Bastas vezes viajo de comboio. Na maior parte das vezes, de Alenquer para Lisboa e de Lisboa para Alenquer.
Geralmente os quarenta minutos da viagem servem para pôr em dia as leituras que, de outra forma, seriam preteridas em favor de afazeres mais prioritários. Às vezes, porém, por puro deleite intelectual ou para simples distracção, aquieto-me no banco e fico atento às conversas à volta.
Na sexta-feira passada estava no comboio a percorrer o trajecto Lisboa – Castanheira. Na estação de Alverca, ao contrário do que costuma suceder, entraram duas jovens senhoras. Percorreram a carruagem e sentaram-se no banco à minha frente.
A familiaridade e o teor da conversa que vinham travando fazia entender que, provavelmente, seriam colegas de trabalho a regressar a casa. Acomodaram-se, a si, às carteiras e à profusão de sacos que as senhoras sempre carregam e continuaram uma conversa que, manifestamente, já tinham iniciado anteriormente.
– Reparaste na Manela?! Que disparate! – dizia a que entrara primeiro e se sentara à janela, mesmo na minha frente.
Era uma negra roliça e bonita, de pele aveludada e cabelo escorrido, aparentando aí uns trinta e cinco a quarenta anos.
– Imagina!… Queria que eu lhe desse umas pancadinhas nas costas e a consolasse porque o cão dela tinha morrido!… Ih… era só o que faltava!…
– É verdade! Eu vi-a chorar mas não sabia porquê! – respondeu a outra, uma brasileira baixinha e redonda que em nada condizia com os estereótipos correntes sobre as mulheres desse país.
– Pois!… era por isso!… Só porque lhe morreu o cão, estava para ali, lavada em lágrimas, chorando baba e ranho!… Não tem juízo… – reforçava a primeira.
– Bicho é bicho, né?! – filosofava a brasileira. – Nós, lá no Brasil em nossa casa sempre tivémos cão e sempre o tratámos bem! Mas, animal não é pessoa!
– Sabes?! Ela, de manhã, até estava a dizer que nem sequer deveria ter ido trabalhar… Imagina!… Parece que o cão é pessoa de família!…
E riam-se ambas, cúmplices, espantadas e atónitas perante aquele comportamento disparatado e absurdo.
– Olha, – dizia a negra assumindo repentinamente um ar simultaneamente sério e desdenhoso, – ela só estava naqueles preparos porque não sabe o que é perder alguém muito próximo, a quem se quer muito! Se ela tivesse perdido, como eu, a mãe e dois irmãos mais novos no espaço de um ano, ela sabia o que é sofrer…
– É… essa gente trata os animais como pessoas! Não sabem o que é sofrer!… sublinhava a brasileira.
– Queria um ombro para chorar o cão!… repetia a negra. – Ela não sabe o que é perder a família, senão não estava assim…
Entretanto o comboio já diminuía a velocidade para parar em Vila Franca. As duas amigas levantaram-se e lá foram, estação fora, escandalizadas com o despropósito das exageradas manifestações de dor pela morte do cão!…
Bem interessante este caso. A facilidade de julgamento , do outro, sem qualquer tipo de empatia é muito bem narrada nesta “VIAGEM”… o outro, visto sempre através dos nossos olhos e com os nossos “óculos” , é bem mais desinteressante do que o resultado do verdadeiro e sincero interesse em conhecer quem nos rodeia.
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