MOAGEM e moinhos de vento

A moagem e as suas técnicas ao longo da história

Para facilitar a mastigação a digestão de gramíneas e outros materiais que utilizava para a sua alimentação, bem como dos grãos de milho (desde sempre um dos alimentos fundamentais da alimentação humana) o homem sentiu necessidade de proceder à sua farinação.

Iniciado nos primórdios mais remotos da humanidade (ao menos desde tempos que recuam a cerca de 10.000 anos BP) o processo de moenda dos alimentos e a sua transformação em farinha foi assumindo técnicas diversas em linha com o avanço tecnológico de cada uma das épocas.

Do simples esmagamento dos grãos efectuado pela percussão de uma pedra sobre um dormente, passando pelos moinhos manuais de rebolo e pelos sistemas pré-industriais de moagem até às aPilão-almofarizctuais técnicas de farinação industrial, a humanidade percorreu um longo caminho de mais de 10.000 anos (Serrão, Joel, «Moagem tradicional» in Diccionário de História de Portugal, vol. IV, Lisboa, Figueirinhas, 1985, pg. 316-317).

Não cabe aqui historiar as sucessivas técnicas. Cabe apenas dizer que os dois últimos milénios da história universal viram surgir diversos tipos de engenhos de moagem, de maior ou menor complexidade, dependendo de três variáveis fundamentais: os tipos de energia disponível em cada região, os materiais aí existentes e os saberes disponíveis.

Sempre com o objectivo de movimentar mós, – elemento nuclear sempre presente em todos os sistemas de produção de farinha, – para farinar o que quer que seja, ao longo dos tempos usar-se-ão as mais variadas fontes de energia: humana, animal, água, vento e energia eléctrica. Foi a capacidade técnica de utilizar cada uma destas formas de energia que, de forma simplificada, esteve na origem de formas cada vez mais sofisticadas e mais complexas de moagem: das mós manuais (domésticas), das atafonas, dos moinhos de rodízios, das azenhas, dos moinhos de maré até aos moinhos de vento que, na progressão da complexidade do conhecimento e das técnicas, representam o cume da sofisticação dos sistemas pré-industriais.

Os moinhos de vento

O estado actual do conhecimento nesta área define que a ocorrência mais antiga, -provavelmente a região-berço desta nova tecnologia, – de um moinho de vento terá sido a Pérsia (actual Irão) no início do século X.

Alguns autores defendem que, na base deste desenvolvimento tecnológico estarão ventoinhas (moinhos) rituais usadas na China desde tempos imemoriais e que perduram até hoje em algumas das festividades tradicionais e algumas aplicações hidráulicas.

Egipto_Mvento_Alexandria._(1841-1)Não queremos tomar partido nesta discussão. Seja qual for a “ideia” inspiradora da criação desta técnica de farinação, é comumente aceite que ela tem o seu berço na Pérsia. Seria um “moinho horizontal” (engenho de roda de vento horizontal) constituído basicamente por um eixo de pás côncavas numa das extremidades e com as mós encravadas na extremidade oposta. O eixo vertical, solidário com a mó, imprimia-lhe um movimento rotativo directo, sem necessidade de qualquer engrenagem intermédia.

A partir deste foco inicial, a nova técnica de moagem desenvolve-se e complexifica-se na proporção directa da sua difusão e dos contributos que, em cada uma das novas regiões, vão aperfeiçoando as técnicas iniciais.

No que nos toca, importa dizer que a técnica de moagem se encaminhou-se para a Europa por duas vias: uma, através da Rússia, para os países do Norte, da Escandinávia e do centro europeu; outra, provavelmente ligada à expansão muçulmana e às cruzadas, pelas margens do Mediterrâneo para a Europa do Sul, Portugal e Espanha incluídos.

