Estrangeirismos, conversa, turismo e má-lingua

Há quem acredite que o turismo é um fenómeno recente. Sobretudo quando se trata de Portugal, há por aí muito boa gente que acredita que Portugal só foi “descoberto” como destino de viagem em tempos recentes! Provavelmente, apenas há uma meia dúzia de anos e, seguramente, só depois da magnífica revolução.

Guia turístico Capa (1913)

Guia turístico
Capa (1913)

Nada mais falso!

Hoje, quase por acaso, tropecei num curioso guia turístico para americanos à descoberta da “Ibéria”, publicado em 1913,  por uma autora reincidente nestas matérias porque já tinha escrito um outro sobre a Rússia, The tourist´s Spain and Portugal (Ruth Kedzie Wood, Dodd, Mead & Company, New York) é um Guia completíssimo, ombreando com os melhores que hoje se publicam!

O texto que se desdobra em dois capítulos – um sobre a Espanha e outro sobre Portugal, – abre com uma introdução com todas aquelas informações básicas que qualquer viajante deve conhecer. Mas, para lá da informação séria, o que, no mínimo nos deixa com um sorriso nos lábios é a frase de abertura! Diz a senhora: “Uma viagem turística na Ibéria não pode mais ser olhada como uma investida aventurosa na qual o viajante está destinado a confrontar-se com os terrores românticos dos assaltantes de turista ou com o transporte duvidoso de mula e diligência.”

Espectacular! Sobretudo a deliciosa referência aos “terrores românticos” dos assaltos dos carteiristas e quejandos!…

Quanto ao alojamento e às deslocações, para que os potenciais aventureiros não se assustem, refere (sempre de na forma mais sisuda!…) que, quer em Espanha, quer em Portugal, existem hotéis de muita qualidade, “guest houses” com serviço comparável ao que de melhor é proporcionado em outras paragens, e comboios que podem transportar o turista praticamente a todo o lado! Aliás, para que não subsistam dúvidas, chama à colação a opinião corrente que atribui ao Hotel do Bussaco (sic) o estatuto de “melhor da Europa”!…

Tenho que reconhecer que a “mania das grandezas” que gera concursos guinessianos, – extremamente criativos e da maior importância para a sobrevivência da humanidade como a “maior feijoada do mundo”! – já vem de longe…

Confesso que, para além do asco que me causam tais “criativos” concursos, a sua associação a uma das “qualidades” mais proeminentes do português típico – a proverbial autocomiseração dos “pequeninos” e “coitadinhos”, – me põe completamente desorbitado! Em todas as ocasiões e pelas razões mais abstrusas, a comparação do que acontece intra-muros com o que se faz ou pensa lá na estranja é aproveitada para glosas aviltantes que, normalmente, combinam, em doses idênticas, ignorância e baixa auto-estima!

Este guia, mais que centenário, é claramente um desmentido inequívoco da irrazoabilidade dessa auto-flagelação que teimamos em nos infligir.

A Introdução continua com informação minuciosa e abundante sobre carreiras marítimas existentes, horários e preços; ligações ferroviárias e respectiva duração, preços e comodidades; ligações rodoviárias, automóveis disponíveis e respectivos preços; distâncias entres os locais turísticos mais importantes; moeda corrente (em ambos os países), seus múltiplos, submúltiplos e respectivos câmbios; possibilidade de alargamento da viagem à  Madeira e aos Açores. Finalmente, informação sobre pesos e medidas (!) e onde obter guias e informação turística – endereços do Posto de Turismo (Lisboa) e da Sociedade de Propaganda turística!

Cruzeiro linha NY-Lxa

Depois, por mais de sessenta páginas, o Guia desenrola conhecimentos e informação (histórico-turístico-culturais) àcerca das principais cidades portuguesas que ultrapassam largamente o acervo de conhecimentos da generalidade dos nossos compatriotas sobre tais matérias!

Mas, apesar das qualidades inegáveis do Guia, como soe dizer-se, “no melhor pano cai a nódoa”!…

A “pérola” aparece sob o título “Language”!

Depois de referir que, a par de outros, o Manual Marlborough de conversação em Espanhol e Português pode ser adquirido nas livrarias e agências turísticas, esclarece que: “O Português é a corrupção da língua da Galiza, em Espanha, e tem um sotaque completamente diferente do espanhol. O S é pronunciado z em muitos casos (…). O ditongo ão substitui on e ion em inglês. (…) Como em Espanha, o b e o v são trocados um pelo outro.”

Com informações tão precisas, qualquer americano consegue falar português!… se falar mal o galego…

Mas, “não vá o diabo tecê-las”, em matéria de comunicação, a autora acrescenta duas notícias (a boa embrulhada na má!): Fora de “Lisboa, Mont´Estoril, Cintra, Bussaco e Porto”, diz, onde o francês e o inglês são “falados livremente pelos gestores e pelos empregados dos hoteis”, o viajante estrangeiro, se quiser que o seus pedidos sejam atendidos, deve fazê-los em português porque, “english is a lingua ignota to the provincial portuguese, as it is indeed for Spaniard, who is proud to know but is own tongue.”

Aqui, o espanto, é a expressão latina (lingua ignota para língua mais que desconhecida) e a fixação em letra de forma, preto no branco, da universalmente glosada fama dos espanhóis que, em matérias linguísticas, transformam a ignorância em orgulho!…

É voz corrente entre nós e sempre ouvi como axioma que “os espanhóis não falam inglês” e, como, orgulhosamente, apenas se querem expressar na sua própria língua, daí decorre que “no comprenden” qualquer outra, mesmo que seja o portunhol que, qualquer português que se preze, insiste em utilizar logo que atravessa a fronteira!… De forma igualmente orgulhosa, numa manifestação inequívoca das suas aptidões linguísticas!

O que não imaginava é que esse dasabonatório preconceito, afinal, não é um exclusivo nacional fincado na atávica inimizade dos povos ibéricos! Ele é bem antigo, de expressão quase-mundial e suficientemente arreigado para merecer figuração em guia turístico!

Nós, ao contrário, limpos de qualquer contaminação de “orgulho nacional”, alardeamos importância na exibição pacóvia de conhecimentos linguísticos que conduzem à utilização, ignorante e a-crítica de alguns vocábulos alheios!…

Infelizmente, na maior parte dos casos, este exibicionismo mimético e bacoco, a única coisa que revela é baixa auto-estima e ignorância da sua própria língua!…

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