Portugal – Que futuro para o país?

Estava, tranquilo, na plataforma do metro da estação do Campo Grande quando fui surpreendido por uma estranha algazarra, mistura de gritos, sons de megafone e guinchos animalescos com pretensão a sons musicais!

A algazarra foi subindo de tom à medida que a mole humana que a provocava galgava em tropel as escadas de acesso à plataforma. Era um desses grupos de estudantes universitários que, nesta época de início de ano, costumam enxamear pela cidade em propósitos que pouco se coadunam com o pretenso estatuto dos futuros “senhores doutores” deste país.

O ajuntamento, observando os trajes e os comportamentos, poderia dividir-se claramente em três grupos.

O primeiro, de maior dimensão, era capitaneado por um sujeito magricelas, vestido de negro, e integrava um conjunto amorfo de rapazes imberbes e raparigas mal vestidas, caras sujas e corpos suados, exalando os fedores habituais de quem não vê água há muito tempo. Nos pés, cobertos de pó, a grande maioria, indistintamente, exibia uns chanatos de plástico pomposamente promovidos a calçado adequado a todas as ocasiões. Nos semblantes, a expressão resignadamente bovina dos animais que se deixam conduzir sem queixumes.

No segundo grupo, um pouco menor, os participantes tinham o mesmo aspecto apatetado e carneirum dos do primeiro. A única diferença é que estes exibiam umas fatiotas medievais, perfeitamente ridículas, todas negras, nada condizentes com a temperatura da estação estival. Por isso, iam suando em bica e empestando os ares com odores pouco apropriados para narizes sensíveis!…

Finalmente, o terceiro magote, de dimensões bem reduzidas – como convém às elites… – exibia espécimes mais curiosos e mais diversificados.

Um, que devia ser o chefe, ao ombro, tinha uma espécie de lençol negro cuidadosamente dobrado como se fosse uma toalha de praia, decorado com uma parafernália impressionante de crachás multiformes e profusamente coloridos. Calculo que, quanto mais “condecorações”, mais elevada a patente!… Exibia uma pose soberbamente majestática, queixo projectado para diante, e caminhava pausadamente batendo os tacões com força no lajedo da estação . Não abria a boca, mas todos os outros olhavam para ele à espera do oráculo!

Uns dois ou três, com menos latas coloridas nos lençóis pretos (provavelmente seriam uma espécie de ajudantes-de-campo do chefe…) davam instruções ao resto do rebanho sobre a forma de entrar nas carruagens e sobre o percurso a efectuar.

A última avantesma deste grupo, espécie singular, no mesmo traje inapropriado e ridículo, empunhava um megafone amarelo (como me fez lembrar os velhos tempos das “manifs”…) que ia usando para grunhir ordens desconexas ao bando dos maltrapilhos!

Quando o comboio chegou, a horda, à batuta do chefe, tomou de assalto duas carruagens atropelando selvaticamente todos os outros desprezíveis vermes que tiveram a infeliz ideia de se encontrar no caminho dos bárbaros. No interior, o do megafone, com ares de imperador da Etiópia, emitiu uns guinchos ininteligíveis para a extremidade oposta da carruagem. Automaticamente, o bando de pré-delinquentes que ele dirigia iniciou uma berraria desafinada, com uma letra vagamente obscena, cujas passagens escabrosamente mais explícitas eram copiosamente sublinhadas pelos esgares alarves, que se assemelhavam vagamente a risos afivelados nas carantonhas do grupo dos “corvos”.

No final da deprimente exibição de mau-gosto, uma espécie de palavras-de-ordem exaltando a virilidade dos “doutores”, exortou os “caloiros” (e sobretudo as caloiras) às práticas sexuais mais escabrosas e obscenas!…

Felizmente, neste interim, o comboio chegou à Baixa Chiado. O bando, aos tropeções, saltou para a plataforma e reuniram-se à volta de dois bancos onde, duas “doutoras”, empoleiradas, olhar vago e gesto circular, assinalavam o novo local de reunião àqueles energúmenos desembestados.

O comboio arrancou e deixámos de presenciar as cenas seguintes deste triste espectáculo. Provavelmente, a horda, foi exibir a boçalidade para lugares mais turísticos, na parte mais nobre a cidade!…

Aqui está o futuro do País: um rebanho a balir, aparvalhado, às ordens dum bobo inchado, macaqueando poses de ditador…

 

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