Política subliminar?

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No limiar da dor…

Há mais de 50 anos, o conceito de “percepção subliminar” ganhou alguma notoriedade na panóplia de técnicas publicitárias. Pretendia-se com esta designação definir um conjunto de técnicas capazes de induzir determinados comportamentos nos consumidores sem que eles se apercebessem de que tinha estado sujeitos a uma acção publicitária de que desconheciam a forma e o conteúdo. Felizmente, à época, a discussão e a condenação unânime do método, conduziu à sua proibição.

Hoje, porém, ao ouvir na Antena 1 o programa No limiar da dor, voltei a lembrar-me dessa técnica publicitária.

Já anteriormente, a propósito dum outro programa da mesma estação de rádio (Começar de novo),  tive ocasião de escrever aqui um pequeno texto sobre o papel dos meios de comunicação como “aparelhos ideológicos do estado” que veiculam, de forma nem sempre visível, a ideologia dominante.

Embora a análise e os conceitos a que apelei na altura relevem da epistemologia marxista-comunista, estou em crer que apesar disso, em regime não autoritário, essa função não se altera. Os conteúdos veiculados, porém, surgem, aqui, de matrizes mais diversificadas e menos unívocas.

Vêm estas considerações a propósito do programa da Antena 1 No limite da dor.

Numa linha memorialista muito em voga nessa estação, cada programa se centra à volta das memórias de ex-presos políticos com larga predominância de comunistas ou filo-comunistas.

Sem pretender polemizar o mérito, – mais que duvidoso, – deste memorialismo enquanto método de conhecimento histórico, quero ressaltar que o carácter sempre emocional dos relatos, bem como a escolha das temáticas abordadas, se esforça por suscitar, nos ouvintes, uma empatia emocional e a-crítica pelos “bons” (neste caso, os entrevistados) e uma repulsa primária pelos “maus” (os polícias, e por extensão, o estado a quem servem).

Este maniqueísmo político, subtilmente omnipresente mas perfeitamente perceptível neste género de “informação”, não pretende fomentar a análise racional, promover o pensamento crítico dos ouvintes sobre a sua sociedade e os mecanismos que a regem, nem difundir um conhecimento aprofundado da nossa histórica. Visa, apenas, fazer brotar, nos ouvintes, uma simpatia benevolente que facilite a aceitação de determinadas ideologias, sempre subentendidas, mas nunca explicitadas.

Não sou capaz de decidir se se trata duma actuação consciente ou não, e se os efeitos da difusão desse tipo de programas se apresenta de forma clara e explícita no pensamento dos autores.

O que posso dizer é que estes programas, normalmente, assentam em ideias preconcebidas e visões parciais da realidade histórica.

No caso do programa que referimos, esta característica é perfeitamente perceptível porque ele assenta e consolida dois erros (no mínimo, dois preconceitos!) da análise da nossa história recente:

  • O primeiro erro é a restrição do conceito de ditadura e dos mecanismos ditatoriais (em especial, a restrição dos direitos individuais, a existência de políca política e a tortura) ao período histórico do Estado Novo. Todavia, infelizmente, no século XX, os regimes ditatoriais (ou simplesmente “autoritários”) não se restringem ao Estado Novo nem se esgotam nesse período!
  • A segunda distorção da história recente releva da primeira e revela-se quando, de forma subtil, subliminar e nunca explicitada, se pretende fazer crer que a única força que se opõs à ditatura foi o PCP e os seus militantes. Sem pretender diminuir o contributo oposicionista das forças deste quadrante político, devemos dizer, respeitando o rigor e o conhecimento da história, que o combate à ditadura não se esgota por aqui. Muitos outros, de filiações partidárias diversas ou apenas partidários do homem livre, deram o seu melhor e, em muitos casos, conheceram também os rigores dos regimes policiais que combateram.

Nesta perspectiva, apenas nos ocorre perguntar: que objectivos perseguem estes programas?

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