Como em tudo na vida, a minha viagem-relâmpago a Luanda mostrou-me uma cidade substancialmente diferente daquela que conheci. Aliás, esperar que assim não fosse, seria ignorar uma das mais básicas leis da vida.
Se me for permitida uma constatação à La Palisse, diria que, como sempre, coisas há que estão melhores, outras piores!
A quem chega depois de todos estes anos, o que, em primeiro lugar, se nos impõe e o caos urbanístico da cidade.
Luanda, – que deixei uma cidade pequenita e com uma população que, provavelmente, pouco passaria de meio milhão de pessoas, – é hoje uma mega-urbe onde habitam uns milhões de pessoas. Uns falam em cinco milhões, outros apontam para números ainda maiores que rondam já os sete milhões de habitantes. O PDGML aponta para 6,5 milhões (em 2015) e projecta 12,9 milhões em 2030!
Tenho para mim que, à falta de registos fiáveis e censos populacionais credíveis (o JA de 3-6-2019 referia que cerca de 14 milhões de angolanos não tem documento de identificação!), ninguém poderá garantir fiabilidade ao número que alvitra.
É indesmentível que este aumento populacional (cujas justificações uma análise histórica desapaixonada por certo elucidará) não foi acompanhado (teria sido possível?…) pelo desenvolvimento de todas aquelas infraestruturas que são indispensáveis para que se mantenham as condições mínimas de habitabilidade.
Tão logo e em primeiro lugar, um plano director global que defina os usos do território, a ligação entre eles e, se possível, a sua inserção no contexto regional e, até, nacional. Depois, o tipo de construção, as acessibilidades e os serviços básicos: água, energia, comunicações, transporte, saúde e educação. Finalmente, no início deste ano, foi posto em marcha o Plano Director Geral da Luanda cujo horizonte de implementação se estende até 2030. Uma boa notícia, portanto!
Todavia, sem sequer questionar a justeza e a exequibilidades das soluções que aí se propõem, para que se possa alterar a situação existente, é curial que as instituições funcionem para que esta aglomeração descomunal de pessoas não dê, rapidamente, origem ao caos.

Luanda – vista parcial
A cidade actual, na minha observação, empírica e apressada, relevou-se-me uma urbe desordenada e caótica onde, cada centímetro do solo disponível foi ocupado com a sofreguidão e a urgência de quem não tem qualquer outra opção. Um exemplo perfeitamente elucidativo desta voracidade habitacional é a ocupação das exíguas “tiras” de terreno deixadas livres quando foram construídos os muros de contenção de terras entre o antigo Colégio de S. José do Cluny e a Robert Hudson!
E não foram apenas terrenos desocupados! Nos terraços dos antigos edifícios, há anos sem qualquer manutenção, cresceram e foram “inventados” novos alojamentos, de cobertura precária e habitabilidade duvidosa!

Uns andares a mais…
Mas não foram apenas os prédios as únicas vítimas desta fome de espaço. Os quintais das velhas moradias dispersas pela cidade, desapareceram. Os muros, desmesuradamente alteados, servem hoje de suporte a telhados que cobrem os anexos.

Luanda – Moradia, ilha ou fortaleza?
Não poucas vezes, quando o quintal era apenas espaço de estacionamento, foram criados novos espaços em placas de cobertura construídas sobre os quintais. Na realidade, ao edificado existente acrescentaram-se novos pisos de habitação mantendo, em muitos casos, no piso térreo, o parqueamento de viaturas.
Adicionalmente, as enormes torres, geradas pelo novoriquismo exibicionista, espalham-se a esmo pela antiga área urbana da cidade, atoladas numa mole imensa de barracas periclitantes e construções antigas degradadas! Em outros casos são elas que “afogam” as construções já existentes, mesmo quando se trata de monumentos de valor patrimonial e histórico como é o caso da antiga Igreja da Nazaré, hoje esmagada pelo gigantismo das torres que lhe construíram de ambos os lados!
Finalmente, a cereja no topo do bolo do caos urbanístico: a escassez quase absoluta de transportes públicos dignos desse nome que gera um trânsito medonho comandado intrepidamente pela falta de civismo e desrespeito às mais elementares regras de trânsito dos táxis colectivos “azuis e brancos” cujo pitoresco rivaliza com o desconforto!
Comentava eu com alguém que a impressão mais profunda, que recolhi da observação daquilo em que se transformou a cidade de Luanda, foi a de que “nos últimos trinta anos, o território urbano não teve qualquer governo. Cada um fez o que entendeu, quando quis e como lhe aprouve!…”
Felizmente, no início do ano, já foi aprovado o Plano Director Geral de Luanda. Mas vai ser preciso muita coragem, organização e capacidade de liderança para transformar “aquilo” numa cidade “habitável, bonita e internacional” como se pretende.