Missão de Recolha de Folclore

Bettencourt Faria e esposa

Bettencourt Faria e esposa

Bettencourt Faria – Um técnico de som na Lunda

Na pesquisa dos passos da longa peregrinação de José Redinha por terras da Lunda (Angola) somos necessariamente forçados a percorrer os labirintos da memória da Diamang.

E, neste bosquejo paciente e moroso, a cada passo tropeçamos com o inesperado! Quer no que respeita à Companhia dos Diamantes, quer nas personagens mais inesperadas que aí se cruzam.

Foi o caso, para nós absolutamente impensável, de encontrarmos por lá um dos nossos “velhos” conhecidos (infelizmente desaparecido em condições trágicas): Carlos Mar Bettencourt Faria.

A largueza multifacética do seu saber, a capacidade expositiva e a simplicidade dum ser humano de grande qualidade, constituíram para nós os fundamentos da admiração que, desde a adolescência, sempre nutrimos por ele. Antes de o conhecermos pessoalmente no “seu” Centro Espacial da Mulemba (onde passámos algumas férias a “ouvir” os satélites a fotografar o planeta), já o conhecíamos por via da rubrica radiofónica “O Cosmos em sua casa”, transmitida semanalmente no programa “Café da Noite” do saudoso Sebastião Coelho (que viemos também a conhecer pessoalmente, mais tarde – já depois da independência de Angola).

O que nunca nos teria passado pela cabeça, – nem ele nunca no-lo referiu durante o período em que, de bom grado e com entusiasmo juvenil, frequentámos a Mulemba, – é que ele fora para Angola, em 1951, para trabalhar na Companhia dos Diamantes de Angola! Foi essa uma grande surpresa que os documentos do espólio da Diamang nos revelaram!

Contratado para integrar a Missão de Recolha de Folclore, ele próprio descreve as suas funções em escrito no jornal “A Província de Angola”: “Eu era o técnico de gravação de som, o desenhador e inquiridor-mor [das populações da lunda] sobre instrumentos e até das armas indígenas,(1)” Embora a sua contratação se tenha efectuado como técnico de som , o seu espírito multifacetado e irrequieto não lhe permitiu remeter-se e acomodar-se à função técnica para que tinha sido contratado.

Da sua breve passagem pela Diamang (não conseguimos apurar a data exacta da desvinculação, embora saibamos que, em 1959, Bettencourt Faria já era “ex-empregado” da companhia conforme refere o chefe da Missão, Pinho Silva, na Nota nº 92 dirigida à Administração em 22-07-1959) fica registado o trabalho técnico (Relatório transcrito na Nota nº 26 de 29-09-1953), mas fica também e sobretudo a profusão e a qualidade dos 84 desenhos de instrumentos musicais utilizados pelos povos da Lunda. Ngomas, quissanjes, marimbas e luzenes estão aí desenhados ao pormenor, detalhes ressaltados, dimensões registadas ao milímetro, verdadeiros registos etnográficos da cultural musical lunda!  Uma faceta mais a acrescentar a todas as que lhe conhecíamos…

Desta sua passagem pela Lunda, para além dos registos fonográficos que efectuou, resultou um pequeno trabalho de cariz etnográfico: “O tiro com arco e setas praticado pelos indígenas do nordeste de Angola”, publicado inicialmente no Mensário Administração, e depois reproduzido na Geográfica, a revista da Sociedade de Geografia de Lisboa (2).

Foi o primeiro de alguns outros escritos com que, pela vida fora, foi registando aspectos da sua múltipla actividade como astrónomo, técnico de electrónica, cientista, inventor, mergulhador, biólogo, piloto do autogiro de construção própria, radio-amador, fotógrafo…

Verdadeiramente um ser de excepção cujos interesses se espraiavam pela totalidade do saber!

(1) Faria, C. M. Bettencourt, Sa-nha-gui-kine, in Província da Angola, Suplemento de Domingo, ano XXIV, nº 1177, Luanda, 05-07-1959.
(2) Mensário Administrativo, nº 155 – 160, 1960, pp. 41-55. Também Geográfica, nº 18 (Abril), 1969, pp. 23-34.
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