O Castro da PEDRA DE OURO

Castro_Pedra de Ouro

Local e aspecto

O “Castro da Pedra de Ouro” apresenta-se como um assentamento humano do período Calcolítico localizado em elevação sobranceira à actual povoação da Pedra de Ouro. Do alto dos seus 236 mts de altura, os seus habitantes tinham um controle visual que se estende a todo o estreito vale por onde corre uma pequena ribeira, a Ribeira de Santana da Carnota, tributária do Rio Grande da Pipa, afluente do Tejo pelo canal conhecido por Vala do Carregado.

A morfologia do local desenha-se numa larga plataforma no topo de um maciço calcário cuja configuração potenciava e facilitava de forma significativa a sua defesa contra potenciais invasores, se fosse caso disso. Trata-se de um esporão elevado com três vertentes íngremes, escarpadas e de difícil acesso. Apenas a Norte a acessibilidade seria relativamente mais fácil.

Descoberta e estudo

O Castro da Pedra de Ouro foi descoberto pelo alenquerense Hipólito Cabaço em 1934 que, dois anos antes, havida já descoberto a Gruta de Refugidos e o Castro do Amaral/Curvaceira localizado na colina fronteira.

Depois da descoberta, Hipólito Cabaço fez o reconhecimento e a identificação do lugar. Tratava-se de um povoado (assim o provam os fundo de cabana de formato circular) defendido por “muralhas” de pedra tosca, relativamente frágeis (se comparadas com aquelas que existem em sítios de tipologia similar) que, por Nascente, parecem mesmo apresentar um duplo sistema de defesa. Completam a estrutura do povoado, a noroeste,

uma construção circular que foi indicada como sendo uma torre de defesa; a sudoeste, um monumento funerário (“thollos”) e, a poente, fora do recinto muralhado mas encostado a este, uma sepultura onde foi encontrado um esqueleto de uma criança de cerca de doze anos de idade, estudado pelo Prof. Mendes Correia.

Materiais arqueológicos recolhidos

O conjunto de materiais recolhidos por Hipólito Cabaço (e hoje na colecção do Museu de Alenquer) é constituído por objectos de pedra (machados, goivas e polidores; lascas, raspadeiras e facas; pontas de punhal ou lança e pontas de seta), objectos em osso (espátulas, furadores, alfinetes e outros objectos de adorno), objectos de metal (2 machados de cobre e, provavelmente, uma folha de lança e um punhal), cerâmica, decorada ou não (vasos inteiros ou fragmentados, pesos de tear, cossoiros e cadinhos), conchas (em bom número) e sementes (de fava e trigo).

Sobressaindo dos materiais recolhidos na área intra-muros do povoado, foi no espólio da sepultura que se encontraram os melhores restos de cerâmica e, especialmente, a “Venus da Pedra de Ouro” (como foi designada por Afonso do Paço (1940). Trata-se de uma figurinha de barro com cerca de 39 mm de comprimento que apresenta uma cabeça ligada directamente ao tronco, sem pescoço, apresentando, incisos, os olhos e o nariz. O desenho de seios, bem modelados apesar do desgaste, indica claramente tratar-se de um figura humana feminina.

Ocupação, datação e vida das populações locais

Apesar da dificuldade em estabelecer uma cronologia precisa da ocupação do castro, os materiais arqueológicos recolhidos e a estrutura rectangular do sítio permitem referi-lo com tendo tido ocupação humana durante o Calcolítico (tal como os outros na mesma área geográfica) tendo sido abandonado, provavelmente, na transição para o Bronze inicial.

A análise dos achados arqueológicos parece indicar estarmos em presença de uma povoação habitada por gentes dedicadas a actividades agrícolas e pastoris que conhecem e utilizam cereais e leguminosas. A prová-los estão as sementes encontradas, mas também as pequenas mós (dormentes e moventes) que serviriam para esmagar e farinar os cereais cultivados.

A existência de placas de barro e cossouros permite pensar que essas populações locais se dedicavam também à fiação e à tecelagem, embora possa pensar que essas “indústrias” tenham ainda um carácter rudimentar e sem qualquer especialização.

