UMA VIAGEM A ISRAEL: impressões de um país (II)

Tel Arad, o Mar Morto, Ein Gedi e Massada

IMG_7931Tal como Tel Beer Sheva, o Tel Arad é uma cidade localizada no limite nordeste do deserto do Negev, já bem perto do extremo sul do Mar Morto. O Parque Nacional Tel Arad é constituído, na realidade, por duas cidades, uma ananinita outra hebraica, construída a pequena distância (cerca de 200 mts uma da outra) sem sequência de ocupação entre ambas.

A mais antiga, Cananita, tem ocupação humana desde o Bronze Inicial (final do IV milénio BCE). Durante o 3º milénio desenvolve-se, alarga-se e transforma-se numa cidade fortificada com cerca de 10 hectares, famosa pela sua ligação ao trabalho e ao comércio do cobre extraído em minas da região do Sinai. A partir do Bronze Final as escavações levadas a cabo não apresentaram vestígios de ocupação humana, presumindo-se que o local tenha sido abandonado.

1.500 anos mais tarde, aí por volta do XI séc. BCE, na parte mais alta da elevação, começam a fixar-se as populações hebraicas dando origem a uma nova cidade onde o rei Salomão, na segunda metade do séc. X BCE mandou construir sólida fortaleza. A nova cidade, embora sujeita às vicissitudes causadas pelas sucessivas passagens de mão em mão pelos diferentes povos que por aqui se enfrentaram, manteve ocupação continuada até ao séc VIII da nossa era.

IMG_8011Seguindo para Norte, por volta do meio dia e meio iniciámos a descida para o Mar Morto, 417 mts abaixo do nível do mar. O termómetro marcaria qualquer coisa como 4o e alguns graus e o suor corria em bica apesar dos esforços do ar condicionado do autocarro. O Mar Morto, uma depressão inóspita numa paisagem estranha, um lugar poeirento onde se sufoca, apareceu à nossa frente, pouco mais que um grande lago! No céu, dois caças da força aérea israelita, passaram a baixa altitude rugindo ameaças contra os seus vizinhos.

Bordejando a água, dirigimo-nos a Massada, a fortaleza onde 960 Judeus, em rebelião contra Roma, no ano de 73 , preferiram o suicídio colectivo a cair vivos nas mãos dos seus inimigos! Hoje um símbolo da indómita vontade de liberdade para os israelitas com eco nas palavras do guia: Massada, nunca mais!

IMG_8088O almoço teve lugar no self-service das instalações onde ancoram os cabos do teleférico que leva até ao topo da falésia, à fortaleza de Herodes, os magotes de turistas encalorados. O restaurante era um espaço  imenso, uma espécie de refeitório de pousada da juventude mobilado com pesadas mesas de madeira, bancos corridos, pejado de adolescentes ruidosos e cuidadosamente mal vestidos. 

Apaziguada a fome, voltámos à estrada debaixo de um sol sufocante que a aragem, suave e quente, era incapaz de amenizar. Direcção Ein Gedi, o oásis onde, em 1953, foi fundado o primeiro (provavelmente o único!) kibutz da região e que é hoje uma das Reservas Naturais de Israel. 

IMG_8149Curioso como da escarpa mais agreste e mais seca nascem duas pequenas torrentes: o wadi Arugot e o wadi David  que dão vida a um parque natural que regurgita de vida. É a Reserva Natural de Ein Gedi, famosa pelas suas cabras montesas (da espécie Capra ibex nubiana). Cercada pelo deserto, entalada entre a escarpa (200 mts de altura!) e o mar, o pequeno e espantoso oásis faz as delícias dos escaladores e dos caminhantes nos trilhos que, partindo daqui sobem a escarpa serpenteando ao sabor dos wadi.

A pequena distância – algumas centenas de metros – a praia de Ein Gedi no Mar Morto.

IMG_8197Tomar banho no Mar Morto foi uma experiência entre o estranho e o desconfortável! Naquele fim de tarde, a temperatura da água seria de mais de 40 graus e era quase insuportável, sobretudo para quem já foi operado às varizes! A água, transparente; o fundo, baixo e branco, não era de areia, mas de sal; a poucos metros da margem, o fundo do mar, de sal branco, era tão duro como uma pedra e não se podia caminhar a não ser calçado!

