O reconhecimento público de José Redinha, como é sabido, advém-lhe, clara e inquestionávelmente, da visibilidade, da dimensão e da profundidade do seu trabalho como etnólogo e Conservador do Museu do Dundo.
Temos que reconhecer, todavia, que a sua actividade não se esgotou por aí e se espraiou, com igual mestria, por outras e diversas áreas e artes.
Em primeiro lugar, foi um exímio cultor das artes plásticas. As sua obras estão recheadas de ilustrações pictóricas, desenhos, retratos e esquemas diversos sempre executados por si próprio como mera ilustração do texto ou como adenda explicativa e enriquecedora dos seus escritos.
Nesta forma de expressão artística várias são as técnicas utilizadas, todas elas patenteando a mestria do executor. Entre as mais utilizadas e de maior qualidade técnica estão o desenho a tinta da china e a carvão. Mas outras técnicas podem ser detectadas nos elementos gráficos da obra etnográfica.
Por exemplo, as ilustrações da obra Paredes pintadas da Lunda foram executadas a guache sobre cartolina grossa e rugosa (tentando “re-criar” a textura rugosa das paredes onde eram executados os originais que ele copiou). Na obra Campanha etnográfica ao Tchiboco podemos apreciar algumas aguarelas de paisagens, provavelmente admiradas pelo próprio autor. Mas as melhores amostras da técnica aguarelística de José Redinha podem ser admiradas nas soberbas imagens de máscaras inseridas na obra Máscaras de madeira da Lunda e do Alto Zambeze (a partir da pg. 42 até final).
Não entraremos aqui na discussão da época, do lugar e do mestre com quem José Redinha teria aprendido a desenhar, a pintar e a esculpir. Diremos apenas que as informações que apontam para uma estada na Marinha Grande onde teria feito o aprendizado dessas artes com os mestres da pintura da indústria vidreira, são completamente desprovidas de sentido. Essa discussão ficará, contudo, para ocasião mais apropriada.
Uma outra área de expressão artística que teve em José Redinha um cultor de excelência foi a fotografia. Para além da profusão de fotografias que ilustra praticamente todas as suas obras, existem no seu espólio milhares de outras que nunca figuraram em qualquer álbum ou obra impressa. E, na fotografia, José Redinha cultivou, de forma particular, a fotografia etnográfica. O Museu Afro-Brasil possui no seu acervo 27 fotografias de José Redinha que integraram uma Exposição na Pinacoteca do Estado de S. Paulo (Maio e Junho de 2010) onde mereceram a atenção de renomados especialistas mundiais na matéria, nomeadamente H. L. Hoffenbeg e George Preston, infelizmente já falecido.
Mas a faceta mais interessante, porque mais insuspeitada e desconhecida, é aquela que agora queremos ressaltar e que liga José Redinha ao teatro, nomeadamente como encenador e cenógrafo! Apenas à laia de ilustração, apresentamos aqui o “cartaz” das festas de fim-de-ano da Casa do Pessoal da Diamang de 1945 onde se publicita a exibição da “comédia galante” D. Beltrão de Figueiroa (escrita por Júlio Dantas em 1902) com encenação de José Redinha.
Ninguém suspeitaria!…
Mas, aquela que foi provavelmente a representação teatral mais antiga na Diamang, apresentada em 25 de Outubro de 1943, a comédia em 3 actos O tio rico escrita por Ramada Curto em 1936, foi encenada por José Redinha. Acreditamos que seja o primeiro contacto, terras da Lunda, com as artes de palco.
Em 2 de Fevereiro de 1946 faz-se a estreia da peça A vizinha do lado, uma vez mais encenada por José Redinha. Esta comédia ligeira que retrata os defeitos da pequena burguesia lisboeta, fora escrita por André Brun e tinha sido adaptada ao cinema no ano anterior no filme homónimo de António Lopes Ribeiro com estreia a 5 de Janeiro de 1945 no Coliseu do Porto.
Nos 10 anos seguintes, por razões que desconhecemos, José Redinha manteve-se afastado deste seu hobby. Só voltaremos a encontrá-lo como encenador já nos anos finais da sua estadia na Diamang.
Em 15 de Junho de 1957 sobe à cena a peça A bisbilhoteira escrita por Eduardo Frederico Schwalbach Lucci que foi deputado ainda em tempo de monarquia e ocupou o cargo de director do Diário de Notícias.
Ainda no mesmo ano (21 de Dezembro de 1957) re-incide e volta a levar ao palco a peça Anastácia & Cia do mesmo autor de A bisbilhoteira.
Que saibamos, a última incursão de José Redinha pela encenação teatral verificou-se em 6 de Dezembro de 1958 com a peça O perfume do pecado, também ela escrita por Ramada Curto em 1936. Mas, nesta performance, o espanto é ainda maior: José Redinha veste a pele de actor interpreta uma das personagens ao lado da própria esposa (Maria Virgínia Fraga), ela própria actriz principal da peça!
Não encontrámos indícios de que, fora da Diamang, José Redinha tenha feito qualquer outra incursão pela encenação teatral. Porém, na Lunda, a sua actividade precursora abriu caminho e deixou exemplo que foi seguido por muitos outros.
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