No que à metalurgia diz respeito, os achados (objectos metálicos e cadinhos) permitem-nos concluir que as populações que aqui habitaram já conheciam a metalurgia se bem que, provavelmente, a não executassem. O facto de se não terem encontrado (ao menos até agora) restos de fundição, moldes e escórias minerais parecem justificar aquilo que afirmamos. Nesta matéria o que está confirmado é a utilização dos cadinhos de cerâmica (existentes no Museu de Alenquer) como recipientes de fusão de metal (cobre) apresentando um deles, inclusive, algumas incrustações do metal fundido.

A existência da chamada “cerâmica votiva”, o aparecimento daquilo que se consideram “objectos de culto” (cilindros e pinhas de calcário), a ocorrência de um local de sepultura com orientação a nascente e, em especial, a “Venus da Pedra de Ouro” indiciam uma população que venera os seus mortos, possui rituais funéreos e possui crenças e concepções que ultrapassam a mera sobrevivência e a simples materialidade.

 Características do povoado da Pedra de Ouro e seu papel na estrutura de ocupação do espaço

Uma das questões fundamentais que se coloca na interpretação dum povoado como a da Pedra de Ouro é a sua tipologia construtiva. Aceitando como válida a premissa que assume os muros de pedra existentes como “muralhas”, qual terá sido a razão que presidiu à construção de um “povoado fortificado”?

Reconhecendo a interdependência entre vias de comunicação, vias fluviais e assentamentos humanos, ao olharmos para o Castro da Pedra de Ouro o que se destaca é a excelente visibilidade sobre a ribeira de Santana da Carnota e sobre o vale por onde se terão desenvolvido os itinerários que aqui se cruzam: a ligação N-S, entre o Castro de Pragança

(na serra do Montejunto) e o Castro do Amaral; itinerário entre o castro da Pedra de Ouro e Carreiras, passando pelo Canhestro, Antas e Santana da Carnota; e, finalmente, a ligação Castro do Amaral – Carregado passando pelos Casais da Marmeleira e provável ligação à Gruta de Refugidos e ao Alto da Peça.

Reconhecendo ademais o Calcolítico como uma época de profundas transformações económicas, sociais e culturais donde destacamos o crescimento demográfico, a revolução dos produtos secundários, em especial a produção de excedentes alimentares, o controle dos espaços (agrários, de circulação e de habitação) e a substituição paulatina da pedra como matéria-prima pelos metais. Somos levados a reconhecer uma alteração profunda das estruturas sociais com o aparecimento de hierarquias intra-comunitárias, mas também inter-regionais.

Neste contexto, tendo em conta a altimetria do local, a morfologia da plataforma ocupada, o acesso fácil ao abastecimento de água, o controle de itinerários de média/longa distância e o domínio das novas técnicas produtivas e metalúrgicas, a Pedra de Ouro surge como o local ideal para fixação privilegiada das populações que pretendessem dominar os espaços circundantes, respectivos residentes e até os transeuntes.

Daí que alguns autores, ao invés de verem na edificação destes “povoados fortificado” um esforço de defesa contra agressores externos, tenham preferido falar da sua ocupação por elites locais emergentes que pretenderam exercer o controle sobre um determinado território e os seus habitantes. Nesta perspectiva, a “fortificação” da povoação pretendia reforçar (materialmente, mas também de forma simbólica) o papel dominante da elite que os habitava dissuadindo e dificultando o acesso a eventuais vizinhos usurpadores/agressores. 

Cronologias absolutas da ocupação da Pedra de Ouro

Para o Castro da Pedra de Ouro não existem quaisquer datações absolutas. Por isso, a tentativa de situar a ocupação do espaço no tempo far-se-á sempre com alguma insegurança e só pode basear-se no estabelecimento de cronologias relativas baseadas na ausência ou na presença de determinados materiais arqueológicos e comparação com outros locais do mesmo tipo (por exemplo, Leceia e Zambujal).

