Racismo e batatas fritas

Destilado de racismo

Raça não existeNa plataforma da estação, o comboio despejou, uma vez mais,   a habitual fornada de passageiros apressados.

Num dos bancos da plataforma, à espera, um jovem adolescente, mestiço, de carapinha comprida e crestada pelo sol. Nos ouvidos, os auriculares debitavam um ritmo frenético, audível a dois ou três metros em redor. Nas mãos, um pacote de batatas fritas. Ao mesmo tempo que comia algumas, abanava furiosamente a cabeça para cima e para baixo ao sabor da música e seguia com atenção uma senhora que, saída do comboio, se dirigiu para a rua.

Á entrada do edifício da estação, na estreita porta de saída os passageiros quase atropelam um outro rapaz que pretendia aceder à plataforma. Branco, de brincos e rabo-de-cavalo, na cabeça uns auscultadores ligados ao iphone que segura nas mãos.

Aos ziguezagues, tentando não chocar com ninguém, desembaraça-se da torrente que corre em sentido contrário e esgueira-se em direcção ao banco onde se encontrava o outro.

– Ei, meu! Viste a Xandel? – atira o mestiço, de rompante e sem cerimónias, ao recém-chegado.

– Eu não! Nem sei quem é! – respondeu o outro em voz suficientemente alta para se sobrepor ao som dos auscultadores.

O mestiço tirou um dos auriculares do ouvido esquerdo e gritou:

– Não conheces?!… Porra, é aquela actriz preta da telenovela!.. Não conheces como?!

Eu próprio – que também não sabia quem era a tal Xandel! – soube depois que se tratava de uma das actrizes da telenovela O beijo do escorpião, da TVI .

– O pá, não vi, meu! – retorquiu o outro, exasperado, enquanto se sentava no banco ao lado do amigo. – Sabes?! Para mim, os pretos são todos iguais!… Tem todos a mesma cara!

– Olha, – gritou irritado o mestiço, – para mim, os brancos também tem todos a mesma cara! Cara de merda!…

Calaram-se os dois. Cada um deles ajustou os auriculares aos respectivos ouvidos, já esquecidos da passagem da Xandel. Alguns instantes depois, o mestiço, emitiu um grunhido rouco para chamar a atenção do amigo e estendeu-lhe o saco das batatas fritas.

O outro aceitou!

Sentados lado a lado, comungando batatas fritas com um aroma qualquer, os dois “amigos” lá ficaram a ouvir música e a ruminar o racismo mais abjecto.

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