Deixando de lado algumas referências de autores árabes, na Europa, é em França que podemos encontrar a referência mais antiga a moinhos de vento. Em 1105 o Papa dá permissão ao abade de Sevigny para construir moinhos nas dioceses de sua autoridade e, em 1187, é referenciado em Inglaterra o primeiro moinho de vento. Ainda no século XII, aparecem registos destes aparelhos moageiros na Holanda. Na Bélgica, na Polónia e na Suécia as primeiras referências documentais são do século XIV.

Diversos autores entendem que estes primeiros exemplares seriam “moinhos horizontais”. É sabido, porém, que, no mundo romanizado, os moinhos de água que possuíam já uma transmissão de potência e movimento com utilização de sistemas de engrenagens (em ângulo recto) que permitiam mudar de direcção sem perda de eficiência energética.

Não custa a crer então, que o “moinho horizontal” (a ter existido inicialmente) rapidamente tivesse absorvido essa inovação mecânica. Terá sido então esta transferência tecnológica que permitiu a construção dos moinhos de vento tal como o conhecemos, possibilitando a colocação do mastro na horizontal (ligeiramente inclinado – cerca de 15 graus) e mantendo o eixo das mós na vertical.

Surge assim o “moinho de vento vertical”, semelhante ao modelo que conhecemos, e que ainda hoje subsiste.

Moinho de vento - Penacova

Moinho de vento – Penacova

No dealbar do século XVI as técnicas de moagem usando quer a energia hidráulica da água, quer a energia eólica, eram tecnologias perfeitamente desenvolvidas, inquestionavelmente estabilizadas, testadas e completamente difundidas por toda a Europa. Não admira, portanto que os colonizadores europeus a tenham transportado para as paragens mais remotas aonde chegaram. O uso de moinhos de vento, quer na América quer na África, comprova-o.

Moinhos de vento em Portugal

Em Portugal, os moinhos de água e os moinhos de vento, quer pela quantidade, quer pela geografia da sua dispersão, constituem os sistemas de moagem mais difundidos da era pré-industrial.

Os moinhos de água (de rodízio, de rodetes e as azenhas) mais antigos, herança romana e árabe (Caldas, Eugénio de Castro, A agricultura portuguesa através dos tempos, Lisboa, INIC. 1991, pg. 166-167) assistem ao aparecimento dos seus concorrentes movidos a energia eólica, muito provavelmente a partir da Alta Idade Média.

Naquilo que hoje constitui o território português, alguns autores vêm uma primeira referência a um moinho de vento na designação metafórica “Nora das nuvens” usada pelo poeta árabe do século X Ibn Muqana para descrever os equipamentos de moagem existentes em Cascais.

 Todavia, o primeiro documento a referir expressamente e sem qualquer margem de interpretação duvidosa um moinho de vento é de 1182 e indica um equipamento doado ao Mosteiro de S. Vicente de Fora. Em 1262 um documento do tombo de Alcobaça refere a existência de um outro moinho de vento, no termo de Óbidos, propriedade do Mosteiro do mesmo nome. Em 1303, um outro documento refere um moinho de vento em Évora (Serrão, op. cit. pg. 327.

Pretendem alguns que, por limitações dos conhecimentos de mecânica para a transmissão de movimento e força, estes primeiros documentos referir-se-iam a moinhos de vento e, portanto, utilizariam uma tecnologia mais antiga que aquela que vemos actualmente. Seriam moinhos de torre (moinhos horizontais), não mais que um eixo vertical com quatro pás numa das extremidades e uma mó movente na outra.

Moinho de vento - Peniche

Moinho de vento – Peniche

Os moinhos de vento de eixo horizontal, tecnologicamente mais evoluídos, aparecem entre nós provavelmente no século XVI, introduzidos talvez pelos cavaleiros de Malta. Registos, no final do século, contam, em Lisboa, 246 atafonas e 300 moinhos de vento nos termos da cidade. A nova técnica de moagem utilizando a força do vento está perfeitamente estabelecida e a sua supremacia sobre a utilização da energia animal das atafonas (predominante na Idade Média) começa a desenhar-se com toda a nitidez.

