António Manoel de Vilhena – Um português na Ordem de Malta

A. Manoel de Vilhena

A. Manoel de Vilhena

Ao contrário das outras ordens militares (Templários, Cristo e Avis), a Ordem dos Hospitalários, apesar de conhecida, não goza do mesmo reconhecimento e da mesma deferência com que a generalidade dos portugueses geralmente as distinguem.

Na realidade, a intervenção Ordem dos Hospitalários (ainda conhecida por Ordem de S. João Baptista, de Jerusalém e, mais frequentemente, por Ordem de Malta), apesar da acção de alguns membros ilustres dessa Ordem (por exemplo o conhecido D. António, Prior do Crato) não tem, de nenhuma forma, o mesmo relevo e a mesma importância das duas outras ordens militares na história nacional.

À fundação do Hospital em 1099, seguiu-se, em 1113, o reconhecimento oficial, pelo Papa Pascoal II, da Ordem de S. João Baptista do Hospital como instituição de dupla vertente de actuação: assistencial e militar, independente da jurisdição episcopal local e dependendo directamente da Santa Sé.

Havendo necessidade de defender os “lugares santos” e assistir os peregrinos cristãos, a Ordem permanece em Jerusalém até à tomada da cidade, em 1187, por Saladino dedicando-se a essas duas tarefas. Nessa altura deslocam-se para norte, para a cidade de Acre (Akko) onde se instalam até 1291, data em que foram definitivamente expulsos da Palestina. A nova sede foi estabelecida em Chipre (Liamassol) e aí permanece por escassos 19 anos. a Ordem torna-se senhora de uma frota naval de poderio assinalável.

Em 1310, os cavaleiros do Hospital conquistam Rodes e, possuidores de território próprio, passam a usufruir de soberania territorial, governo autónomo (sob chefia do Príncipe Soberano de Rodes), moeda própria, relações diplomáticas autónomas  e dispondo de uma frota naval importante, senhora de um potencial bélico apreciável. Aí permanecem até à conquista da ilha, em 1522, por Solimão II, o Magnífico.

Segue-se uma fase de cerca de 7 anos de indefinição sobre o local apropriado para sede da Ordem. Finalmente, em 1530, sob pressão do Papa Clemente VII, a Ordem aceita a oferta de Carlos V e estabelece-se em Malta. Aí permanecerá até à sua expulsão por Napoleão em 1798. Dois anos depois os ingleses tomam Malta e, apesar do reconhecimento do direito da Ordem voltar a governar a ilha, tal facto não voltou a concretizar-se.

Segue-se uma fase de desorientação e decadência em que Ordem esteve sediada em vários locais: Messina, Catânia e Ferrara. Esta fase só termina em 1834 quando o Papa Leão XIII lhes indica sede em Roma, no Palácio de Malta à via Condotti, e lhes confere o título de Ordem Soberana, gozando de extraterritorialidade e assumindo-se, clara e exclusivamente, como instituição assistencial.

No plano interno, a Ordem dos Hospitalários, como referimos, nunca assumiu estatuto de semelhante grandeza. Todavia, na história da instituição, são vários os portugueses ligados, ao mais alto nível, ao governo da instituição.

Da lista dos 78 Grandes Mestres que até hoje governaram a Ordem (que este ano celebra 900 anos), 4 deles são portugueses. O primeiro português a ocupar o cargo de Grão-Mestre, décimo segundo da Ordem, foi o príncipe D. Afonso de Portugal, filho bastardo de D. Afonso Henriques, que governou a instituição, então sediada em Acre depois da sua expulsão de Jerusalém. Inicialmente cavaleiro do Templo, transitou depois para a Ordem de S. João do Hospital. De acordo com a publicação The Grand Masters of Malta, o seu governo, que decorreu de 1202 a 1206, foi marcado pela reforma da Ordem. 

Até ao século XVII, nenhum outro português se ocupou do governo da Ordem. Apenas em 1622 e somente por 1 ano, já com a ordem sediada em Malta, um outro português voltou a ocupar o posto máximo do governo da instituição. Luís Mendes de Vasconcelos, político, escritor, mas sobretudo militar, tornou-se nessa data o 55º Grão-Mestre da Ordem, depois de uma carreira militar pelo Oriente e por África, foi Governador Geral de Angola (1617 – 1621) onde levou a cabo uma incursão guerreira contra a Matamba.

