Ainda que sem contacto directo com as respectivas realidades, a partir de alguns estereótipos culturais que nos são transmitidos das mais diversas formas e que absorvemos de forma a-crítica, cada um nós “cria” uma imagem mental de pessoas de quem ouvimos falar, de coisas que nunca vimos, ou de lugares que nunca visitámos.
Vem isto a propósito de uma recente viagem a Israel. Antes de partir tinha desse país um desenho intelectual muito favorável, uma síntese muito simples que se corporizava em duas ou três ideias-feitas, classicamente primárias : um país de gente trabalhadora e inteligente, que, embora matizada por traços de intransigência religiosa e de razoável xenofobia, tinha, com esforço notável e persistente, transformado “o deserto num jardim!”
Adiantando a conclusão: No final de alguns dias deambulando de Norte a Sul do país, os preconceitos esfumaram-se: o “jardim” não existe e as gentes são mais intransigentes que inteligentes!…
O primeiro contacto com a “terra prometida” iniciou-se pela capital, Tel-Aviv. Para mim – que não sou grande fã da arquitectura Bauhaus da “cidade branca” classificada pela Unesco, – guardo a memória de uma aglomeração humana meio caótica onde as zonas bem delineadas e construídas com gosto ombreiam com áreas de habitações mais ou menos abarracadas, numa desordem arquitectónica perfeitamente visível. Ruas limpas e bem pavimentadas cruzam-se com vielas onde o asfalto há muito se esfumou transformado numa poeira muito fina, de indefinível cor acinzentada, que emporcalhará inapelavelmente os pés de qualquer transeunte que aí desenhe mais que dois ou três passos.

Frente a uma longa linha de praias que vai do porto de Tel-Aviv até Alma beach, já à entrada de Jaffa, os altos e recentes edifícios das grandes cadeias hoteleiras que se alinham naquela espécie de marginal razoavelmente engarrafada alternam com pequenos prédios de duvidosa qualidade construtiva, necessitados de profundos trabalhos de manutenção e limpeza.
Dessa extensa linha de praias que separam (ou ligam) a cidade ao mar, não tive oportunidade de apreciar a qualidade. Do que vi, pareceu-me cumprir os requisitos mínimos para uma utilização sem grandes preocupações sanitárias.
A Cananita Yafo, Jaffa ou Joppa é uma pequena cidade, hoje integrada na capital, que foi o porto de Jerusalém nos tempos de Salomão. Exceptuada a panorâmica do jardim junto ao mar, na parte histórica da cidade nada merece demora superior a meia hora.

A passagem por Tel Gezer não merece referência especial. O antiquíssimo local arqueológico conhecido pelo seu “Calendário de Gezer” é de difícil acesso: alguns quilómetros por uma estrada estreita, poeirenta e esburacada, adequada apenas a veículos de tracção total. Ademais, as últimas centenas de metros até à antiga cidade, têm que ser feitas a pé, por um carreiro poeirento e ensolarado, completamente desaconselhado ao comum dos mortais a partir de certa fase da vida! Os eventuais atractivos da visita não são suficientes para convencer o incauto visitante. A desolação do local, o estado de abandono, lastimoso e lamentável, aliados a um intenso calor que sufoca indígenas e forasteiros são razões mais que suficientes para manter do local apreciável distância!
Descendo ao longo da costa, as cidades portuárias filisteias de Ashdod e Askelon, encostadas à faixa de Gaza, não apresentam argumento que justifique qualquer paragem. O mais atilado é seguir para a entrada do deserto.
O Tel Beer Sheva National Park, declarado pela Unesco, em 2005, Património da Humanidade é local que justifica bem o sacrifício da viagem. Situado perto da moderna cidade de Beer Sheva, o sítio arqueológico está numa elevação de cerca de 307 mts e constitui um assentamento humano que se inicia no 4º milénio BCE e se desenrola até aos séculos 7-8 CE na fase inicial da ocupação árabe que lá construíram também uma fortaleza.
À volta do Tel Beer Sheva, apenas o deserto, inóspito, pedregoso, a perder de vista! Bem lá em baixo, no sopé do monte, bem visível mas seco, o wadi que, provavelmente, ajudou a manter aqui os habitantes da antiga cidade. Já tínhamos tido contacto com outros desertos, nomeadamente com o Namibe, esse prolongamento do grande Kalahari. A diferença não poderia ser mais acentuada e desfavorável, no que toca à beleza, ao Negev.
No Tell Beer Sheva impressiona, em primeiro lugar, o excelente estado de conservação do sítio e as estruturas de apoio que permitem ao visitante deslocar-se em segurança, ter uma visão perfeita do local e não causar qualquer dano às construções milenares. Impressiona também o poço profundo (cerca de 70 mts), localizado extra muros, junto à entrada da cidade. Servia os habitantes locais mas também os mercadores e os outros viajantes que por aí passavam nas longas viagens através de caminhos tão pouco agradáveis.
De todas as construções existentes, a que merece maior destaque é o sistema de captação e conservação de água. O sistema é constituído por um largo poço com uns 17 mts de profundidade, um reservatório, dividido em 5 partes, com capacidade total de 700 mts cúbicos de armazenagem de água e um canal de condução da água captada aos reservatórios do sistema.
À entrada, um bem conservado altar de pedra para os rituais sacrificiais que propiciavam as boas graças dos deuses…
“Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”!…