1927 – 1936, os primeiros anos em Angola
Os resumos biográficos que se referem a José Redinha normalmente apresentam um hiato longo e silencioso entre a data de nascimento (1905) e o início da sua colaboração com a Companhia dos Diamantes de Angola (Diamang), em 1936.
Num dos melhores resumos que conhecemos, o Dr. Barros Machado – que foi Director do Laboratório de Biologia e trabalhou com José Redinha, – ignora completamente este período e limita-se a referir que José Redinha é contratado pela Direcção da Dimang na Lunda em 1936.
Mesmo as versões resumidas das notas biográficas que se encontram nas suas obras (nomeadamente em “Etnias e Culturas de Angola”) são omissas sobre os primeiros 31 anos da vida do grande etnólogo e nunca se referem à data da sua entrada em Angola nem às razões que o levaram a dirigir-se para lá.
Na nota biográfica que elaborei para “Siderurgia tradicional Angola”, apoiado em diversos documentos a que consegui aceder, apontei, pela primeira vez, a data de saída de Lisboa do navio que o levou a Luanda: 21 de Fevereiro de 1927. Mas, mesmo aí, não indico as razões da ida para Angola e não o farei aqui, por não ser esse o objectivo desta nota. Ficará para outra ocasião.
A viagem, no navio “Lourenço Marques” a abarrotar de deportados por motivos políticos, foi muito atribulada. Avaria de máquinas, motins, tentativas de tomada do navio pelos deportados e outras peripécias não menos rocambolescas transformaram os dias previsivelmente tediosos em tempos de azáfama e de adrenalina. O desembarque em Luanda, se bem que a data exacta não esteja ainda completamente apurada, deverá ter ocorrido por volta do dia 22 de Março de 1927.
De 1927 a 1936, decorrem quase nove anos durante os quais a presença de José Redinha em Angola não merece, nos resumos biográficos que conheço, qualquer rasto, por menor que seja!
É claro que esta omissão, qualquer que tenha sido a causa, se afigura muito intrigante, sobretudo se pensarmos que o próprio, em público e em vida, não só não fez nada para aclarar esta questão, como parece tê-la evitado propositadamente. Basta-nos referir que todos os Curricula que conheço, elaborados pelo próprio em diversas datas e para diferentes finalidades, são absolutamente omissos sobre este período.
Um dia, no ano de 2000, já passados sete anos sobre a morte de José Redinha, em conversa com o Arq. Fernando Batalha, grande amigo de José Redinha e bom conhecedor da sua vida pública e privada, perguntei-lhe qual a razão do “esquecimento” destes 9 anos de vida do etnólogo.
“Ele era maçon” disse-me o arquitecto em jeito de explicação. No entender dele, a pertença a este grupo, – por não ser bem vista pela sociedade, mas especialmente pelo regime estado-novista então vigente, – era a razão principal e mais que suficiente para o silêncio sobre esta matéria. Como é óbvio, a confirmar-se a pertença de José Redinha à Maçonaria, ele tinha todo interesse em dar a menor visibilidade possível a esta faceta do seu passado.
A verdade porém, é que o arquitecto Batalha estava equivocado! Embora, à época, se tenha verificado uma certa confusão pela osmose subsistente entre a maçonaria e o republicanismo com um número não descipiciendo de pessoas a militar em ambas as filiações, José Redinha não só não era maçon, como teve alguns desaguisados com alguns “irmãos” desta associação.
Em 1931, José Redinha encontrava-se colocado como Chefe de Posto no Quimbumbe, pequena localidade a poucos quilómetros a oeste do Ambriz, nos limites da coutada do mesmo nome. Aí, por ter tomado posição adversa às pretensões de demarcação de terras que um comerciante pretendia fazer em detrimento de um agricultor local, foi-lhe instaurado um processo administrativo. Ao que se conhece, no comportamento do inquirido nada foi apurado que pudesse ser considerado contrário à lei e aos regulamentos. O facto, porém, não satisfez o inquiridor que começou a vasculhar no passado recente do arguido. Não foi difícil encontrar acusações suficientemente graves para justificar procedimento e pena: José Redinha acaba por ser acusado de “desumanidade” no trato com as populações locais, de “ser deportado político” e de “ser inimigo da situação” (leia-se, “do regime”).
Da acusação verbalmente expressa à conclusão do processo administrativo propondo pena severa, foi um pequeno passo.
O processo, instaurado pelos Serviços de Administração Civil (Proc. nº 1077), teve como instrutor oficial o inspector Raúl Pires e fundamentou-se nas acusações do comerciante Graça Neves, o tal cujas pretensões de propriedade não tinham obtido acolhimento junto da autoridade administrativa.
Quer o inspector Raul Pires, quer o comerciante Graça eram, no dizer de José Redinha, “irmãos da kuribeka” (nome tradicional da Maçonaria em Angola)! Daí termos referido que José Redinha não só não era maçon, como tinha sofrido alguns agravos às mãos de alguns “irmãos” maçónicos.
Como consequência deste processo, José Redinha, dada a gravidade das acusações, foi enviado compulsivamente para Luanda e cominado com uma ordem de deportação para Cabo Verde ou para os Açores. No aperto, valeu-lhe o governador – geral, Tenente-Coronel Ferreira Viana, que o “salvou” alegando, – com base numa confusão de nomes que haveremos de elucidar também, – que a ordem de deportação se referia a um indivíduo “desconhecido em Angola”!…
Afastado o espectro da deportação, regressou às suas funções no Posto do Quimbumbe onde se manteve até 1933! Nessa data, seguiu para o Dande como Secretário da Administração do concelho e, provavelmente em meados de 1934, seguiu para a Lunda para desempenhar idênticas funções no Posto do Chitato.
Embora sem confirmação inequívoca, temos razões para acreditar que a sua deslocação para a Lunda tenha sido acordada nos organismos centrais da Administração Civil porquanto ele próprio refere que parte com a incumbência (assumida com o director do jornal “A província de Angola”, Correia de Freitas) de obter elementos e peças etnográficas destinada ao futuro Museu de Angola. No Chitato, a sua ligação à Administração Civil mantém-se até Setembro de 1935.
No final desse ano e nos primeiros dias do ano seguinte (26-12-1935 a 02-01-1936), José Redinha, já desligado da Administração Civil, faz a “exposição de bonecos” (como ele próprio lhe chama) a que Barros Machado alude como determinante para a sua contratação pela Diamang e que constitui o núcleo original das peças nas quais assenta a fundação do Museu do Dundo.
Como fica patente, este período da vida de José Redinha antes da sua ligação à Diamang, está fortemente marcado pela suspeição do seu posicionamento anti-regime ditatorial, nessa época em fase de consolidação. Ora, sabendo nós o carácter do regime e a forma como tratava, não só os oposicionistas confessos, mas também os apenas suspeitos, este labéu não lhe era nada favorável.
Daí a necessidade de silenciar, o mais possível, este período de vida.
Convém referir que, apesar de todas as cautelas, José Redinha acabou por ser perseguido durante toda a vida por este incómodo Processo 1077!