Neste contexto, a hipótese hoje mais difundida refere o início da ocupação humana na Pedra de Ouro aí algures por meados do III milénio a.C., em pleno Calcolítico. Da mesma forma também a fixação de um termo para essa ocupação é baseada na ausência de materiais cerâmicos típicos do Bronze pelo que o Castro terá deixado de ser população residente em finais do III milénio a.C. na transição do Calcolítico para o Bronze.

Posteriormente este local terá sido alvo de uma segunda ocupação de carácter funerário com enterramentos em cistas (de que o vaso decorado em relevo com “gomos e botões” recolhido na Pedra de Ouro é exemplar típico) que se terá prolongado até Bronze II, no final do segundo milénio.

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Nota final

Apesar da sua classificação como Monumento Nacional, é absolutamente deplorável o estado de abandono a que o local está votado!

Tendo presente embora que todas as estruturas do Castro se localizam em propriedades privadas nada justifica a inércia dos poderes públicos na defesa/conservação dum património que é de todos e que deveríamos, se não valorizar, ao menos conservar!

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Os esqueletos ressuscitados

Hoje de manhã, como é meu hábito, liguei o rádio, sempre sintonizado na RDP.

A maior parte das vezes, este gesto, quase automático, mais não representa que a colocação de um ruído de fundo que me acompanha mas a que não dou grande atenção. Hoje, porém, estava no ar um programa semanal, a que chamam “A vida dos sons” e que pretende relembrar acontecimentos do passado século passado, com recurso aos sons contemporâneos do evento, misturando factos nacionais e internacionais, umas vezes relacionados, outras nem tanto!

Não consigo reproduzir o caminho das reflexões que me levaram a isso, mas, em dado momento, dei comigo a relembrar alguns dos “velhos” conceitos da teoria marxista-leninista de análise da sociedade e do estado, em especial o papel daquele conjunto de instrumentos a que se chamava “aparelhos ideológicos do estado” e que me lembrava de ter “bebido” há quase cinquenta anos!

Afastado há muito dessas lides, descrente da aplicabilidade destes conceitos a uma sociedade dita democrática e desconfiado dos velhos mestres há muito soterrados pela cinza do esquecimento, surpreendi-me a mim mesmo ao ver “ressuscitar” os velhos esqueletos!

Breve e simplificadamente, numa determinada sociedade, os “aparelhos ideológicos” são aqueles instrumentos não materiais cujo funcionamento se destina a manter, reforçar e reproduzir as relações sociais estabelecidas que os detentores desses instrumentos pretendem perpetuar. No caso de serem pertença do estado, o seu funcionamento correcto tenderá a manter a teia de relações que o suportam e, por isso, a perpetuá-lo ad infinitum.

Em sociedades onde o estado não monopoliza os meios de informação, acreditava que a análise marxista não funcionaria. Até ouvir, semanas a fio, “A vida dos sons”!

A escolha dos acontecimentos narrados, dos sons escolhidos para os acompanhar, os comentários dos jornalistas, a análise dos factos associados e o enquadramento que é dado a toda a narrativa desse programa propiciaram a ressurreição dos velhos esqueletos/esquemas intelectuais que julgava definitivamente mortos e enterrados.

Este programa, como muitos outros e até, podemos dizê-lo, a generalidade da informação debitada pelos órgãos de informação, salvo raras e honrosas excepções, não se limita a apresentar os “dados” que a inteligência dos ouvintes/leitores deverá tratar e integrar no conjunto da sua informação operacional de análise da sociedade passada e presente. A “informação” disponibilizada mais se assemelha, em todos os momentos da sua produção e da sua difusão, a uma repetição continuada e repetitiva dos arquétipos vigentes mais difundidos na nossa sociedade.

Não importa, neste como noutros casos, se os autores/actores desta produção informativa estão ou não conscientes do seu posicionamento no reforço e na reprodução do status quo social. O importante, aqui, é a questão de facto. E o facto é que a informação veiculada, qualquer que seja a forma que apresente, parece somente preocupada em difundir as realidades, as percepções e os conceitos dominantes a cada momento sem nunca se preocupar em fornecer a cada um dos destinatários os dados, as ferramentas e os métodos de análise que lhes permitam perceber a realidade e agir sobre ela.

