galega, Aldeia Gavinha, Pereiro de Palhacana, Meca e outras localidade que não quiseram deixar de socorrer as vítimas das cheias,

 

Reconstrução e realojamento

Para lá das acções imediatas de limpeza e de reparação imediata dos estragos mais urgentes, houve necessidade de disponibilizar alojamento definitivo àqueles que tinham perdido o seu e conceder subsídios e crédito aos agricultores, industriais e outros agentes económicos que deles careciam para voltar a pôr de pé as suas empresas e explorações agrícolas.

A acrescentar ao cerca de meio milhar de contos (250.000 euros) de subsídios atribuídos, em 19 de Dezembro de 1967, aos primeiros 39 comerciantes atingidos pelas cheias, em Fevereiro de 1968, o Ministério da Economia, pôs à disposição dos comerciantes e agricultores lesados mais 2.300 contos: 1.700 contos em subsídios e 700 em empréstimos concedidos.

No apoio ao realojamento das famílias, em Alenquer, destacam-se duas entidades: uma, colectiva, a Fundação Gulbenkian que disponibilizou, de imediato, um subsídio de 50.000 contos para viabilizar de imediato a construção de novos alojamentos para as famílias que deles careciam (dois blocos de dezoito habitações cada um e inaugurados em 8 de Dezembro de 1968); a outra, individual, o senhor Jorge da Cunha e Carmo que doou os terrenos do Alto Cardal onde as habitações foram construídas e onde ainda hoje se podem observar.

 

O presépio de Alenquer

De há muito Alenquer era conhecida como Vila presépio. Todavia, o hoje tradicional presépio, construído na encosta abaixo dos Paços do Concelho, está ligado a esta catástrofe. Foi no ano a seguir tragédia que nasceu o presépio de Alenquer, pela mão do Mestre Duarte d’Almeida.

Alenquer - Mestre Duarte d'AlmeidaDe facto, numa entrevista, de José Alves Ventura para o jornal A verdade (14 de Dezembro de 1968), o Mestre que, na ocasião, já estava a pintar as figuras que integrariam a edição inaugural do Presépio de Alenquer, esclareceu a sua génese.

Diz ele que a ideia de fazer um presépio na vila-presépio, “segundo me declarou o senhor Presidente da Câmara” foi do vereador José de Siqueira.

A concepção das figuras é do Mestre que, para as idealizar se inspirou na pintura portuguesa dos séculos XV e XVI. Mas, para que o presépio tivesse visibilidade seria necessário fazer figuras de grande dimensão. Planas ou com volume, era a questão seguinte. O dilema foi resolvido, de forma singela, pelo próprio Duarte d’Almeida. As figuras não teriam volume porque, além de ser impraticável pela altura das peças (6 mts), “tal estaria fora das minhas possibilidades porque não sou escultor” argumenta ele.

Assim foi decidido. Recortaram-se figuras planas, pintaram-se e fixaram-se em estacas de madeira na encosta arborizada entre a ”alta” e da “baixa” da vila. A pintura foi executadas pelo Mestre, auxiliado pelo seu próprio filho, pela nora, por “um jovem aluno de Belas-Artes” (de que não cita o nome) e pelo próprio presidente da Câmara (de quem, na entrevista, elogia as capacidades pictóricas)!

Alenquer - o primeiro PresepioA colocação e a fixação das figuras no local foi um problema que o funcionário da Câmara, o “senhor Candeias” resolveu a contento.

Estamos em Dezembro de 1968, ano 1 do Presépio de Alenquer.

Publicado em Alenquer, Cheias 1967 | Etiquetas , , , , , , | Comentários Desativados em Alenquer 25-11-1967

Estrangeirismos, conversa, turismo e má-lingua

Há quem acredite que o turismo é um fenómeno recente. Sobretudo quando se trata de Portugal, há por aí muito boa gente que acredita que Portugal só foi “descoberto” como destino de viagem em tempos recentes! Provavelmente, apenas há uma meia dúzia de anos e, seguramente, só depois da magnífica revolução.

Guia turístico Capa (1913)

Guia turístico
Capa (1913)

Nada mais falso!

Hoje, quase por acaso, tropecei num curioso guia turístico para americanos à descoberta da “Ibéria”, publicado em 1913,  por uma autora reincidente nestas matérias porque já tinha escrito um outro sobre a Rússia, The tourist´s Spain and Portugal (Ruth Kedzie Wood, Dodd, Mead & Company, New York) é um Guia completíssimo, ombreando com os melhores que hoje se publicam!

