José Redinha e a Casa do Pessoal da Diamang
Tal como há um ano atrás, aqui estou a prestar mais uma pequena homenagem ao Sa Kapuma naquele que seria o seu centésimo nono aniversário se, acaso, a morte não fosse uma lei inexorável da vida!
Na busca paciente e laboriosa de documentos, vivências e testemunhos que nos ajudem a desenhar com maior nitidez os contornos da figura plural do homem e cientista que foi José Redinha, a cada passo sou surpreendido por mais uma faceta que, de forma nenhuma, poderia suspeitar!.
Etnógrafo, arqueólogo, geógrafo, pintor, aguarelista, encenador, escultor e fotógrafo são algumas das facetas que já estão identificadas. Agora, iremos adicionar uma dimensão humana e pessoal que só recentemente descobrimos.
Face à inexistência na Lunda de quaisquer locais de diversão, lazer e desporto acessíveis aos seus empregados, a Diamang criou uma estrutura a que chamou “Casa do Pessoal” e cuja função era disponibilizar aos seus funcionários os espaços e os equipamentos adequados à ocupação dos tempos livres, ao exercício físico, à cultura e à convivialidade indispensável.
É claro que o investimento e o orçamento desta estrutura era, como todos os outros, encargo da própria companhia através da Direcção Administrativa. Todavia, a gestão organizativa dos eventos e das actividades a realizar eram encargo duma da Direcção da Casa do Pessoal, independente da hierarquia da Companhia, e – pasme-se! – eleita pelos funcionários da empresa.
Sabemos também que a Direcção era eleita para mandatos trienais e, no caso de existirem várias listas (o que não foi caso singular), antes do acto eleitoral, cada candidato fazia a propaganda eleitoral que lhe parecia mais adequada, quer ressaltando os aspectos mais apelativos do seu programa, quer evidenciando as qualidades pessoais do candidato.
Ora, encontrámos recentemente alguns documentos que atestam a candidatura de José Redinha ao cargo de Vice-Presidente da Casa do Pessoal para o biénio de 1958 – 59!
Não resisto a transcrever aqui algumas “pérolas” desta propaganda eleitoral que opõe Redinha a Ruas, subscritas por dois simpatizantes:
Quem não votar por Redinha /Só p´ra que vença um rival / Por certo nem adivinha / O preço de tal loucura: / Que é ver em data futura / A “Casa do Pessoal” / Pelas Ruas da amargura… / Ou armada em… Hospital!!
O Felizardo… Marreca… / A Felismina… é Marreca… / A Felisbela… é Marreca… / tantos corcundas? co’a breca! / O que é que tanto os definha? / Ah! Já sei! É o Redinha: / não quer que votem no Ruas…
E mais uma espécie de soneto, prometendo “organização”, “teatro” e “futebol”:
Que o Tristão tem das suas / é verdade, verdadinha / mas em organização, / REDINHA, só REDINHA.
Mas, tanta ex[c]itação / em coisa tão comezinha / fica p´ro ano o Tristão / p´ra este queremos REDINHA.
Em teatro é o melhor: / Todos sabem, não só eu noto / e p´ra o tornar inda maior / dê-lhe também o seu voto.
E ainda ao findar / lá vai mais esta p´ro rol / se não querem acabar / as partidas de futebol / já sabem em quem votar / no domingo à tardinha / volto de novo a lembrar / REDINHA, só REDINHA.
Ainda não encontrei nenhum documento que confirme a eleição. Mas, pelas peças de teatro encenadas em 1957 e 58 suspeitamos que José Redinha terá sido vice-presidente da Casa do Pessoal em 1958 – 59.
