
Até há pouco, este norte-americano, jornalista e escritor de variados talentos, não integrava o mundo dos meus conhecimentos no domínio da literatura.
Há uns dois ou três anos, vindo não sei de onde, chegou-me às mãos “O apelo da selva“, a obra que constituiu para mim o cartão de apresentação deste autor.
Nesse texto, o inusitado de um cão-narrador mestiço (cruzamento de S. Bernardo com Pastor Alemão!), arrancado à vida burguesa numa mansão de Santa Clara (Califórnia) e lançado na dureza brutal das necessidades de sobrevivência no agreste Alaska (onde acaba por transformar-se em chefe de alcateia de lobos), representou-se-me como um artifício literário deveras interessante e muito criativo.
O despropósito dum animal que, para além do protagonismo da narrativa, se assume como um observador perspicaz e que, olhando para os humanos, lhes vai traçando a biografia; um cão que vai olhando para o mundo e filosofando sobre o comportamento dos homens e as incongruências da vida, ainda mais despertou a minha atenção.
A leitura desta obra foi como que o aperitivo que me abriu o apetite para leituras posteriores.
Com muita satisfação, de Jack London, encontrei há pouco dois outros livros: Quando Deus ri e Contos do extremo Norte.
Pela força violenta da narrativa, pelas experiências relatadas e pelos protagonistas envolvidos foi sobretudo este último livro que mais me cativou.
O livro é um conjunto de contos que preenchem um palco comum: o Alaska. Aí, a dureza das condições de sobrevivência e as agruras do clima constituem o pano de fundo onde as personalidades dos protagonistas se defrontam entre si e com os elementos externos. Basicamente, o denominador comum de quase todos os contos é o enfrentamento, quase sempre violento, entre a chamada civilização ocidental (americana), o seu modo de vida, as suas concepções, a sua tecnologia e os seus comportamentos e a pré-existente civilização índia. Em cada conto, um tema diferente, uma faceta nova, uma multiplicidade de perspectivas conflitantes das duas mundividências. Em todos eles, um confronto permanente e antagónico das duas partes.
Partindo dessas visões temáticas parcelares, o conjunto dos contos permite-nos uma perspectiva global sobre a violência, o conflito, o choque e a desestruturação que os recém-chegados, – representantes duma pretensa “civilização mais avançada”, – provocam nas estruturas ancestrais das populações índias do inóspito Alaska.
Embora, em sentido estrito, se não possa definir uma situação colonial formal, os retratos desenhados a cada narrativa apresentam todos os componentes da condição colonial típica. A exploração económica do território, o estilo de vida dos agentes (funcionários governamentais ou simples agentes dos entrepostos da majestática Hudson Bay Company), a estrutura da administração governamental, o exercício da justiça, o uso da tecnologia e do poder, as formas de propriedade, em suma, todas as relações que se estabelecem entre as duas comunidades/culturas em presença são, sem dúvida, de um tipo que poderíamos designar, no mínimo, de para-colonial.
Sabendo embora que London se assumiu como activista empenhado e, portanto, como observador atento e crítico da realidade social sua contemporânea, o quadro que ele traça da exploração do Alaska na última década do século XIX foi uma revelação insuspeita e espantosa das manifestações dum colonialismo americano, violento, racista e etnocêntrico – como são todos os colonialismos, – que surge num local absolutamente insuspeitado!
Nesta como noutras matérias, a vida repete-se com uma monotonia irritante e pouco criativa.