Que segredos?
Espicaçado pela curiosidade, meti mãos (aliás, olhos!) à leitura do livro que prometia revelar os “Segredos da descolonização de Angola”.
Ainda não tinha lido mais que 50 páginas e já me sentia completamente defraudado!..
Segredos, nada!
Para quem, como nós, que viveu e conheceu por dentro o conturbado processo descolonizador de Angola sem nunca ter abandonado o território, o livro, de facto, não revela nenhum segredo. A leitura total do texto apenas sedimentou essa percepção inicial.
Na realidade, os factos relatados sobre aquilo que se passou, vistos do lado “de fora” de quem não foi actor do “processo político em curso”, são largamente conhecidos e mereceram já relato mais ou menos circunstanciado em diversos textos de diferentes épocas. Alguns, aliás, realmente bem mais interessantes e numa escrita mais apelativa que esta.
De facto, tentar a reconstrução da realidade a partir dos dados fragmentários e secos dos relatórios ou dos relatos jornalísticos dos periódicos da época, – sempre “deturpados” pela coloração ideológicos que dominava cada um dos jornais, não é tarefa fácil, nem foi minimamente conseguida. Juntar fragmentos – mesmo que de várias proveniências e antagónicas perspectivas, – não conduz à percepção global da realidade, nem ao entendimento daquilo que se passou em determinado momento histórico.
Nesta óptica, o esforço, ingente, para juntar todos estes olhares fugazes e parcelares de cada momento foi um fracasso rotundo! A vida não é nunca um amontoado de flashs, por mais certeira que seja a câmara que os fixe!
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Onde o livro se revela interessante é na revelação do que se passa nos bastidores! Não dos Movimentos de Libertação que no terreno se digladiam, mas dos portugueses que lá se movem: militares, civis e políticos de extracções diversas.
Em nossa opinião, os verdadeiros segredos do livro estão aí!
A partir dos dados carreados de actas e relatórios mais ou menos secretos, patenteia-se a completa inexistência de um pensamento estratégico sobre a descolonização e do que isso representa, um vislumbre, mesmo que fugaz, sobre os objectivos futuros a atingir: para Portugal, para os portugueses, para os angolanos e, provavelmente – por extensão, – para todos os outros povos das restantes colónias.
O que aí se revela – confrangedor, – é o espectáculo grotesco de grupos contra grupos, pessoas contra pessoas, bandos contra bandos, agitando-se num pano de fundo de incompetência, ignorância, ingenuidade, cupidez e fanatismo extremo. Nos bastidores da história da descolonização toda esta gente aparece mais preocupada em “descartar-se” de um problema cuja complexidade nunca sequer sonhou do que em desenhar o futuro, defender as pessoas e construir ou re-construir pátrias!
Provavelmente, todos os actores políticos da época conheceriam o enunciado de De Gaulle face aos problemas da descolonização da Argélia: “em matéria de descolonização, a única vitória é a retirada”…
O verdadeiro segredo do livro é a triste revelação da pusilanimidade e da mesquinhez dos protagonistas daquele momento da nossa história.
Já o suspeitávamos, mas agora está confirmado!

Agradeço a informação, estava pensar comprar o livro mas assim fiquei esclarecido.
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