REGRESSO AO PASSADO ou Portugal com “cheiro” a Angola

Nos últimos dias fiquei fechado em casa, mas hoje fui comprar comida para os meus cães.

Sim, porque eu, como diz a minha mulher, os nossos cinco cães são os “mais felizes do mundo”!… É. Não sabem o que é coleira, trela, confinamento de espaço ou repressão higiénica. Por isso são animais felizes. Mas comem!…

Foi por isso que tive que ignorar as recomendações “costianas” para ir ao supermercado e comprar ração para os bichos.

No primeiro, onde costumo abastecer-me, fila com dezenas de pessoas , cara de caso e expressão de incredulidade, olhando para o parceiro, com ar desconfiado, tentando perscrutar o seu interior para saber se seriam um eventual “contaminador” ou apenas um adversário na guerra pelos rolos de papel higiénico!…

Claro que nem parei. Segui para a segunda opção, mas também aí o panorama não era diferente! Rumei à terceira possibilidade: o mesmo panorama! À quarta, – viva! – lá encontrei um supermercado que não tinha fila à entrada!

Entrei e fui olhando para as prateleiras. Na prateleira das massas… quatro ou cinco pacotes perdidos na dimensão agora exagerada para a exiguidade dos produtos expostos. O mesmo panorama nas prateleiras dos enlatados, do papel e outros produtos de higiene pessoal…

No talho, de vitrinas e expositores vazios, dois funcionários, sem carne nem clientes, preenchiam o tempo limpando o que já estava limpo!

Tudo isto me faz voltar quarenta anos atrás, aos tempos da Angola recém independente onde falta tudo, menos a imaginação para “inventar” soluções de sobrevivência. Rebobinei a fita do tempo e encontrei as memórias de tempos muito mais difíceis que os do presente coronavirus.

E lembrei-me dos poucos supermercados que sobreviveram à debandada da pré-independência. Do aspecto assustador do seu interior, filas e filas de prateleiras invariavelmente vazias ou preenchidas com todos os “monos” que, para pintar um visual mais agradável, tinham sido resgatados dos esconsos mais profundos dos armazéns e faziam agora figura de mercadoria de luxo a enfeitar prateleiras!…

Lembrei-me dos meses e meses sem “ver” carne, dos talhos com balcões brilhantes na nudez do seu aço inoxidável, das farmácias onde nem sequer valia a pena “fazer bicha” porque os medicamentos há muito que tinham emigrado. e dos prodígios de imaginação e de solidariedade que era necessário fazer para garantir uma alimentação minimamente saudável às três crianças cuja única culpa era terem uns pais “irresponsáveis” que quiseram “ver nascer uma nação” que julgavam sua e ajudar a construí-la sem dar muita importância aos tormentos do quotidiano.

Lembrei-me também dos meses e meses de almoços de ementa sempre igual, invariavelmente preenchida com o inevitável “dia-a-dia na cidade”, o peixe espada frito com arroz! Se houvesse alguma justiça na construção dos monumentos comemorativos, o peixe espada, o “cinturão das FAPLA”, merecia um monumento esplendoroso, num lugar central da capital angolana, tomando o lugar de uma daquelas inestéticas “torres” de exibicionismo novo-riquista que por lá desfeiam a velha urbe!

Mas lembrei-me também e sobretudo das famosas “bichas” à porta de tudo o que tivesse aparência de loja onde pudesse aparecer “qualquer coisa” que se pudesse colocar na panela. Formavam-se a partir das primeiras horas da madrugada (4, 5 da manhã…) sempre que o “boca-a-boca” informasse que aí “ia sair” qualquer coisa!… Integravam-na maioritariamente mulheres, de todas as formas, cores e idiossincracias, irmanadas “democraticamente” pelo instinto de sobrevivência! Pelo meio, algumas pedras (literalmente) que representavam e substituíam a proprietária que, entretanto, marcava presença numa outra “bicha” de alguma loja próxima!…

Finalmente, veio-me à memória a imagem do ODP que, à catanada, esforçada e violentamente, tentava pôr alguma ordem no tsunami de gente que tentava ser o primeiro a chegar às prateleiras episodicamente “enfeitadas” com qualquer coisa!

Ao ver as filas à porta dos supermercados, o Portugal 2020 “cheirou-me” a Angola dos anos oitenta!…

Espero sinceramente que nunca se passe do “cheiro”… e das “bichas” pequenas e organizadinhas!…

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