O texto que se desdobra em dois capítulos – um sobre a Espanha e outro sobre Portugal, – abre com uma introdução com todas aquelas informações básicas que qualquer viajante deve conhecer. Mas, para lá da informação séria, o que, no mínimo nos deixa com um sorriso nos lábios é a frase de abertura! Diz a senhora: “Uma viagem turística na Ibéria não pode mais ser olhada como uma investida aventurosa na qual o viajante está destinado a confrontar-se com os terrores românticos dos assaltantes de turista ou com o transporte duvidoso de mula e diligência.”

Espectacular! Sobretudo a deliciosa referência aos “terrores românticos” dos assaltos dos carteiristas e quejandos!…

Quanto ao alojamento e às deslocações, para que os potenciais aventureiros não se assustem, refere (sempre de na forma mais sisuda!…) que, quer em Espanha, quer em Portugal, existem hotéis de muita qualidade, “guest houses” com serviço comparável ao que de melhor é proporcionado em outras paragens, e comboios que podem transportar o turista praticamente a todo o lado! Aliás, para que não subsistam dúvidas, chama à colação a opinião corrente que atribui ao Hotel do Bussaco (sic) o estatuto de “melhor da Europa”!…

Tenho que reconhecer que a “mania das grandezas” que gera concursos guinessianos, – extremamente criativos e da maior importância para a sobrevivência da humanidade como a “maior feijoada do mundo”! – já vem de longe…

Confesso que, para além do asco que me causam tais “criativos” concursos, a sua associação a uma das “qualidades” mais proeminentes do português típico – a proverbial autocomiseração dos “pequeninos” e “coitadinhos”, – me põe completamente desorbitado! Em todas as ocasiões e pelas razões mais abstrusas, a comparação do que acontece intra-muros com o que se faz ou pensa lá na estranja é aproveitada para glosas aviltantes que, normalmente, combinam, em doses idênticas, ignorância e baixa auto-estima!

Este guia, mais que centenário, é claramente um desmentido inequívoco da irrazoabilidade dessa auto-flagelação que teimamos em nos infligir.

A Introdução continua com informação minuciosa e abundante sobre carreiras marítimas existentes, horários e preços; ligações ferroviárias e respectiva duração, preços e comodidades; ligações rodoviárias, automóveis disponíveis e respectivos preços; distâncias entres os locais turísticos mais importantes; moeda corrente (em ambos os países), seus múltiplos, submúltiplos e respectivos câmbios; possibilidade de alargamento da viagem à  Madeira e aos Açores. Finalmente, informação sobre pesos e medidas (!) e onde obter guias e informação turística – endereços do Posto de Turismo (Lisboa) e da Sociedade de Propaganda turística!

Cruzeiro linha NY-Lxa

Depois, por mais de sessenta páginas, o Guia desenrola conhecimentos e informação (histórico-turístico-culturais) àcerca das principais cidades portuguesas que ultrapassam largamente o acervo de conhecimentos da generalidade dos nossos compatriotas sobre tais matérias!

Mas, apesar das qualidades inegáveis do Guia, como soe dizer-se, “no melhor pano cai a nódoa”!…

A “pérola” aparece sob o título “Language”!

Depois de referir que, a par de outros, o Manual Marlborough de conversação em Espanhol e Português pode ser adquirido nas livrarias e agências turísticas, esclarece que: “O Português é a corrupção da língua da Galiza, em Espanha, e tem um sotaque completamente diferente do espanhol. O S é pronunciado z em muitos casos (…). O ditongo ão substitui on e ion em inglês. (…) Como em Espanha, o b e o v são trocados um pelo outro.”

Com informações tão precisas, qualquer americano consegue falar português!… se falar mal o galego…

Mas, “não vá o diabo tecê-las”, em matéria de comunicação, a autora acrescenta duas notícias (a boa embrulhada na má!): Fora de “Lisboa, Mont´Estoril, Cintra, Bussaco e Porto”, diz, onde o francês e o inglês são “falados livremente pelos gestores e pelos empregados dos hoteis”, o viajante estrangeiro, se quiser que o seus pedidos sejam atendidos, deve fazê-los em português porque, “english is a lingua ignota to the provincial portuguese, as it is indeed for Spaniard, who is proud to know but is own tongue.”

Aqui, o espanto, é a expressão latina (lingua ignota para língua mais que desconhecida) e a fixação em letra de forma, preto no branco, da universalmente glosada fama dos espanhóis que, em matérias linguísticas, transformam a ignorância em orgulho!…

É voz corrente entre nós e sempre ouvi como axioma que “os espanhóis não falam inglês” e, como, orgulhosamente, apenas se querem expressar na sua própria língua, daí decorre que “no comprenden” qualquer outra, mesmo que seja o portunhol que, qualquer português que se preze, insiste em utilizar logo que atravessa a fronteira!… De forma igualmente orgulhosa, numa manifestação inequívoca das suas aptidões linguísticas!

