A Realidade, o Romance e Histórica

MemóriaA vida e a história…

O romance histórico e o  memorialismo estão para a História como a parte está para o todo ou a árvore para a floresta!

Mesmo nos casos em que o romance histórico se ergue nos caboucos sólidos de uma investigação profunda e credível e tem, portanto, alguma verosimilhança, ele nunca poderá ser tomado como «retrato» do passado, uma fotografia vetusta dos tempos que já-lá-vão ou uma re-criação de outras vidas. Por maior que seja a qualidade que se lhe reconhece, nunca passará de ficção.

Razão maior nos assiste na asserção que fizémos nos casos em que a qualidade ficcional é dúbia, a pesquisa histórica é coxa e o trabalho-de-casa do romancista, se avaliado, mereceria negativa gorda.

Na mesma linha, o memorialismo que para aí vai, enquanto narração duma experiência pessoal, irrepetível e intransmissível (ninguém aprende com a experiência alheia!…) mostra-se ainda mais perigoso como fundamento  da construção e do conhecimento  histórico. Por definição, o memorial reflecte apenas uma realidade pessoal, tal como nós a vivemos, a vimos e a pensámos.

Para além da sua parcialidade (a memória é sempre pessoal!), este tipo de relatos padece de um outro defeito congénito: é sempre – e apenas! – a nossa interpretação daquilo que observámos, sentimos ou experimentámos. Nada mais que isso. Não é a VERDADE. É, simplesmente, a nossa verdade

Vem isto a propósito da «história» que se vai escrevendo e difundindo por aí. Feita por romancistas e jornalistas, falta-lhe a consistência, a solidez e a validação do verdadeiro trabalho histórico.

Tenho para mim, que os «ditos» romances históricos, são mais perniciosos que instrutivos! São como os programas “científicos” das televisões generalistas. Em meia dúzia de penadas, o mais das vezes apressadas e superficiais mas convenientemente alinhadas e vistosamente apresentadas, criam no espectador a sensação de se ter transformado num verdadeiros especialista, conhecedor profundo de qualquer matéria!

Para quem, por incapacidade ou preguiça, não consegue destrinçar realidade e ficção, este tipo de literatura, na maior parte das vezes, apenas serve para induzir e difundir a visão (muitas vezes intencionalmente manipuladora…) de quem os escreve! E assim se vão espalhando os preconceitos, as perspectivas obliteradas de factos, das instituições e pessoas sem qualquer prurido deontológico. A única preocupação dos autores cinge-se à tentativa de encontrar a fórmula de venda que propicie entrada rápida nas tabelas dos mais vendidos nas mercearias onde se vendem livros que, metamorfoseados pelos cartões de fidelização, se transformam em couves!…

O memorialismo que pontifica por aí, nas rádios mas também nas televisões, centra-se na construção do conhecimento histórico através dos relatos evocativos das memórias daqueles que tiveram qualquer intervenção nos factos que se pretende dar a conhecer.

Na realidade, as memórias debitadas, para além da sua atomização enquanto percepção individual, já foram decantadas, compatibilizadas com a idiossincracia pessoal e colectiva e sujeitas à autocensura imposta pela visão cultural dominante. Nestas condições, os relatos obtidos, na generalidade, mais não são que a reprodução a-crítica das ideias preconcebidas (pessoais ou do grupo com quem o relator se identifica) ou da visão social dominante sobre os factos relatados. Conscientemente ou não, é este um duplo condicionamento (pessoal e colectivo) que afecta o relator-testemunha e acaba por inquinar o seu testemunho.

Longe de mim a veleidade de prescindir do testemunho oral de quem presenciou qualquer facto ou viveu determinada situação. Os relatos orais dos intervenientes (e/ou dos observadores) nos diversos processos históricos podem carrear dados importantes, às vezes fundamentais, para a construção do conhecimento histórico. Não devem ser desprezados enquanto “fontes” históricas, mas importa conhecer todas as suas limitações e os condicionamentos que os moldam.

Diversos períodos da nossa história (sobretudo da história recente) têm sido alvos previligiados desta fúria testemunhante. O estado-novo e a actividade oposicionista; a colonização e a descolonização; a revolução democrática de Abril; a II guerra mundial e a guerra fria e a guerra civil espanhola são períodos históricos largamente observados pelos olhos das testemunhas, dos intervenientes ou dos «especialistas» consagrados dos nossos orgãos de informação, nomeadamente a Antena 1. Todos esses períodos históricos têmc sido desenhados ao sabor das “memórias” daqueles que pretendem tê-los vivido e, portanto, têm “um conhecimento directo” da matéria!… 

Pobre arremedo de conhecimento histórico!… Romances são obras de ficção; memórias, são vivências pessoais; História é outra coisa! 

Não poucas vezes estas são três realidade paralelas com pequenos pontos de contacto!

As memórias são, muitas vezes, um alçapão sabiamente construído para apanhar incautos…

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About A. Santos

Vida e memória... Escrever... recordar... viver!...
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