Luanda é uma cidade de contrastes: Ao lado de um arranha-céus brilhante de modernismo, a barraca mais desconchavadamente periclitante; ao lado das viaturas mais luzidias, a ausência completa do transporte público; ao lado do aprumo do engravatado, a semi-nudez da criança que vagabundeia!
Numa cidade de contrastes tão gritantes, é difícil não descortinar as graves distorções do tecido social que, na rua, se apresentam sem roupagens, nem disfarces.

Luanda – imagem de rua
Nas ruas, atulhadas de viaturas de todos os tipos, vagueiam enxames de gente muito jovem que, à vista desarmada, aparentam menos de 25-30 anos e que tentam garantir o seu sustento no pequeno comercio ou na prestação de pequenos serviços. Engraxar sapatos, se atendermos ao número dos engraxadores de rua, parece ser ocupação rentável. Vender “qualquer coisa” também ocupa imensos adolescente e jovens, provavelmente, com lucro suficiente para justificar o tempo dedicado a tal “ocupação”. Da fruta mais diversa aos cabos de electrónica, passando pelos cartões para telemóvel, tudo se vende na rua! Curiosamente, a oferta dos diversos produtos no comércio de rua faz-se em concorrência directa com aqueles que são comercia-lizados pelas lojas oficiais à frente das quais se realiza a venda de rua!
Em tudo isto, o que motiva a maior angústia e admiração é o número de crianças, adolescentes e jovens que vagueia pelas ruas. Uns ocupados no comércio de ocasião, outros em expedientes diversos, alguns realizando pequenos serviços, outros, completamente desocupados, inventando formas de passar o tempo.

Uma outra faceta que, com frequência, se nos depara é a mendicidade. Em todos os casos com que me deparei, praticada por crianças a cujo lamento – que não se consegue apurar se é verdadeiro se encenado, – se torna praticamente impossível resistir.
A propósito contarei apenas uma das ocorrências que, por ser a que mais me chocou, considero digna de registo.
Ao lado do hotel onde estava alojado havia um pequeno mini-mercado. Não era propriamente um mini-mercado igual aos da europa, nem apresentava a panóplia de marcas diferentes, para o mesmo tipo de produtos, que dificulta qualquer escolha mais racionalizada. Era um mini-mercado “honesto”: não oferecia mais do que exigido e só apresentava o necessário.
Num dos dias da minha estadia, a meio da tarde, resolvi ir até lá com dois objectivos em mente: o primeiro, devo confessar, era tomar contacto com um tipo de comércio que, quando saí de Angola, em 1985, já tinha desaparecido para dar lugar às lojas estatais a que se acedia com um Cartão de Abastecimento (diria, Racionamento) e onde apenas se comprava o que havia e nas quantidades estipuladas pelo governo! O segundo, para comprar duas garrafas de água.
Entrei sem qualquer constrangimento. A essa hora, no interior, quase só se avistavam os empregados; a clientela era praticamente nula.
Dei alguns passos no interior e preparava-se para iniciar um exercício voyerista quando ouvi alguém, atrás de mim, a chamar:
– Tio
Pensei:
– Não é comigo!
Mas o chamamento era insistente e repetitivo:
– Tio! Tio!…
Voltei-me e encarei com um rapazinho que teria aí uns 7 ou 8 anos e que, agora, expressamente, me interpelou:
– Tio, podes pagar-me um pão? É que eu, desde manhã que não como nada!
Surpreso, parei um pouco e tive um momento de hesitação que a criança percebeu como uma propensão negativa. Tentando vencer aquilo que pensava ser a minha inclinação para dizer não, reforçou:
– Tio, por favor! Se for preciso, eu ajoelho mesmo na tua frente!…
Era demais! Disse-lhe um pouco desabridamente:
– Ajoelhar?!… Nem penses! Eu não sou Deus! Vai lá buscar o pão!
Nem olhou para trás! Correu em direcção à prateleira e pegou no pão. Eu, entretanto fui-me aproximando também.
Com o pão na mão, voltou-se para mim e disse:
– Tio, desculpa. Mas eu preferia trocar o pão por arroz e óleo. Assim, comíamos todos: eu e os meus irmãos!…
Completamente atarantado, não reagi de imediato. E o rapaz, da idade de um dos meus netos, voltou à carga:
– Tio, por favor!
Literalmente, não sabia o que fazer! Para além do desconhecimento completo da situação familiar da criança e das eventuais dificuldades, nem sequer sabia os preços dos produtos que ele me pedia. Acabei por aceder à troca e lá foi a criança, correndo, à procura do arroz e do óleo.
Eu, entretanto, peguei nas garrafas de água e fui andando para a caixa.
Mas ainda não tinha acabado! Estava a chegar à caixa e o rapazito regressou com novo pedido:
– Tio, desculpa, mas eu nunca mais bebi leite!
Era demais! Acedi:
– Vai lá buscar o leite!
Voltou com uma lata de leite em pó, de cinco libras. Junto com o arroz e o óleo, perante o olhar desconfiado e desaprovador do empregado, depositou-a na caixa e olhou para mim.
Dirige-me ao empregado:
– Faça a conta! Eu é que vou pagar esses produtos!
De acordo com as minhas instruções, o empregado lá foi registando os produtos enquanto resmungava entre dentes, mas de forma suficientemente audível para eu perceber:
– Estes miúdos!… Não querem fazer nada e só andam a “chatear”!… Dão má fama!…
– Não me interessa, disse-lhe.
– Faça a conta que eu vou pagar. E junte estas duas garrafas de água.
Paguei.
Antes de desaparecer, a criança ainda murmurou um “Obrigado, tio!”
Eu continuo sem saber se caí num logro bem encenado, ou se a realidade ultrapassou, definitivamente, a ficção.