Penso que, em outros textos deste blog, já aludi às Campanhas Etnográficas que José Redinha levou a cabo durante toda a sua vida.
O conhecimento comum, quase geral, apenas integra uma dessas campanhas, a mais conhecida, que é a Campanha do Tchiboco. Aliás, é esta a única que está gravada em memória escrita nas Publicações Culturais da Diamang: Subsídios para a história, arqueologia e etnografia dos povos da Lunda -Campanha etnográfica ao Tchiboco (Alto Tchicapa), 2 vols, Companhia dos Diamantes de Angola, Lisboa, 1953.
Nas minhas andanças pelas memórias biográficas desta figura invulgar, tenho andado às voltas destas viagens que, pelo número e extensão, devem ser exemplar único na história da etnografia portuguesa.
Na realidade, desde o início, elas se configuram como um verdadeiro “trabalho de campo” de cariz etnográfico. É que, para lá de um objectivo perfeitamente definido, – mas imediato e, de certa forma, limitado, – que lhe é atribuído pela Direcção Técnica da Diamang, (a aquisição de “peças etnográficas” para o futuro museu) José Redinha ultrapassou larguissimamente o reduzido objectivo da tarefa que lhe fora cometido.
Não só ultrapassou o que se lhe pedia, como o fez com muito gosto!
Vejam-se as descrições vivas e coloridas que ele faz dos serões, na tchota, com os sobas e a população dos vários locais onde acampava, conversando sobre a sua história, as suas tradições, as suas crenças e os seus costumes, enquanto se livravam dos rigores do frio da noite, ao calor da fogueira mas também do hidromel, inebriando-se com o fumo da mutopa passado de mão em mão: melhor, de boca em boca!
Foi aí, na fonte, ouvindo, atenta e pacientemente, os relatos da tradição oral que José Redinha construiu o conhecimento antropológico e social que está plasmado na sua vastíssima obra.
Às vezes, ao ler as saborosas descrições destes serões, recordo-me de muitos outros serões, bem longe da Lunda, na casa do Pedro Redinha, onde, depois do jantar, costumávamos sentar-nos ouvir as inacabáveis histórias que José Redinha tinha para contar.
Nesses serões inesquecíveis, por trás do seu inseparável cachimbo, sempre fumegante e aromático, era um nunca acabar dos relatos mais diversos. Coloridos, repletos de peripécias e episódios picarescos, jorravam, encadeados, e apenas intercalados pelo gesto, automático, de passar a mão pelo rosto acompanhado pela inevitável fungadela, característicos trejeitos faciais que invariavelmente sublinhavam o seu discurso.
Muitas vezes, único ouvinte desses relatos, nunca me preocupei verdadeiramente em transformar esses longos monólogos em diálogo verdadeiro. Aliás, não era necessário!
Para início de conversa, bastava um mote inicial identificando um tema. Esse breve simulacro introdutório de diálogo, transformava-se no “pontapé de saída” para várias horas de relatos-memórias duma vida repleta de deambulações, dificuldades, êxitos e muita aventura!
Depois, bastava ir entremeando as narrações com brevíssimas intervenções monossilábicas de admiração ou de presença para dar novo alento ao desfiar de memórias vivíssimas que nos prendiam invariavelmente até à madrugada!
Verdadeiramente um homem singular!…
Mas, estávamos a escrever sobre as campanhas… e perdemos o fio à meada!
Ficará para próxima oportunidade. Mas, ainda assim, vamos deixar aqui uma espécie de mapa-resumo das campanhas cuja simples leitura permite visualizar o percurso de vida de um personagem fascinante que hoje, quando não ignorado, é alvo de um desmerecido desprezo só explicável pela ignorância e pelo preconceito.

Magnífico texto, espetacular descrição das campanhas de José Redinha…que pena não o ter conhecido
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Boa tarde, eu tenho uns quadros pintados pelos Ilustre José Redinha, bem comp umas máscara e uma estatueta em madeira, ambas feitas pela tribo chokwe, que o Redinha trouxe de Angola. Sabe se alguem estaria interessado em adquirir tais itens? Obrigado.
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ligue para zemalex777@hotmail.com
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