O seu governo, curto, ficou marcado pelo conflito com bispo Baldassare de Cagliares (único eclesiástico de ascendência maltesa nomeado bispo durante a soberania da Ordem na ilha) pelo facto de este pretender construir uma residência episcopal na cidade de La Valleta.

O último português a ocupar o cargo de Grão-Mestre foi Manuel Pinto da Fonseca (de 1741 a 1773 – 68º Grão-Mestre). Pinto da Fonseca tinha vivido em Malta nos primeiros anos de vida, exprimia-se fluentemente em maltês e era, por isso, considerado pelos malteses mais um compatriota do que um estrangeiro. Auto-intitulado “Príncipe de Malta” conduziu-se com qualquer monarca do século das luzes. No seu longo governo fundou a Universidade e a Biblioteca pública, restaurou edifícios e monumentos, construiu e reforçou estruturas de defesa,  reformou a administração, o comércio, a indústria, a saúde e a justiça.

Os últimos anos do seu governo, marcados por um autocrático despotismo iluminado, fizeram com que a sua morte, ocorrida em 23 de Janeiro de 1773, não fosse lamentada quer pelos cavaleiros da Ordem, quer pela generalidade da população maltesa.

Brasão de armas de Manoel de Vilhena

Brasão de armas de Manoel de Vilhena

Porém, o português mais conhecido e re-conhecido no governo da Ordem foi MANOEL DE VILHENA, 66º Grão-Mestre que governou de 1722 a 1736. De ascendência nobre (era filho do 1º Conde de Vila-Flor), Manuel de Vilhena subiu na hierarquia graças à sua diligência, ao seu empenho e ao trabalho árduo e persistente.

O seu governo à frente da Ordem de Malta foi marcado por um notável conjunto de realizações que vão da reforma dos estatutos (em 1723) à construção de estruturas defensivas da ilha de Lazareto (hoje conhecida por Ilha Manoel) para defesa do porto de Marsamxett e ligando-o a terra por uma bela ponte de arco único.

Remodelou a entrada de Mdina (antiga capital da ilha) e construiu aquilo que é hoje a cidade de Floriana onde mandou construir uma residência para receber mulheres solteiras desprovidas de recursos e uma outra para doentes incuráveis.

No domínio da reforma administrativa e legal, re-codificou o direito público vigente, as leis judiciais e criminais, reduziu impostos e direitos alfandegários, distribuiu fundos para diversas obras públicas e assegurou um abastecimento abundante e a preços baixos.

Teatro Manoel

Mas a sua obra mais conhecida é o Teatro Manoel. Inaugurado em 1732 como Teatro Público (mais tarde Teatro Real), é um dos teatro barrocos europeus mais antigos ainda em funcionamento. Em 1861, 0 teatro foi vendido a privados e, em 18666, deixou de ser Teatro Real face à inauguração da sua concorrente: a Real Ópera de Malta, construída à entrada de La Valleta.

Depois de ter sido cinema (de 1927 a 1940), durante a II Guerra Mundial foi usado como abrigo para desalojados e feridos. Nesse período, a estrutura e a decoração do edifício sofreram severos danos que só foram reparados depois de, em 1957, ter sido re-adquirido pelo governo de Malta.

Totalmente reabilitado, o edifício é devolvido às suas funções originais em 1960, inaugurado com o ballet Coppelia, apresentado pela companhia inglesa Ballet Rambert.

Sede da Orquesta Filarmónica de Malta e da Academia de Artes Dramáticas do Teatro Manuel, a vetusta instituição alargou o seu espaço com a integração do adjacente Palácio Bonici e ocupa hoje lugar de destaque na cena cultura Maltesa com destaque para o Programa de Educação Musical Toi Toi, o Festival Internacional Barroco de La Valleta e a Ópera Juvenil do Teatro Manoel.

Uma instituição que honra o fundador que, à sua morte (13 de Dezembro de 1736), “havia ganho o afecto e a estima de todos os Malteses”.

Teatro Manoel Programação 2013-2014

Teatro Manoel
Programação 2013-2014

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