Memória de José Redinha

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Conheci o Dr. José Redinha no já longínquo ano de 1966. Numa conferência sobre “as migrações Bantu e o seu estabelecimento em Angola”, no Museu de Angola (hoje Museu de História Natural), o jovenzito de 19 anos ficou, pela primeira vez, deslumbrado pela simplicidade, pelo conhecimento, pela inteligência e, sobretudo, pela capacidade de comunicação do orador a quem, no final da conferência, fiz questão de, num assomo de imodéstia juvenil, dar os parabéns pela qualidade da exposição efectuada.

Foi o primeiro contacto. Depois, com o fluir dos anos, muitas vezes o encontrámos: ora no Museu, ora na Câmara, ora no Instituto de Angola, ora no Pio XII (Escola de Serviço Social onde foi professor por muitos anos), ora no Seminário de Lusanda, ora em outros eventos culturais sempre ligados à etnografia, à historia, numa palavra, à cultura angolana.

Em 1972, numa actividade de férias para jovens universitários e pré-universitários tivemos a oportunidade de aprofundar a relação mais ou menos formal (até pela diferença de idades e de estatuto) que, ao longo do tempo, fomos mantendo. Tratou-se de uma actividade que se desenvolveu na actual Província do Kunene onde mais de uma centena de jovens tentou integrar-se e integrar-se na realidade e na vida dos povos Ovambo da região tomando contacto com as suas formas de viver, pensar e sentir.

Os dados recolhidos durante o evento pelos diversos participantes na área de Namacunde (a cerca de uma dezena de quilómetros da fronteira angolana com a Namíbia), revistos pelo Dr. Redinha, deu origem a alguns blocos de anotações que nunca foram objecto de compilação organização, revisão e publicação. Apenas foi publicado um pequeno opúsculo sob o título “Cunene 72” e feito um documentário etnográfico filmado cuja cópia já tentámos localizar nos arquivos audio-visuais mais conhecidos, infelizmente sem sucesso.

Desses tempos, não posso nunca esquecer-me das conversas (mais monológos que diálogos!) longas e tranquilas que mantivemos, em inúmeras ocasiões, na casa da Rua Rei Katiavala em Luanda, com que preenchemos muitos serões, num tempo de escassez de diversão e rarefacção de eventos culturais. Nessas ocasiões, a capacidade de comunicação, a vivacidade das descrições, a fluência do discurso e a largueza do saber do nosso interlocutor deixavam-nos verdadeiramente sem palavras. Felizmente, para que o Mwata continuasse a desenrolar as suas histórias infindáveis e repletas de interesse, bastava-lhe ouvir da nossa parte, a espaços, uns monossílabos apatetados que lhe fizessem sentir que ainda não tínhamos adormecido!…O 25 de Abril e os primeiros tempos da independência angolana – um tempo de muitos dificuldades mas também de grande solidariedade, – proporcionaram-nos o ensejo de aprofundar os anteriores contactos com o Mwata Sa Kapuma (era este o nome com que os Tchokwe o baptizaram…) deram-nos a possibilidade de estabelecer relações de amizade com a família Redinha. Nestas circunstâncias, do convívio nasceu uma amizade e sentimento profundo de respeito para com uma figura ímpar da etnografia angolana. 

Não posso esquecer-me também da nossa última conversa, salvo erro nos primeiros dias de Abril de 1983, cerca de uma semana antes de sair de Angola para ser operado a mal que o apoquentava há muito. Nesse dia,  falou-me longamente do livro que estava  preparando, com publicação já aprazada, sobre a Siderurgia Tradicional Angolana e cujos manuscritos teve a paciência de me mostrar. Deu-me conta também dos inúmeros projectos que tinha na cabeça e que iria concretizar após o seu regresso, restabelecido que fosse dos achaques que o levavam a Lisboa.Perante o fervilhar de ideias e projectos daquela inteligência inquieta, lembro-me bem de ter pensado: “Este homem pode viver 200 anos que não conseguirá realizar sequer metade dos projectos que está a enunciar!...”

Como é sabido, a vida trocou-lhe as voltas e nunca mais o voltei a ver!

Aqui fica a memória e esta homenagem singela a uma das figuras maiores da etnografia de Angola.

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2 Responses to Memória de José Redinha

  1. jose rebocho vaz's avatar jose rebocho vaz diz:

    Fui aluno do Jose Redinha, na Escola de Servico Social/Pio XII, num ano lectivo em luanda. Do pouco contacto, fiquei com uma impressao muito forte da sua pessoa e admiracao do seu grande e importantissimo trabalho. Tenho algumas publicacoes dele, que pertenciam ao meu pai. A Campanha do Tchiboco nao foi ate agora Republicada ? Nao se encontra em lado nemhum . Um grande abraco, Escreva mais sobre ele, nao deixe vir o esquecimento. Ze

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