
A viagem de avião para a minha mais recente viagem à Polónia foi a ocasião, não programada mas propícia, para rever antigas recordações que me ligam a este país.
Uma das mais antigas, prende-se com a leitura de um romance, volumoso, que devorei nos verdes anos da minha juventude, o MILA 18.
MILA 18 é um romance que toma o nome de uma das ruas do gueto de Varsóvia (Ulica Mila) e o número 18 é o que identificava a porta por onde se acedia aos subterrâneos do gueto e ao bunker da ZOB, a Organização de Resistência Judaica que, durante a II Guerra, liderou e organizou a resistência judaica ao nazismo alemão.

Nos anos 60 do século passado, no meu tempo de adolescente e de leitura de romances, nenhum dos jovens estudantes liceais (ao menos os do meu círculo) desconhecia esse nome. Nesses tempos, MILA 18 era um dos romances de leitura obrigatória e o seu autor um daqueles cujas obras gozavam de popularidade e venda garantidas.
Os ecos da Guerra Mundial ainda se sentiam, intensos e dramáticos, apelando ao conhecimento do que se realmente se passara nesses anos de loucura. Por isso, às narrativas históricas da actividade militar, a leitura dos romances históricos sobre a guerra acrescentava cor, brilho e realismo aos dramas ocorridos nos diversos palcos da guerra
Nos dias de hoje, os ecos da guerra, do gueto, do nazismo, das deportações, da barbárie ou já se desvaneceram, ou estão profilaticamente enterrados na poeira da história, escondidos atrás duma ignorância que se ocupa de imaginários mais inócuos e menos aterradores. Infelizmente, já ninguém lê o Mila 18 e Leon Uris é, para a generalidade dos jovens actuais, um ilustre desconhecido.
Na primeira vez que estive em Varsóvia, – já lá vão algumas décadas, – relembrando essa leitura da minha juventude, a despeito da preenchida agenda de trabalho, não quis deixar de ver o que restava do mais célebre gueto polaco.
Por isso, no final de um dos dias de trabalho. pedi ao meu anfitrião (um jovem engenheiro mecânico polaco a quem a ocupação nazi da sua terra já pouco dizia, suplantada pela posterior ocupação russa e continuada por uma opressiva ditadura comunista imposta e apoiada pela URSS) que me levasse a visitar o gueto de Varsóvia.

O pedido, talvez estranho e despropositado, deixou atónito o meu anfitrião que me faz saber que muito pouco restava do antigo quarteirão onde estiveram confinados, a partir de 1940, mais de um milhão de judeus. Na sua maioria polacos, mas não exclusivamente polacos.
Mostrou-me apenas aquilo que seria o remanescente de todo o gueto: três edifícios de poucos pisos, paredes esburacadas, janelas entaipadas e em adiantado estado de degradação e ruína. Perguntei-lhe se não havia sinagogas. A resposta, negativa, foi aclarada com a indicação de que as vicissitudes da história as teriam convertido em igrejas de outros cultos que não o judaico!

Pensei para comigo que talvez os polacos não se sentissem confortáveis com o seu passado. Mas não! Constatei que, de facto, a cidade de Varsóvia (mas não só) tinha sido alvo de uma destruição maciça pelos sucessivos exércitos ocupantes. Aliás, esse facto estava patente por toda a cidade, especialmente no seu centro histórico. Todo espaço urbano parecia um gigantesco estaleiro, todo ele, literalmente, atulhado com os destroços das demolições ou com os materiais para as novas construções. Tantas eram as obras que, talvez com algum despropósito, não me coibi de chalacear sobre esta situação comentando: – primeiro vieram os alemães e destruíram um terço da cidade. Depois, chegaram os russos e destruíram o segundo terço. Enfim, vocês querem acabar com o resto!…
Não tenho a certeza que o meu guia improvisado tenha achado qualquer graça ao meu desabafo.
Depois desses primeiros contactos com a realidade polaca não voltei a Varsóvia senão passados onze anos. Desta vez, com tempo e disposição para me reconciliar com a cidade. E o meu espanto teve a mesma dimensão da desilusão dos primeiros tempos.
Do “estaleiro geral” tinha renascido uma cidade moderna que, apagadas as memórias da inestética má qualidade da arquitectura estalinista, não esqueceu o seu centro histórico e o reconstruiu exemplarmente.
Uma vez mais, tentei encontrar as recordações do gueto e as reminiscências do MILA 18.
In loco, pude confirmar que o que resta do gueto e da Grande Sinagoga de Varsóvia era praticamente nada. Todas as edificações do quarteirão judaico foram arrasadas por ordem do General Juergen Stroop depois de celebrada “vitória” de 16 de Maio de 1943 sobre os resistentes judeus que, no gueto, resolveram organizar-se e enfrentar o exército ocupante e a suas ordens de deportação.
Para lá de sinalética delimitadora do antigo gueto, apenas encontrei o memorial da célebre rua que dá o nome ao romance, alguns restos do muro que circundava toda a área e alguns (poucos) edifícios contemporâneos da revolta e da resistência dos judeus polacos.
Mas, a memória não foi apagada.

A barbárie nazi e as deportações do holocausto lá estão, lavradas na singeleza duradoira da pedra. Para que o mundo não esqueça e para que o caminho feito não volte a ser percorrido!

