OS BENEMÉRITOS

Não tenho dúvidas! SOMOS UM PAIS DE BENEMÉRITOS!

Por acaso, de tão distraído que tenho andado, não me tinha dado conta! Mas, alertado por meios de comunicação especialmente atentos a estes bens exemplos, dei-me conta que tenho o prazer de viver no país com a mais elevada taxa de altruístas do mundo!

Nos últimos tempos os media, em programas mais-que-meritórios, desafiantes e nada parcais, tem ocupado uma grande parte do seu precioso tempo a exaltar as excelsas virtudes desse infindável número de pessoas, completamente imbuídas do louvável desejo de fazer bem ao próximo sem qualquer contrapartida! Mesmo nos casos em que esses “alarves” não entendem (e até difamam) as beneméritas intenções de quem pratica tais actos, os beneméritos re-incidem, contra tudo e contra todos, numa cruzada desinteressada de bem-fazer!…

Os exemplos são múltiplos! Mas não queremos deixar de ressaltar alguns.

Eles são os nossos médicos, lídimos seguidores das boas práticas de qualquer João-Semana, que se esfalfam a exigir qualidade para a nossa saúde lutando contra as políticas do malvado ministro que nos quer dar cabo do canastro! E, – pasme-se! – até são prejudicados nos seus salários por fazerem greve a lutar pela nossa boa saúde! Mas, mesmo assim, não desistem!…

Eles são os nossos zelosos e intrépidos professores que, para assegurarem a qualidade do nosso ensino “universal e gratuito” e o futuro sorridente de uma nação de doutores e “pós-doutores”, arremetem contra o Crato, desmiolado e cínico, que nos pretende roubar o futuro!… Fazem greve, sofrem descontos salariais, têm que submeter-se a avaliações vexatórias e ainda por cima – suprema injustiça, – têm que dar aulas!… Tudo isto para nos defender… mas, ainda assim, não desistem!…

Eles são os enfermeiros, mancomunados com os clínicos – seus parceiros de sacrifício! – que, afastada a sombra negra duma “emigração forçada” paga a peso de muitas libras esterlinas ou luzentes francos suiços, ficam por cá, em hospitais sobrelotados e indignos do mais pobre país do terceiro mundo, a sofrer as agruras da greve para exigirem que nos seja dada uma “saúde de qualidade”!… Provavelmente sem enfermeiros…Mas, mesmo no meio dos maiores sacrifícios, eles persistem am ajudar-nos!

Eles são os pilotos da TAP, – essa maravilhosa companhia de bandeira que um celerado, oriundo das terras brasílicas para nos “roubar” em chorudos salários e prémios de desempenho os milhões que deveriam ser distribuidos equitativamente pelos esforçados trabalhadores, – que aguentam rombos profundos nos magros proventos do seu salário por participarem nas mais que justificadas greves. Para quê tanto sacrifício? Apenas para nos garantirem um transporte digno, rápido, eficiente e sobretudo pontual! Sem atrasos, nem cancelamentos!…

Eles são os homens da CP e do Metro (especialmente os motoristas), esses sacrificados obreiros do nosso conforto deslocacional que aguentam greves em dias feriados, fins-de-semana e pontes só para nos garantir transportes baratos (tendencialmente gratuitos…), confortáveis e frequentes!

Eles são os funcionários públicos, esses mártires da tirania do estado a quem são “sonegados” os seus “direitos adquiridos” e cortadas “cegamente” as suas reformas apenas por quererem garantir-nos a democracia, defender-nos do regresso à ditadura e aos sombrios tempos do salazarismo livrando-nos da burocracia asfixiante e opressora! …

Eles são, finalmente, todos os nossos políticos e esforçados autarcas, que, a troco de tuta-e-meia e reformas miseráveis depois de meia dúzia de anos dum esforçado, sacrificado e extenuante trabalho, fazem o favor de legislar, governar e conduzir-nos, sabiamente, “aos amanhãs que cantam”! Sem um lamento por tanto sacrifício e com um estoicismo exemplar, capaz de arrostar com todas as incompreensões, desconfianças e invejas deste poviléu bacoco e ignorante!

Ainda por cima, este bando de ignaros e mal-agradecidos, despojados das mais elementares virtudes que devem iluminar o espírito humano, passam a vida a criticar e dizer mal destas almas abnegadas e caridosas que, mesmo contra a nossa vontade e para além da nossa obtusa e exígua capacidade de compreensão e agradecimento, continuam a defender-nos desta tirania “economicista” e a lutar pelos nossos direitos!

Capitaneados pelos supremos juízes, incompreendidos e vilmente atacados, os nossos benfeitores hão-de conseguir manter os princípios sagrados “da confiança” e “da proporcionalidade” e nós, queiramos ou não, haveremos de ser um povo desenvolvido, educado e culto!… Assim seja!

Bem-hajam, beneméritos, pelo vosso altruísmo grevista.

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About A. Santos

Vida e memória... Escrever... recordar... viver!...
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