Difusão é, neste caso, igual a homogeneização; e a homogeneização do pensamento pode esbater a conflitualidade e a diferenciação, mas será sempre apanágio duma sociedade amorfa, constituída por mentecaptos intelectualmente diminuídos.

A RDP e “A vida dos sons” fez-me regressar aos vinte anos!…
Não foi mau!

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A fundação do Museu do Dundo

Relação objectos 1936

Relação dos objectos que integraram o núcleo original do Museu do Dundo

Ao contrário de algumas in-verdades que circulam sobre esta matéria, – especialmente na Internet, – e que atribuem a fundação a outras pessoas, nomeadamente ao Dr. Mesquitela Lima, o Museu do Dundo tem a sua génese numa pequena colecção de peças recolhidas por José Redinha ainda em funções na Administração Civil, no Posto do Chitato.

Como ele próprio refere no Relatório Anual de 1947 (RA, 1947 : 3) enviado à Administração da Diamang: “A relação de 145 objectos é também datada de 1936. Não existia relação em arquivo por se tratar da nossa colecção particular cedida ao Museu. Foi agora tirada cópia do original e arquivada constando dela nomes e origem exacta das respectivas peças.”

Barros Machado, no texto introdutório ao estudo do espólio da Companhia dos Diamantes de Angola (Diamang) referido na nota-de-rodapé, baseando-se em informação fornecida por amigos de José Redinha e seus coetâneos, refere as condições em que terá sido efectuada a aquisição da pequena colecção que constituiu o núcleo original do Museu do Dundo.

José Redinha, terminado o tempo de serviço na Administração Civil do Posto do Chitato, seria forçado a sair da região dispondo-se a gozar férias em Portugal donde se ausentara há cerca de oito anos. “Em jeito de homenagem de despedida e de ajuda financeira,” um grupo de amigos, conhecedores dos seus dotes artísticos de notável retratista, promoveram uma exposição com quadros de sua autoria aos quais adicionaram alguns dos objectos etnográficos por si recolhidos. A exposição e a festa tiveram lugar na Casa do Pessoal da Diamang, na vizinha povoação do Dundo. Foi nessa ocasião que o Administrador– Delegado da Companhia dos Diamantes, Engº Quirino da Fonseca, decidiu a aquisição das peças expostas e decidiu, em simultâneo, reter o coleccionador contratando-o para trabalhar para a Diamang na recolha de peças para uma projectada “Colecção etnográfica”.

Essa pequena colecção de peças, adquirida pela Diamang em 1936 a José Redinha, foi o núcleo primordial da “Colecção Etnográfica” da companhia, tendo sido inicialmente exposta “em instalações adaptadas e provisórias pertencentes à Companhia dos Diamantes de Angola”.

Nos anos seguintes, a colecção etnográfica – que, no dizer de Barros Machado,  “visava estudar a área cultural das populações Lunda-Tchokwe e povos circunvizinhos” foi grandemente enriquecida com a rápida agregação de inúmeros peças, artefactos e objectos etnográficos, na sua maioria adquiridos durante as Campanhas de Reconhecimento etnográfico levadas a cabo por José Redinha entre 1936 e 1946 (que abordaremos noutra ocasião).

Em 1938, a colecção contava já 3.707 peças. Pela dimensão e pelo sentido que se lhe pretende dar, o conjunto deixa de ser designado como colecção e passa a integrar então o nóvel “Museu Etnográfico” da Diamang. Em 1942, as 5.230 peças já não cabem nas instalações adaptadas a museu e, por decisão da Administração, inicia-se a construção de edifício próprio, formalmente inaugurado em 1948. 

A partir de 1942, o agora designado (depois da re-inauguração em 2012) Museu Regional do Dundo será definitivamente apelidado de Museu do Dundo. 

