Os burros dos padres…

Ilha da Cazanga_n

Igreja de S. João da Cazanga

Frente a Benfica e ao Museu da Escravatura, entre a “ilha” do Mussulo (que mais não é que uma península!) e o continente, situam-se três pequenas ilhotas que, actualmente, creio desertas. São: o ilhéu Deserto, o ilhéu dos Pássaros e, a maior das três, a ilha “dos Padres”; também conhecida por ilha da Cazanga.

O topónimo “dos padres” remonta ao tempo em que essa ilhota era ocupada apenas por padres e madres e o titular da sua propriedade era a Arquidiocese de Luanda. A despeito das alterações ocorridas, quer em termos de ocupação quer em sede de titularidade, o topónimo sobrevive.

No final dos anos 60 do século passado por várias vezes estive na Cazanga. Umas vezes para participar na festa do padroeiro, – S. João Baptista, – que se celebrava no próprio dia 24 de Junho, se este ocorresse em dia de domingo, ou, no domingo seguinte, se o dia do padroeiro ocorresse em dia de semana; outras vezes para acampar, com a rapaziada dos escuteiros, beneficiando das facilidades da missão dos padres (ou “dos rapazes”, como lhe chamávamos) apesar da proverbial embirração do padre Maréchal com os alíenigenas que ousavam perturbar a paz doméstica da “sua” missão.

Igreja da Kazanga

No topo norte da ilhota, bem em frente do ilhéu deserto ficava a Missão Feminina, local de visitas frequentes mas furtivas (não fosse dar-se o caso de um encontro desastroso com alguma das madres!…), para apreciar a beleza das “internas” que se mostravam sensíveis aos nossos galanteios desajeitados.

Nesses tempos, a ilhota era terra deserta e hostil onde só as espinheiras conseguiam obter o alimento mínimo para sobreviver. De animais, à excepção de algumas galinhas, magrísssimas e esquivas, só burros e cabras!

Apesar dos tratos que dei à imaginação, nunca consegui descortinar que subtil objectivo perseguia quem para ali levou tais animais. O certo é que eles lá estavam e, tal como os rapazes e as raparigas, separados por sexo: os burros (presumo que todos eles machos!…) eram pertença “dos padres” (um plural que encerrava para mim um outro mistério porque não conheci nunca qualquer outro padre que não fosse o cara-de-pau do padre Maréchal); as cabras (todas fêmeas, está visto!…) pertenciam às madres!

Uns e outras passeavam-se em plena liberdade pela ilha já que não havia qualquer risco de fuga. Que eu saiba, os animais não sabiam nadar e, por isso, seriam esbanjados os esforços e os recursos destinados a estabulá-los.

Acontece que, nesses tempos recuados, penso que à falta de local mais aprazível, D. Moisés, o arcebispo de Luanda, costumava passar alguns dias de descanso estival na “sua” ilha. Uns dias na missão masculina, outros, na missão das madres.

Contou-me ele, sufocado pelo riso, que todos os anos os seus dias de descanso eram ensombrados pelas queixas recorrentes, dos padres contra as cabras das madres que tosquiavam as míseras couves que, esforçadamente, ele e os seus rapazes teimavam em plantar naquele areeiro seco e estéril; das madres contra os burros dos padres, cabeludos esquálidos e manhosos que tinham o deplorável costume de visitar a pequena horta que também elas teimavam em manter!

E o bispo rematava com uma ponta de malícia: “Os burros dos padres e as cabras das madres, definitivamente, não se entendem!”

 

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2 Responses to Os burros dos padres…

  1. Francisco E.'s avatar Francisco E. diz:

    Conheci a ilha mas de longe, pois que quando fazia o Mussulo e ia-mos pescar ao morro dos Veados tinhamos que passar por ela, e satisfeito por saber por algo que desconhecia

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  2. Kituxi's avatar Kituxi diz:

    Escrevendo a História com histórias que parecem estórias.
    VALEU!

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