Neste caldo bem quente, não se conseguia ficar mais que alguns minutos!… O que valia eram os chuveiros que o hotel, cuidadosamente, instalou na praia. Mesmo quente, a água que deles saía era mais fresca que a do mar!…

Neste universo de desconforto não admira que o Meridien tenha construído uma boa piscina, bem juntinho ao mar, para os seus hóspedes…IMG_8213

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UMA VIAGEM A ISRAEL – impressões de um país (I)

Tel-Beer-Sheva-National-ParkAinda que sem contacto directo com as respectivas realidades, a partir de alguns estereótipos culturais que nos são transmitidos das mais diversas formas e que absorvemos de forma a-crítica, cada um nós “cria” uma imagem mental de pessoas de quem ouvimos falar, de coisas que nunca vimos, ou de lugares que nunca visitámos.

Vem isto a propósito de uma recente viagem a Israel. Antes de partir tinha desse país um desenho intelectual muito favorável, uma síntese muito simples que se corporizava em duas ou três ideias-feitas, classicamente  primárias : um país de gente trabalhadora e inteligente, que, embora matizada por traços de intransigência religiosa e de razoável xenofobia, tinha, com esforço notável e persistente, transformado “o deserto num jardim!”

Adiantando a conclusão: No final de alguns dias deambulando de Norte a Sul do país, os preconceitos esfumaram-se: o “jardim” não existe e as gentes são mais intransigentes que inteligentes!…

O primeiro contacto com a “terra prometida” iniciou-se pela capital, Tel-Aviv. Para mim – que não sou grande fã da arquitectura Bauhaus da “cidade branca” classificada pela Unesco, – guardo a memória de uma aglomeração humana meio caótica onde as zonas bem delineadas e construídas com gosto ombreiam com áreas de habitações mais ou menos abarracadas, numa desordem arquitectónica perfeitamente visível. Ruas limpas e bem pavimentadas cruzam-se com vielas onde o asfalto há muito se esfumou transformado numa poeira muito fina, de indefinível cor acinzentada, que emporcalhará inapelavelmente os pés de qualquer transeunte que aí desenhe mais que dois ou três passos.

Tel-Aviv_IMG_7301_Praia

Frente a uma longa linha de praias que vai do porto de Tel-Aviv até Alma beach, já à entrada  de Jaffa, os altos e recentes edifícios das grandes cadeias hoteleiras  que se alinham naquela espécie de marginal razoavelmente engarrafada alternam com pequenos prédios de duvidosa qualidade construtiva, necessitados de profundos trabalhos de manutenção e limpeza.

Dessa extensa linha de praias que separam (ou ligam) a cidade ao mar, não tive oportunidade de apreciar a qualidade. Do que vi, pareceu-me cumprir os requisitos mínimos para uma utilização sem grandes preocupações sanitárias.

A Cananita Yafo, Jaffa ou Joppa é uma pequena cidade, hoje integrada na capital, que foi o porto de Jerusalém nos tempos de Salomão. Exceptuada a panorâmica do jardim junto ao mar, na parte histórica da cidade nada merece demora superior a meia hora.

Tel-Gezer_IMG_7504_Acesso difícil

A passagem por Tel Gezer não merece referência especial. O antiquíssimo local arqueológico conhecido pelo seu “Calendário de Gezer” é de difícil acesso: alguns quilómetros por uma estrada estreita, poeirenta e esburacada, adequada apenas a veículos de tracção total. Ademais, as últimas centenas de metros até à antiga cidade, têm que ser feitas a pé, por um carreiro poeirento e ensolarado, completamente desaconselhado ao comum dos mortais a partir de certa fase da vida! Os eventuais atractivos da visita não são suficientes para convencer o incauto visitante. A desolação do local, o estado de abandono, lastimoso e lamentável, aliados a um intenso calor que sufoca indígenas e forasteiros são razões mais que suficientes para manter do local apreciável distância!

Descendo ao longo da costa, as cidades portuárias filisteias de Ashdod e Askelon, encostadas à faixa de Gaza, não apresentam argumento que justifique qualquer paragem. O mais atilado é seguir para a entrada do deserto.

IMG_7737O Tel Beer Sheva National Park, declarado pela Unesco, em 2005, Património da Humanidade é local que justifica bem o sacrifício da viagem. Situado perto da moderna cidade de Beer Sheva, o sítio arqueológico está numa elevação de cerca de 307 mts e constitui um assentamento humano que se inicia no 4º milénio BCE e se desenrola até aos séculos 7-8 CE na fase inicial da ocupação árabe que lá construíram também uma fortaleza.

