O memorialismo e os “fazedores de história”
Ainda não há muitos anos, a História era matéria de especialistas.
Hoje, curiosamente ou talvez não, todos se abalançam a escrevinhar umas coisas com a pretensão ignorantemente audaciosa de “fazer história“! Com especial destaque para acontecimentos suficientemente recentes, mas já relativamente afastados para que ainda seja possível encontrar “algumas testemunhas vivas” ou alguns observadores directos.
A receita é simples!
Primeiro, escolhe-se num acontecimento que “tenha público” assegurado ou que desperte um interesse suficientemente profundo para garantir profusão de aquisições.
De seguida, entrevistam-se as tais “testemunhas presenciais” dos factos ocorridos, ou, melhor ainda, um ou outro dos “intervenientes” dos sobrevivos.
Depois, passa-se para o papel o conjunto das “memórias” pessoais registadas. Em grande parte dos caos, em nome duma pretensa “autenticidade” raramente comprovável, uma transcrição pobre e simplista, sem avaliação, triagem ou validação que lhes dê um mínimo de credibilidade e de rigor científico.
A tarefa seguinte é arranjar um título sugestivo, divertido ou chocante. Em deficit de criatividade do autor, requisita-se o auxílio precioso de um dos “comunicadores” que mais vendem! Não importa se o título está para o conteúdo como “a bota para a perdigota!… O que é preciso é chamar a atenção: primeiro, dos “fazedores de opinião” (que pontificam nos meios de comunicação), de quem, em prol do volume de vendas, importa obter “a benção”; seguidamente, dos potenciais interessados na matéria, clientes potenciais que se deseja transmutar em efectivos compradores!
Na posse destes elementos, pouco menos que geniais, importa dar-lhes invólucro condizente! Para isso manda-se imprimir a obra em papel de tacto aveludado, com fonte adequada à modernidade do tema e ao número de páginas aconselhado pelos especialistas de marketing. Um livro de qualidade não pode “ser muito grande”, nem muito pesado!… Mas também não ter a dimensão de uma revista semanal de televisão!…
O toque de mestre é dado pela capa multicolor, repleta de altos e baixos relevos ressaltados com a devida estampagem a ouro, aconselhada por designer de méritos reconhecidos na praça.
Para a apoteose final, só é necessário fazer uma “apresentação” reluzente da obra nos “locais adequados”! Com pompa, circunstância e clarins noticiosos a tombetear loas “à inteligência e à oportunidade da obra”!
Aqui a temos o memorialismo transfigurado em história!
Transfigurando o particular em universal, fazendo do átomo o universo, transmutando, num passe de mágica, a experiência individual e avulsa em perspectiva global da matéria apresenta-se aquilo que não passa de uma percepção particular das coisas num arquitectura conceptual acabada, pensamento global e palavra defintiva, exemplar genuíno e paradigmático do estado-da-arte sobre qualquer matéria!
Não será necessário acrescentar nada mais sobre o assunto! A “experiência” vivencial da “testemunha”, fixada de modo superior pelo “mestre” ou pelo candidato a “doutor”, é global, acabada e definitiva!
Tudo o resto, qualquer tentativa de redução da “experiência vivida” à sua insignificância epistemológica, é espúria ignorância ou arrogante impertinência intelectual.
E assim se vai fazendo história… e titulando “historiadores”!…