Entre nós, nesses tempos recuados, o cereal mais farinado era o trigo. Todavia, a introdução e a difusão do cultivo de milho (vindo da América por volta de 1520) no país está ligada à disseminação da nova técnica de moagem (Caldas, op. cit., pg. 187-189 e Serrão, op. cit., ibid.) até porque a zona de predominância de cultivo deste cereal coincide, ao menos a Norte de Lisboa, com a zona de localização deste tipo de engenhos (Justino, David, A formação do espaço económico nacional – Portugal 1810 – 1913, Lisboa, Vega, 1986, pg. 36).

Os moinhos de vento, em Portugal, tradicionalmente usados, como dissémos, na farinação do trigo, estarão quase exclusivamente ocupados na moagem de milho a partir do momento em que este passou a ser o cereal mais cultivado no país (Ribeiro, Orlando, Geografia de Portugal: IV – A vida económica e social, Lisboa, Sá da Costa, 1991, pg. 974).

 Em simultâneo com a construção da torre fixa de alvenaria, a introdução da vela latina no mastro do moinho – que deve ter-se efectuado no final século XVII – tornou os moinhos de vento numas máquinas extremamente eficientes no aproveitamento da energia potencial do vento.

Como é sabido, toda a costa portuguesa é varrida, praticamente durante todo o ano, por vento suficiente para possibilitar a instalação de moinhos de vento de Norte a Sul do país. Com especial incidência nas zonas próximas das grandes aglomerações urbanas: Lisboa e Porto.

Segundo Borges de Macedo, a região envolvente da cidade de Lisboa e todo o litoral oeste dp País, assiste, no século XVIII, à proliferação deste tipo de moinhos, particularmente depois do terramoto de 1755.

O século seguinte será dominado por esta técnica de moagem que, apesar das variantes regionais da curva de declínio, subsistirá até meados do século XX. No último quartel do século XIX inicia-se um processo de desaparecimento deste tipo de sistemas moageiros, determinado  pela concorrência resultante da introdução de moinhos movidos por máquinas a vapor nas grandes companhias moageiras, especialmente das abastecedoras da cidade de Lisboa (Marques, Oliveira, História de Portugal, vol. III. Lisboa, Palas, 1986, pg. 295).

Na cintura moageira pré-industrial de Lisboa, nomeadamente no concelho de Oeiras, o declínio desta tecnologia iniciou-se na segunda metade do século XIX e foi extremamente rápida. Nos anos trinta do século XX já estaria completamente desmantelada (Miranda, Jorge Augusto, Moinhos de vento no concelho de Oeiras, C.M. de Oeiras, 2003, pg. 7).

Portugal_Mvento_ansiao_1No Oeste, o abandono desta técnica é bastante mais vagaroso e ela perdurará, como dissemos, até à década de 50 do século XX. Especialmente as unidades moageiras ligadas ao abastecimento das pequenas comunidades rurais conseguiram resistir por largo tempo à concorrência industrial. Alguns autores sugerem mesmo que o declínio verificado na área circundante de Lisboa, terá contribuído para um florescimento dos moinhos na região saloia onde a sua tecnologia era perfeitamente adequada aos saberes e à dimensão dos aglomerados populacionais que serviam.    

Seja como for, nos Inquéritos Industriais de 1890 referentes aos concelhos do Oeste, a norte de Lisboa, a importância da actividade moageira dos moinhos de vento pode inferir-se do seu número 498 no total, mesmo sem indicações para os concelhos do Bombarral e da Nazaré).

Mas eles não existem apenas no Oeste. Como referimos atrás, eles ocupam toda a zona ventosa do país, praticamente toda faixa costeira do litoral português, de Rates a Vila do Bispo, e adentram-se no território numa profundidade de até cerca de 100 Kms (Ribeiro, Orlando, op. cit., ibid.) e, nalguns casos, até mais. Veja-se o caso de Carrazeda de Anciães.

