O inefável “padre Júlio”

GramGregaMemórias de um professor de grego que distribuía “santinhos”…

Encontrei há instantes um pequeno artigo de opinião (O compadre do Sr. Padre, in Observador, Gonçalo Portocarrero de Almada, 7-8-2014) que fala de um tal “falecido Padre Júlio, santo homem que Deus tem”.

A história do Observador não me motivou a leitura, mas fez-me recordar o inefável Padre Júlio (Cónego para os mais rigorosos) que também era um “santo homem que Deus já lá tem” e que foi, durante décadas, professor de Religião e Moral no Liceu Salvador Correia (em Luanda), hoje Mutu ya Kevela.

Quem, dos antigos alunos desse Liceu, não se lembra da figura beatífica do Padre Júlio,menino12 sempre devidamente ataviado com a costumeira batina branca, fizesse sol ou estivesse a chover a cântaros?!… Quem não se lembra também de como ele tentava “comprar” a atenção e a tranquilidade dos miúdos a quem queria ensinar algumas das verdades evangélicas distribuindo em profusão uns “santinhos” com imagens religiosas nem sempre de gosto artístico muito elevado!

(Há alguns relatos interessantes sobre esta personagem feitos por antigos alunos do Salvador Correia em “O fenómeno Salvador Correia“, Margarida de Castro Ferreira, notasdecampoemblog.files.wordpress.com)

É claro que os resultados não eram os melhores!… Mas ele insistia sempre! E a miudagem, mal o via, corria para ele a pedir mais um santinho e coleccionavam-nos como se fossem os “cromos” com as caras dos jogadores de futebol dessa época! E o Padre Júlio, sempre bonacheirão, lá metia a mão ao bolso e de lá saía uma mão-cheia daqueles pequenos rectângulos de papel colorido na frente e, normalmente, com uma oração no verso. Não serviam para nada, mas o padre dava-os e a miudagem recebia-os alegremente.

Para além desta tarefa inglória de tentar semear o dogma católico nas mentes inquietas e irrequietas dos alunos do liceu, o Padre Júlio também era professor de Grego no Seminário de Luanda. Grego, claro! Não podia ser outra coisa!…

No Seminário, o ensino de Grego fazia-se em dois anos consecutivos (6º e 7º do liceu) e todos os aspirantes ao sacerdócio eram obrigados a frequentar as aulas do padre Júlio, o único professor de Grego desde os tempos mais nebulosos e remotos que a memória dos mais antigos alunos alcançava!…

Duas vezes por semana, sempre à tarde, o padre Júlio, envergando a tradicional sotaina branca e os ombros aconchegados por uma romeira da mesma cor, chegava pontualmente ao Seminário (lá para as bandas dos Quartéis) para dar as suas aulas.

Entrado na sala, a primeira coisa que o padre mandava fazer era fechar todas as portas e janelas! Mesmo umas gelosias que havia por cima das janelas eram cuidadosamente calafetadas para que não houvesse a mínima circulação de ar! É que o padre Júlio não sei porquê, era um arqui-inimigo das correntes de ar…

E, mesmo quando os alunos já suavam em bica, o padre Júlio, na sua voz anasalada de falsete, interrompia a aula e lamentava-se em voz alta: “Oh carambas, carambas! Está aqui uma grande corrente de ar!…” Só ele é que a sentia, todos os outros ansiavam por tê-la!

Estas “manias” do padre Júlio tornavam as aulas de Grego um tormento inenarrável e uma tortura difícil de suportar. A consolação, fraca, era que elas só aconteciam duas vezes por semana!…

Também o método pedagógico do padre era absolutamente “sui generis”…

Os apoios pedagógicos dos alunos resumiam-se a uma Gramática Grega (que ainda conservo!) e uma pequena selecta com alguns textos de autores clássicos que serviam para adestrar a leitura e as excepções às regras gramaticais dos autores gregos consagrados.