À volta do Tel Beer Sheva, apenas o deserto, inóspito, pedregoso, a perder de vista! Bem lá em baixo, no sopé do monte, bem visível mas seco, o wadi que, provavelmente, ajudou a manter aqui os habitantes da antiga cidade. Já tínhamos tido contacto com outros desertos, nomeadamente com o Namibe,  esse prolongamento do grande Kalahari. A diferença não poderia ser mais acentuada e desfavorável, no que toca à beleza, ao Negev.

No Tell Beer Sheva impressiona, em primeiro lugar, o excelente estado de conservação do sítio e as estruturas de apoio que permitem ao visitante deslocar-se em segurança, ter uma visão perfeita do local e não causar qualquer dano às construções milenares. Impressiona também o poço profundo (cerca de 70 mts), localizado extra muros, junto à entrada da cidade. Servia os habitantes locais mas também os mercadores e os outros viajantes que por aí passavam nas longas viagens através de caminhos tão pouco agradáveis.

IMG_7766De todas as construções existentes, a que merece maior destaque é o sistema de captação e conservação de água. O sistema é constituído por um largo poço com uns 17 mts de profundidade, um reservatório, dividido em 5 partes, com capacidade total de 700 mts cúbicos de armazenagem de água e um canal de condução da água captada aos reservatórios do sistema. 

À entrada, um bem conservado altar de pedra para os rituais sacrificiais que propiciavam as boas graças dos deuses…

“Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”!…    

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Memória de José Redinha

REDINHA_Caricatura

Conheci o Dr. José Redinha no já longínquo ano de 1966. Numa conferência sobre “as migrações Bantu e o seu estabelecimento em Angola”, no Museu de Angola (hoje Museu de História Natural), o jovenzito de 19 anos ficou, pela primeira vez, deslumbrado pela simplicidade, pelo conhecimento, pela inteligência e, sobretudo, pela capacidade de comunicação do orador a quem, no final da conferência, fiz questão de, num assomo de imodéstia juvenil, dar os parabéns pela qualidade da exposição efectuada.

Foi o primeiro contacto. Depois, com o fluir dos anos, muitas vezes o encontrámos: ora no Museu, ora na Câmara, ora no Instituto de Angola, ora no Pio XII (Escola de Serviço Social onde foi professor por muitos anos), ora no Seminário de Lusanda, ora em outros eventos culturais sempre ligados à etnografia, à historia, numa palavra, à cultura angolana.

Em 1972, numa actividade de férias para jovens universitários e pré-universitários tivemos a oportunidade de aprofundar a relação mais ou menos formal (até pela diferença de idades e de estatuto) que, ao longo do tempo, fomos mantendo. Tratou-se de uma actividade que se desenvolveu na actual Província do Kunene onde mais de uma centena de jovens tentou integrar-se e integrar-se na realidade e na vida dos povos Ovambo da região tomando contacto com as suas formas de viver, pensar e sentir.

Os dados recolhidos durante o evento pelos diversos participantes na área de Namacunde (a cerca de uma dezena de quilómetros da fronteira angolana com a Namíbia), revistos pelo Dr. Redinha, deu origem a alguns blocos de anotações que nunca foram objecto de compilação organização, revisão e publicação. Apenas foi publicado um pequeno opúsculo sob o título “Cunene 72” e feito um documentário etnográfico filmado cuja cópia já tentámos localizar nos arquivos audio-visuais mais conhecidos, infelizmente sem sucesso.

Desses tempos, não posso nunca esquecer-me das conversas (mais monológos que diálogos!) longas e tranquilas que mantivemos, em inúmeras ocasiões, na casa da Rua Rei Katiavala em Luanda, com que preenchemos muitos serões, num tempo de escassez de diversão e rarefacção de eventos culturais. Nessas ocasiões, a capacidade de comunicação, a vivacidade das descrições, a fluência do discurso e a largueza do saber do nosso interlocutor deixavam-nos verdadeiramente sem palavras. Felizmente, para que o Mwata continuasse a desenrolar as suas histórias infindáveis e repletas de interesse, bastava-lhe ouvir da nossa parte, a espaços, uns monossílabos apatetados que lhe fizessem sentir que ainda não tínhamos adormecido!…O 25 de Abril e os primeiros tempos da independência angolana – um tempo de muitos dificuldades mas também de grande solidariedade, – proporcionaram-nos o ensejo de aprofundar os anteriores contactos com o Mwata Sa Kapuma (era este o nome com que os Tchokwe o baptizaram…) deram-nos a possibilidade de estabelecer relações de amizade com a família Redinha. Nestas circunstâncias, do convívio nasceu uma amizade e sentimento profundo de respeito para com uma figura ímpar da etnografia angolana. 