Nesses inquéritos, o concelho de Alenquer, a par de Caldas da Rainha (94 moagens), Óbidos (90), Torres Vedras (84) e Lourinhã (71) são os concelhos que assinalam a presença mais numerosa. Para Alenquer são indicados 46, bem à frente de Sobral de Monte Agraço, Peniche, Nazaré, Cadaval, Bombarral, Alcobaça e Arruda dos Vinhos. (Silva, Lara Filipe Raposo da, A reabilitação do património dos moinhos de vento do Oeste, Faculdade de Arquitectura da UL, 2014, pg. 56).

Sem indicação de qualquer fonte de informação, a página do Turismo do Centro de Portugal (http://www.turismodocentro.pt/pt/produtos_.62/rota_dos_moinhos_.a5078.html, acedida em 12-05-2015 22:03) refere que “900 [moinhos] laboravam na região Oeste nos concelhos de Alenquer, Arruda dos Vinhos, Alcobaça, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras. Atualmente 90 por cento destes estão ao abandono.” Infelizmente na página também está omissa a época a que se devem atribuir os números indicados.

No Guia DN (Diário de Notícias, 28-02-2005, pgs. 52), António Pires Vicente refere que, “há menos de um século, estavam cartografados 70 moinhos e 20 azenhas no concelho de Alenquer. Em meados dos anos 80 e no que respeita às construções, estavam ainda referenciados cerca de 60.”   

Actualmente, em Alenquer, que seja do meu conhecimento, existem sete moinhos recuperados e “visitáveis” sendo que cinco deles estão integrados na Rota dos Moinhos de Alenquer.

Nesse percurso turístico, dois deles, do mesmo proprietário, no Lugar da Serra, na freguesia de Santana da Carnota. Um, o mais antigo – cuja origem remonta ao longínquo ano de 1750, – adaptado a casa de turismo rural; o outro, mais recente, recuperado e musealizado, está perfeitamente capaz de funcionar e serve propósitos pedagógicos esporádicos.

Mó andadeira_DSCF4501O Moinho do Lebre, em Penedos de Alenquer, na freguesia da Ventosa, incapaz de cumprir a sua função original, foi recuperado para habitação e turismo de natureza estando incluído na Rota dos moinhos deste concelho.

 Um terceiro exemplar, em Lapaduços, Vila Verde dos Francos, foi recuperado para função original que, à data da criação da rota moageira, era complementada pelo fabrico de pão (e pão com chouriço!) que os eventuais visitantes podiam degustar e levar para casa.

O quinto exemplar situa-se em Cabanas de Torres – com vista para a Serra de Montejunto, – foi recuperado e mantem, em parte a função original.

O derradeiro exemplar que conhecemos, no lugar dos Cabeços, é o Moinho do Onofre (“Honofre”, nas cartas do Instituto Geográgico). Recuperado e funcional, permanece encerrado e sem utilização aparente.

 O que é um Moinho de vento

O moinho [de vento] é constituído por um corpo cónico de alvenaria, com telhado giratório, donde sai o eixo que suporta quatro pares de vergas perpendiculares, ligadas por cordas na extremidade; coloca-se em cada sector uma vela triangular. Às cordas atam-se púcaros, onde o ar assobia graças ao movimento giratório; os moinhos fazem assim ouvir através dos campos solitários uma toada lamentosa.” (Ribeiro, Orlando, op. cit., ibid.)

Esta descrição singela desenha apenas a parte visível e sensorial deste sistema de moagem. A complexidade técnica do engenho nem ao de leve está aqui reflectida!

O conhecimento dessa estrutura moageira que, dos diversos tipos de moagem é a “que reune as soluções mecânicas mais complexas e cuja representação no concelho constitui um património vasto e invejável, é o objectivo desta nossa apresentação na Alenculta.

O conhecimento e o reconhecimento do valor deste património inestimável fundamentaé a exigência incontornável da necessidade da sua reabilitação e da sua valorização em novas utilizações.Buzios_DSCF4499

Conhecer o passado é preservar a identidade futura!

Alenquer, 14-05-2015

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