Era uma vez um “autarca-modelo”… ou a irresponsabilidade dos cargos políticos

SatuHavia um país que tinha um autarca-modelo.

Como modelo que era, perpetuou-se no poder por muitos e muitos anos, “fez obra”, “modernizadou” o seu concelho e transformou-o no “lugar mais apetecível para viver” desse país!

Um dia, provavelmente em reconhecimento dos “altos serviços” prestados à sociedade, “subiu” a ministro do Ambiente e das Cidades!

Mas os invejosos de sempre começaram a levantar dúvidas sobre o comportamento do recém empossado ministro. Claro que isso só podia ser obra de gente maldosa, ressabiada, incompetente e sem “visão de futuro”! Um autarca-modelo é isso mesmo: um modelo de virtudes cívicas.

Tanto andaram que acabaram por conseguir condená-lo a uma pena de “prisão efectiva” de dois anos!… Imagine-se!

Após 14 meses de encarceramento, reposta a “justiça”, eis que se lhe abrem de par em par as portas da cadeia! O resto da (pequena) pena “cumpri-la-á” no remanso do lar a alinhar as letras dum projectado futuro best-seller que nos há-de contar a sua exemplar passagem pela prisão!…

O processo iniciado em 2003 com suspeitas de fraude fiscal, abuso de poder, corrupção passiva e branqueamento de capitais, chegou ao seu termo em abril de 2013 (!) depois de um percurso atribulado, ponteado por recursos e mais recursos, incidentes processuais e expedientes inimagináveis, apenas possíveis num sistema de justiça onde as garantias para arguidos com dinheiro têm a dimensão da imaginação dos advogados que os “defendem”…

Inicialmente, a pena com que foi cominado por juízes invejosos e rassabiados, era muito pesada: 8 anos de prisão! Depois de várias demandas e insistências reiteradas de alguns homens bons e justos lá se conseguiu concordar que um autarca-modelo nunca poderia ser condenado a 8 anos de prisão! Quando muito, e para “calar as bocas” dos invejosos, a pena poderia elevar-se, no máximo, a dois anitos de prisão efectiva! Felizmente que alguém se lembrou que “autarca-modelo” tem sempre uma conduta modelar! E, por isso, a pena, pesada e injusta, que o fulminara o modelar autarca, poderia ser encurtada… por “conduta exemplar”!…

Infundadamente, um certo tribunal de execução de penas ainda considerou que não havia razão para autorizar o cumprimento de parte do tempo de prisão no seu domicílio, na companhia agradável de uma irmã sempre dedicada e de um sobrinho atencioso e prestável! Mas, felizmente ainda há tribunais com gente de bom senso e a iníqua decisão anterior acabou por ser anulada!

Aliás, esse mesmo tribunal de gente de bom-senso já tinha tido também uma intervenção relevante e ponderada na diminuição de uma desajustada pena inicial de 8 anos e na anulação da perda de mandato que anteriormente tinha sido decretada!

Não sei o que aconteceu aos valores “transferidos” para contas no estrangeiro pelo nosso “autarca-modelo”, nem sei se valores devidos ao fisco foram liquidados!

Não sei também se aos valores em falta foram acrescidos os “juros, coimas e custas” que costumam ser exigidos ao cidadão vulgar (e pobre!).

O que sei é que algumas das “obras de modernização” que o autarca foi semeando pelo “seu” concelho, embora continuem a somar prejuízos ao orçamento municipal, são demonstração viva da gestão de excelência do “nosso” autarca-modelo.

Os turistas, atraídos pela modernidade do concelho, poderão continuar a apreciar o geyser ( a que alguns invejosos maldizentes chamam pomposamente “o pirilau do i”) que o autarca mandou plantar no rio. E, depois desta visão “idílico-erótica”, poderão deslocar-se ao maior símbolo da modernidade consumista do afortunado concelho no “mais moderno e mais amigo do ambiente” meio de transporte existente no país: O SATU!!

O SATU pode ser um sorvedouro de dinheiros públicos, mas justifica plenamente (e com toda a justiça) a “promoção” do autarca-modelo a ministro do ambiente!…

Felizes dos que podem beneficiar da visão esclarecida e da obra modernizadora de um autarca-modelo!

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