Como dizia um outro professor de Latim que também conheci, as “notas de rodapé” – que na gramática surgiam como excepções às regras gramaticais, – eram a demonstração da ignorância desses autores no que tocava à regra em questão!… Porém, como eram autores consagrados, não podiam “dar erros”… mas criavam excepções à regra!…

Os testes (sempre dois por trimestre) eram outra das curiosidades pedagógicas do Cónego Júlio, professor de Grego. Consistiam sempre na retroversão de um número variável de frases (entre 3 e 5 consoante a sua dificuldade) que eram ditadas no início da aula e que os alunos tinham que traduzir para grego até ao final dos 50 minutos da prova.

Cada frase, como seria expectável, correspondia sempre a uma regra gramatical que tinha de ser conhecida para se poder fazer uma retroversão correcta! Algumas, de tão arrevesadas, embora compreensíveis, nem sequer eram pérolas da literatura nacional.

Por exemplo, a primeira frase – que invariavelmente aparecia no primeiro teste do primeiro ano e da qual, por certo, todos os alunos que passaram pelo Grego do Padre Júlio guardam memória, – era: “Os burros comem  os espinhos, sendo tenros”!!!… Uma verdadeira pérola!…

No meio destas peculiariedades pedagógicas, alguém, inteligentemente, em tempos recuados, lembrou-se de ir registando todas as frases que iam aparecendo nos testes depois de devidamente corrigidas pelo Cónego Júlio! Terminados os dois anos obrigatórios de Grego, o repertório era “legado” a um dos iniciandos de novo ciclo. Como é óbvio, o herdeiro tinha a preocupação de acrescentar todas as novas frases que aparecessem durante o seu percurso académico de aprendizagem de Grego e que não constassem do legado recebido!

Com o passar dos anos, as colecções de frases foram aumentando de forma descomunal! De tal forma que, aí por meados dos anos 60, já eram poucas as “novidades” fraseológicas do cónego-professor!. A uma delas, a mais completa, que, de tão volumosa que era conhecida pela “vulgata”, foi até acrescentado um índice alfabético que permitia ao proprietário verificar rapidamente se uma determinada frase do teste já tinha saído antes e se, por isso, constava na compilação!

Curiosamente, cada um dos alunos tinha a “sua” colecção que guardava ciosamente como bem precioso e que tentava proteger de eventuais olhos indiscretos!…

No dia do teste, cada um carregava religiosamente a “sua” colecção de frases para a sala de aula e escondi-a em lugar de fácil acesso, mas competentemente escondida para que não fosse detectada pelo professor!…

Logo no início do teste o Cónego Júlio ditava as frases a retroverter nesse dia. Depois, era a azáfama frenética de todos os elementos da turma, virando páginas e páginas dos cadernos, à procura das frases do exercício. Passada esta primeira fase de pesquisa, começava então um burburinho abafado de sussurros entre vizinhos de carteira e amigos próximos: “Eh pá, quantas tens?…”, ou “Ouve lá, tens esta?…”

E lá se iniciavam as trocas, cada um tentado arregimentar o maior número possível de frases!…

Alturas houve em que alguns sortudos conseguiram “fazer bingo”, isto é, juntar todas as que constavam dum mesmo exercício!… Nesses casos, era só copiar e… esperar que o tempo passasse…

Entretanto, o padre Júlio, duro de ouvido, apenas reclamava, mais para si do que para a turma: “Que barulho é esse, caramba?!

É claro que, no final do ano, não havia “chumbos”! No exame, a cena repetia-se!… E o cónego Júlio, ou não se apercebia de nada… ou “fazia de conta”!…

É por estas e por outras que, hoje, a única coisa que sei de grego é:

Mαταιότης ματαιοτήτων, τα πάντα ματαιότης!

 

Desconhecida's avatar

About A. Santos

Vida e memória... Escrever... recordar... viver!...
Esta entrada foi publicada em Angola, Memórias com as etiquetas , , , , . ligação permanente.