Uma viagem a Israel: Impressões de um país (III)

Israel 001À medida que se sobe do deserto para o centro e, depois, para o Norte do país, paulatinamente, a paisagem e o ambiente vão-se tornando um pouco mais amigáveis: menos seco, menos pedregosa, um pouco mais arborizado, mas igualmente quente!

O clima social, todavia, vai-se adensando de Sul para Norte!

À medida que nos acercamos de Jerusalém (com passagem por Hebron, Belém e Jericó) entramos numa região de fronteiras e responsabilidades confusas, muito difíceis de entender para quem, como nós, habita num país de fronteiras estabilizadas há vários séculos!  Nestas áreas, a soberania, a administração civil, a segurança e a ordem públicas são partilhadas (?) entre israelitas e palestinianos gerando descontinuidades estranhas nos dois países vizinhos.

Cidades como Jericó, Hebron, Belém, Ramalah, Nabus e Jenin são cidades palestinianas situadas em pequenos enclaves territoriais palestinianos imersos em território judaico: nessas “ilhas”, a autoridade soberana (ao menos formalmente) é palestiniana! Porém, cercando-as, existem uma zonas mistas (assinaladas a amarelo no mapa) onde as populações estão sujeitas a uma confusa “partilha” de autoridade, consoante sejam árabes ou judeus. Na linguagem formal dos mapas turísticos israelitas nessas zonas “a Autoridade Palestina é responsável pela administração civil e pela ordem pública dos Palestinianos. Israel é responsável pela segurança se se tratar de israelitas” (leia-se: judeus)!… Ou seja: trata-se de zonas formalmente palestinianas, mas onde existem “ilhas” ocupadas por tropas israelitas cuja função é “proteger” os seus cidadãos!…

O cúmulo do absurdo são os casos em que um único edifício está divido em duas partes: uma muçulmana, outra judaica! Um exemplo gritante do que dizemos é o Túmulo dos Patriarcas na cidade palestiniana de Hebron. O vetusto edifício que abriga os túmulos dos patriarcas está divido em duas partes: uma parte, mesquita; a outra metade, sinagoga! A mesquita, à guarda dos palestinianos; a sinagoga, guardada por tropas israelitas, fortemente armadas, que fazem um controle rigoroso das entradas com equipamentos iguais aos usados nos aeroportos!… E, ao absurdo, acresce o insólito (a roçar o ridículo…) que foi o de dois dos nossos companheiros terem sido obrigados a deixar à guarda dos militares, no posto de controle à entrada, os tripés das máquinas fotográficas de que eram portadores não fosse tratar-se de uma versão portátil, sofisticada e desconhecida de um novo modelo de lança-mísseis!!!

Claro que, nestas áreas, o guia judeu que nos acompanhava não pôde entrar! Foi substituído por um outro, palestiniano, que, penosamente, tentou alinhavar algumas frases num português abrasileirado durante o tempo em que por ali deambulámos.

FB3_Hebron_IMG_8425Um outro aspecto chocante nestas zonas são as linhas de fronteira: Em alguns lugares (Jerusalem, por exemplo) é um sólido muro de betão, grafitado como em qualquer parte do mundo (mas não muito!..), com bons 3 metros de altura; noutras paragens (ao longo do Jordão, já bem perto do Lago de Tiberíades) é uma linha de fronteira desenhada por uma vedação de arame farpado, dotada de sensores de corte e intrusão e encimada por  câmaras de vigilância com transmissão de imagem! Do outro lado, o mesmo aparato; a diferença limita-se à sofisticação tecnológica.

FB5_Galileia_DSCF7257A última impressão forte que me assaltou diz respeito ao chamado “milagre” judeu que, na expressão do preconceito comum, “transformou o deserto num jardim!”

Embora sejam visíveis os resultados do esforço da “transformação” pretendida, temos algumas dúvidas sobre a validade do modelo agrícola implantado, especialmente sobre a sua sustentabilidade a médio prazo.

Apesar do evidente controle dos gastos de água, nomeadamente pela adopção de um único método de rega (gota-a-gota), o consumo do precioso líquido está longe de ser equilibrado e, intensificando-se cada vez mais o consumo à medida que se expandem as áreas agrícolas, por pressão das necessidade alimentares da população, tenderá a esgotar as reservas de água a Norte, nomeadamente do Lago de Tiberíades. Não teremos aqui uma reedição do desastre ocorrido no Mar Aral?

Por outro lado, a utilização intensiva de fitas de plástico para impedir o crescimento de ervas daninhas e dificultar a evaporação não augura nada de bom. Na Galileia observámos que esses plásticos, deteriorados pelo Sol, quebram-se em pequenos pedaços e espalham-se pelo solo, misturados pelos equipamentos de lavra ao preparar o solo para nova sementeira. A longo prazo, o que acontecerá com estes solos?

Não tenho resposta, mas deixo a interrogação esperando e fazendo votos para que o sonho se não transforme em pesadelo!

Desconhecida's avatar

About A. Santos

Vida e memória... Escrever... recordar... viver!...
Esta entrada foi publicada em Israel com as etiquetas , , , , . ligação permanente.