Os esqueletos ressuscitados

Hoje de manhã, como é meu hábito, liguei o rádio, sempre sintonizado na RDP.

A maior parte das vezes, este gesto, quase automático, mais não representa que a colocação de um ruído de fundo que me acompanha mas a que não dou grande atenção. Hoje, porém, estava no ar um programa semanal, a que chamam “A vida dos sons” e que pretende relembrar acontecimentos do passado século passado, com recurso aos sons contemporâneos do evento, misturando factos nacionais e internacionais, umas vezes relacionados, outras nem tanto!

Não consigo reproduzir o caminho das reflexões que me levaram a isso, mas, em dado momento, dei comigo a relembrar alguns dos “velhos” conceitos da teoria marxista-leninista de análise da sociedade e do estado, em especial o papel daquele conjunto de instrumentos a que se chamava “aparelhos ideológicos do estado” e que me lembrava de ter “bebido” há quase cinquenta anos!

Afastado há muito dessas lides, descrente da aplicabilidade destes conceitos a uma sociedade dita democrática e desconfiado dos velhos mestres há muito soterrados pela cinza do esquecimento, surpreendi-me a mim mesmo ao ver “ressuscitar” os velhos esqueletos!

Breve e simplificadamente, numa determinada sociedade, os “aparelhos ideológicos” são aqueles instrumentos não materiais cujo funcionamento se destina a manter, reforçar e reproduzir as relações sociais estabelecidas que os detentores desses instrumentos pretendem perpetuar. No caso de serem pertença do estado, o seu funcionamento correcto tenderá a manter a teia de relações que o suportam e, por isso, a perpetuá-lo ad infinitum.

Em sociedades onde o estado não monopoliza os meios de informação, acreditava que a análise marxista não funcionaria. Até ouvir, semanas a fio, “A vida dos sons”!

A escolha dos acontecimentos narrados, dos sons escolhidos para os acompanhar, os comentários dos jornalistas, a análise dos factos associados e o enquadramento que é dado a toda a narrativa desse programa propiciaram a ressurreição dos velhos esqueletos/esquemas intelectuais que julgava definitivamente mortos e enterrados.

Este programa, como muitos outros e até, podemos dizê-lo, a generalidade da informação debitada pelos órgãos de informação, salvo raras e honrosas excepções, não se limita a apresentar os “dados” que a inteligência dos ouvintes/leitores deverá tratar e integrar no conjunto da sua informação operacional de análise da sociedade passada e presente. A “informação” disponibilizada mais se assemelha, em todos os momentos da sua produção e da sua difusão, a uma repetição continuada e repetitiva dos arquétipos vigentes mais difundidos na nossa sociedade.

Não importa, neste como noutros casos, se os autores/actores desta produção informativa estão ou não conscientes do seu posicionamento no reforço e na reprodução do status quo social. O importante, aqui, é a questão de facto. E o facto é que a informação veiculada, qualquer que seja a forma que apresente, parece somente preocupada em difundir as realidades, as percepções e os conceitos dominantes a cada momento sem nunca se preocupar em fornecer a cada um dos destinatários os dados, as ferramentas e os métodos de análise que lhes permitam perceber a realidade e agir sobre ela.

Difusão é, neste caso, igual a homogeneização; e a homogeneização do pensamento pode esbater a conflitualidade e a diferenciação, mas será sempre apanágio duma sociedade amorfa, constituída por mentecaptos intelectualmente diminuídos.

A RDP e “A vida dos sons” fez-me regressar aos vinte anos!…
Não foi mau!

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About A. Santos

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