Não posso esquecer-me também da nossa última conversa, salvo erro nos primeiros dias de Abril de 1983, cerca de uma semana antes de sair de Angola para ser operado a mal que o apoquentava há muito. Nesse dia,  falou-me longamente do livro que estava  preparando, com publicação já aprazada, sobre a Siderurgia Tradicional Angolana e cujos manuscritos teve a paciência de me mostrar. Deu-me conta também dos inúmeros projectos que tinha na cabeça e que iria concretizar após o seu regresso, restabelecido que fosse dos achaques que o levavam a Lisboa.Perante o fervilhar de ideias e projectos daquela inteligência inquieta, lembro-me bem de ter pensado: “Este homem pode viver 200 anos que não conseguirá realizar sequer metade dos projectos que está a enunciar!...”

Como é sabido, a vida trocou-lhe as voltas e nunca mais o voltei a ver!

Aqui fica a memória e esta homenagem singela a uma das figuras maiores da etnografia de Angola.

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PARTIDOS POLÍTICOS: O sequestro da democracia?

grilA democracia, enquanto sistema político, assenta na universalidade do direito de voto e reifica-se no seu exercício pelos cidadãos.

No nosso sistema político, dos 4 tipos de eleições existentes (legislativas, presidenciais, autárquicas e europeias), apenas numa delas se vota em pessoas individuais (presidenciais) sendo que noutra (autárquicas), embora a votação seja num candidato individual, na maior parte das situações, ele apresenta-se aos eleitores como a “cara” do partido que o propõe.

Nos outros tipos de eleição, os nomes de quem integra as listas apresentadas pelos partidos são irrelevantes! As votações são feitas “no partido” (praticamente  de forma independente da lista apresentada) e este exerce sobre os candidatos da “sua” lista um controle e um poder discricionário quase ilimitado. Atente-se, como exemplos deste poder absurdo, na chamada “disciplina de voto” e na possibilidade de substituir qualquer eleito recalcitrante ou indisciplinado por um qualquer “suplente” mais flexível!…

No desenho do sistema político vigente, os partidos assumem, por isso, uma posição fulcral no exercício da democracia. São eles que “permitem” que ela exista mediatizando o exercício do direito de voto que apenas pode fazer-se votando neles e nas “suas” listas. Aliás, são eles que, à revelia do comum dos mortais, definem quem “merece” ser-nos apresentado como candidato! Os eleitores apenas podem sufragar aqueles que já anteriormente foram escolhidos pelos partidos…

E não se objecte com a eventual possibilidade de apresentação de independentes! A burocracia e os custos das campanhas eleitorais inviabilizam qualquer veleidade pessoal ou qualquer aspiração de pessoas individuais à entrada na cena política, especialmente se forem desprovidos de protagonismo mediático e/ou meios de fortuna. 

O estatuto-charneira dos partidos neste sistema político obriga-os a agir em dois vectores: criar uma estrutura de “quadros” profissionais e seleccionar e formar os futuros “quadros” que garantirão a renovação do próprio partido e a sua manutenção na área do poder com a entrada de novos e “melhores” protagonistas (sempre na óptica e na lógica partidária).

Neste quadro não é difícil de entender que, na perspectiva partidária, para a definição do perfil dos seus “quadros”, mais que a prioridade dada pelos potenciais candidatos ao “interesse nacional” ou à “defesa do bem comum”, o que realmente conta e tem papel determinante é a adesão inquestionável à ideologia do partido, a fidelidade canina e a obediência cega aos órgãos de direcção 

Aliás, para precaver surpresas sempre desagradáveis, os partidos preferem “recrutar” precocemente os futuros “quadros” (ainda nos bancos das escolas  e das universidades) e “formá-los-em-exercício” nas organizações satélites (ditas de juventude) que controlam. Garantem assim “quadros” dedicados, dóceis e ideologicamente fiéis. Como “prémio” dão-lhes um emprego garantido, bem remunerado e sem necessidade de qualificações técnicas especiais. Reforçam a sua fidelidade outorgando-lhes algumas benesses inacessíveis ao comum dos cidadãos-eleitores e, para justificá-las, alegam a necessidade de atrair, para a política, “os melhores” e “evitar a corrupção” daqueles que se dedicam “ao serviço público”!

Monopolizado o espaço político por estes “quadros” partidários, a democracia foi definitivamente sequestrada pelos partidos. É urgente libertá-la!

 

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