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Machado, A. de Barros, «Notícia sumária sobre a acção cultural da Companhia dos Diamantes de Angola» in Diamang – Estudo do património cultural da ex-Companhia dos Diamantes de Angola, Museu Antropológico da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1995, pgs 11 a 23.
Companhia dos Diamantes de Angola (Diamang), Breve Notícia sobre o Museu do Dundo, 4ª ed., Lisboa, 1963.
A atribuição errada da fundação do Museu ao Dr. Mesquitela Lima tem a sua origem na nota biográfica fúnebre subscrita por Otília Leitão na Semana Online em 15-01-2007. Recolhida, depois, na biografia que consta na Wikipédia (acedida em 28-10-2013), passou a ser repetida acriticamente por vários autores, inclusive por alguns sobre os quais, pelo lugar que ocupam, recai o dever de confirmação da informação que veiculam. 
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Jack London no Alaska: Uma situação colonial?

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Até há pouco, este norte-americano, jornalista e escritor de variados talentos, não integrava o mundo dos meus conhecimentos no domínio da literatura.

Há uns dois ou três anos, vindo não sei de onde, chegou-me às mãos “O apelo da selva“, a obra que constituiu para mim o cartão de apresentação deste autor.

Nesse texto, o inusitado de um cão-narrador mestiço (cruzamento de S. Bernardo com Pastor Alemão!), arrancado à vida burguesa numa mansão de Santa Clara (Califórnia) e lançado na dureza brutal das necessidades de sobrevivência no agreste Alaska (onde acaba por transformar-se em chefe de alcateia de lobos), representou-se-me como um artifício literário deveras interessante e muito criativo.

O despropósito dum animal que, para além do protagonismo da narrativa, se assume como um observador perspicaz e que, olhando para os humanos, lhes vai traçando a biografia; um cão que vai olhando para o mundo e filosofando sobre o comportamento dos homens e as incongruências da vida, ainda mais despertou a minha atenção.

A leitura desta obra foi como que o aperitivo que me  abriu o apetite para leituras posteriores.

Com muita satisfação, de Jack London, encontrei há pouco dois outros livros: Quando Deus ri e Contos do extremo Norte.

Pela força violenta da narrativa, pelas experiências relatadas e pelos protagonistas envolvidos foi sobretudo este último livro que mais me cativou.

O livro é um conjunto de contos que preenchem um palco comum: o Alaska. Aí, a dureza das condições de sobrevivência e as agruras do clima constituem o pano de fundo onde as personalidades dos protagonistas se defrontam entre si e com os elementos externos. Basicamente, o denominador comum de quase todos os contos é o enfrentamento, quase sempre violento, entre a chamada civilização ocidental (americana), o seu modo de vida, as suas concepções, a sua tecnologia e os seus comportamentos e a pré-existente civilização índia. Em cada conto, um tema diferente, uma faceta nova, uma multiplicidade de perspectivas conflitantes das duas mundividências. Em todos eles, um confronto permanente e antagónico das duas partes.

Partindo dessas visões temáticas parcelares, o conjunto dos contos permite-nos uma perspectiva  global sobre a violência, o conflito, o choque e a desestruturação que os recém-chegados, – representantes duma pretensa “civilização mais avançada”, –  provocam nas estruturas ancestrais das populações índias do inóspito Alaska.

Embora, em sentido estrito, se não possa definir uma situação colonial formal, os  retratos desenhados a cada narrativa apresentam todos os componentes da condição colonial típica. A exploração económica do território, o estilo de vida dos agentes (funcionários governamentais ou simples agentes dos entrepostos da majestática Hudson Bay Company), a estrutura da administração governamental, o exercício da justiça, o uso da tecnologia e do poder, as formas de propriedade, em suma, todas as relações que se estabelecem entre as duas comunidades/culturas em presença são, sem dúvida, de um tipo que poderíamos designar, no mínimo, de para-colonial.

Sabendo embora que London se assumiu como activista empenhado e, portanto, como  observador atento e crítico da realidade social sua contemporânea, o quadro que ele traça da exploração do Alaska na última década do século XIX foi uma revelação insuspeita e espantosa das manifestações dum colonialismo americano, violento, racista e etnocêntrico – como são todos os colonialismos, – que surge num local absolutamente insuspeitado!

 Nesta como noutras matérias, a vida repete-se com uma monotonia irritante e pouco criativa. 

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