O que não imaginava é que esse dasabonatório preconceito, afinal, não é um exclusivo nacional fincado na atávica inimizade dos povos ibéricos! Ele é bem antigo, de expressão quase-mundial e suficientemente arreigado para merecer figuração em guia turístico!

Nós, ao contrário, limpos de qualquer contaminação de “orgulho nacional”, alardeamos importância na exibição pacóvia de conhecimentos linguísticos que conduzem à utilização, ignorante e a-crítica de alguns vocábulos alheios!…

Infelizmente, na maior parte dos casos, este exibicionismo mimético e bacoco, a única coisa que revela é baixa auto-estima e ignorância da sua própria língua!…

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África a régua e esquadro “Isso é coisa de brancos…”

Corria o ano de 1973.

Cunene - Mapa

Cunene – Mapa

No Cunene, a estrada que seguia para a Namíbia (território que nesses tempos ainda se chamava Sudoeste Africano) desenhava, na paisagem seca, uma linha estreita e cinzenta que, deixando para trás Namacunde, se dirigia para o posto fronteiriço de Santa Clara que pouco mais era que um pequeníssimo aglomerado de instalações governamentais e militares ligadas ao trânsito numa região de povoamento ovambo que, cortada pelo paralelo 18, se encontrava submetida à soberania colonial de dois países diferentes.

A linha de fronteira, uma recta a perder de vista, era assinalada por uma frágil vedação de rede com a altura de um homem. A norte da vedação-fronteira, estávamos em Angola; a sul, encontrávamo-nos no Sudoeste Africano (hoje Namíbia).

Nesse tempo, as chamadas “férias grandes” preenchida-as eu com viagens inesquecíveis por essa Angola imensa, sempre “à boleia”, encontrando alojamento gratuito em casa de amigos e participando em actividades de lazer, culturais ou genericamente sociais que me permitiam sobreviver e que, às vezes, me permitiam até regressar a Luanda com mais dinheiro no bolso do que aquele com que contava à partida!

Creio que terá sido no mês de Setembro de 1973 que, terminado o Grande Encontro de jovens em Benguela, rumei ao Cunene onde se desenrolava o “Cunene 73”, uma actividade de cariz cultural cujo registo se encontra num pequeno opúsculo homónimo, elaborado por alguns participantes e coordenado pelo saudoso Muata Sa Kapuma.

Aí, quem quiser aproveitar a temperatura agradável do alvorecer e o ambiente luminoso e calmo do despontar do sol, tem que levantar-se cedo.

Foi num dos dias desse mês, já não me lembro qual, que, madrugando mais que o habitual, me dispus a desfrutar da tranquilidade matinal com um passeio a pé ao longo da vedação-fronteira ao longo da qual se desenhava uma picada estreita e poeirenta, percorrida quase exclusivamente por viaturas militares ou da administração local.

Eumbo ovambo

Eumbo ovambo

Uns três ou quatro quilómetros adiante, não distante da fronteira mais que um quilómetro, ficava o eumbo de um dos meus amigos, cuanhama de idade  indefinida, com quem, em anteriores excursões matinais, tinha estabelecido uma relação muito próxima, sublinhada com libações recorrentes com uma bela aguardente, de fabrico artesanal, destilada por ele próprio a partir de massango, o pequeno cereal conhecido entre nós por milho-painço.

Nesse dia, reparei que, próximo do eumbo, a vedação que delineava a linha de fronteira tinha sido cortada de alto a baixo. Na abertura, sinais evidentes de trânsito recente de pessoas e animais em ambos os sentidos!

Como em digressões anteriores, quando me acerquei do eumbo, lá estava o “mais velho”, à minha espera, para me levar para a epatalakola (pequena “sala de visitas”), bem ao lado da sua habitação, onde habitualmente conversávamos.

Depois dos cumprimentos habituais e de um início de conversa sobre assunto banais, resolvi informar o meu interlocutor sobre o corte feito na vedação de fronteira que ele provavelmente já conhecia. Mas, – arrimado naquele meu etnocentrismo inconsciente que pretende universal uma visão do  mundo que, afinal, é apenas local, – depois da informação factual, continuei perorando sobre os eventuais problemas que a pretensa “violação de fronteiras” poderia motivar.

Ele, calado, ouviu-me sem pestanejar, mas logo rematou:

– Então a minha família está quase toda do lado de lá! Como pode ter fronteira?

– Fronteira?!… resmungou ele mais para si que para mim.

– Isso é coisa de brancos!

Foi como que um soco violento a lembrar-me que, alguns dos nossos conceitos pretensamente universais, mais não são do que correntes a agrilhoar pessoas e a atrapalhar vidas!

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