É verdade! Hoje, fui ao banco!…
Mas, como hoje já ninguém “vai ao banco”, este facto, para mim próprio, é estranho!
Antigamente, a relação da maioria dos clientes com o “seu” banco , era mediada pelas “agências bancárias”. Por isso, quando queríamos resolver qualquer assunto financeiro, lá íamos “ao banco”.
Hoje, a situação mudou completamente! Já ninguém “vai ao banco” porque a maior parte parte das operações bancárias já se fazem sem necessidade de deslocação à agência.
As “agências”, hoje, são as máquinas Multibanco, o computador pessoal, o “telefone esperto” e toda a panóplia de brinquedos electrónicos que nos vão vendendo como a “última coca-cola do deserto”!…
Mas, voltemos à minha ida ao banco…
Como pretendia fazer um depósito, em numerário, na minha conta e como não tinha forma de “desmaterializar” as notas e enviá-las, não tive outra opção que não fosse visitar a agência mais próxima do “meu” banco.
Entrei e espantei-me!
À vista, quatro secretárias… todas vazias! Visível, apenas uma senhora, simpática, de vestido amarelo-açafrão e cabeça baixa, atrás de um balcão – que presumi ser “a caixa” – fazia não sei o quê num computador invisível.
Aproximei-me e disse ao que vinha!
- Tem que ser ali! Na máquina! – indicou.
Olhei à volta. Ao lado do MB, vi uma outra máquina, com um design agradável e futurista, que presumi ser aquela que a senhora me indicou.
- Se precisar de ajuda, diga-me! – disponibilizou-se, solícita, a senhora.
Provavelmente, reparou nos cabelos brancos que, para ela, deviam ser sinónimo inequívoco de infoexclusão!…
Fui até lá, fiz o que me propusera e regressei ao balcão. Atrás dele, a funcionária olhava para mim com uma expressão entre o curioso e o surpreso que denunciava a sua estupefacção.
- Daqui a pouco, não será necessário estar aqui ninguém! – exclamei, provocatoriamente.
- É verdade! – anuiu a senhora franzindo a testa.
- Pois! Daqui a pouco, as máquinas ocuparão o lugar das pessoas. O pleno emprego será uma ilusão e algumas pessoas, não conseguirão desempenhar qualquer trabalho durante toda a vida!… – comentei eu.
Esta visão catastrófica do futuro deixou a senhora preocupada. Pareceu-me que nunca lhe tinha passado “isto” pela cabeça e apressou-se a rebater a “profecia” que eu tinha acabado de lhe fazer.
Resolvi ser um pouco mais aterrador.
- No futuro, nas sociedades tecnologicamente desenvolvidas, não haverá capacidade para absorver todos aqueles que pretendem encontrar trabalho.
- Acha?
- Claro que sim!
- E então, como conseguirão viver?!
- Creio que vão ter garantir a todos, – independentemente do facto de estarmos empregados ou não! – uma espécie de RMV “rendimento mínimo vital” que nos permita sobreviver!…
A senhora espantou-se: – Então pagam-nos sem trabalhar?!…
- Claro que sim! Se a sociedade transferiu o “direito ao trabalho” para as máquinas!…
Essa é a grande questão. Hoje, ninguém consegue viver (sobreviver) se não tiver ocupação remunerada, vulgo “trabalho”.
E, no futuro? Como não será possível “garantir trabalho” a todos, alguns estarão economicamente impedidos de viver!…
O direito à vida (sobrevivência) continuará a estar subordinado ao “direito” ao trabalho?!…
Não creio!
Confesso que gostava de viver numa sociedade em que o “direito” ao trabalho não condicionasse o direito à vida!… Eu, só trabalhava quando estivesse cansado de não fazer nada! Em vez de “direito” ao trabalho, defenderia o “direito à preguiça”!…









