Moinhos de vento – um património industrial desprezado

O concelho de Alenquer (como a generalidade dos concelhos da faixa costeira portuguesa) está dotado de um vasto património molinológico que, na generalidade dos casos está, pura a simplesmente, ao abandono.
Se tratado devidamente, este património valioso poderia constituir um pólo interessante de atracção/valorização turística e constituir uma mais valia diferenciadora do concelho e, com algum investimento, mas, sobretudo, com um planeamento integrado e uma programação adequada, um pólo gerador de emprego e riqueza.
Para tanto, seria necessário, antes de mais proceder ao levantamento completo e exaustivo desse património, estudá-lo e analisar/criar as formas mais adequadas de proceder à sua integração num projecto turístico global que gerasse os proventos necessários à sua rentabilização e assegurasse a sua sustentabilidade .
Aqui fica a sugestão e alguma informação sobre estes sistemas de moenda cuja complexidade tecnológica, numa lógica de ignorância, estamos habituados a subestimar.
No universo do sistema tradicional de moagem os moinhos de vento constituem, na faixa costeira portuguesa o elemento principal de um panorama que se alarga por vários outros sistemas: azenhas, moinhos de maré, moinhos de rodízios e de rodetes.
Neste conjunto dos engenhos de moagem, os moinhos de vento ocupam o lugar de topo na pirâmide da complexidade tecnológica em cuja base se encontram os moinhos de rodízio e de rodete, e na posição intermédia as azenhas e os moinhos de maré.
A complexidade destas “fábricas de farinha” prende-se com a conjugação de três sistemas mecânicos que devem funcionar em sincronia integrada: o mecanismo de moagem (constituído pelas mós e respectivos eixos e engrenagens), o aparelho motor externo (mastro, varas e respectivas velas) e o mecanismo de orientação do aparelho motor externo (sarilho, alavanca e sistema de fixação do capelo).
Se os aparelhos de moagem e o de orientação relevam de tecnologias conhecidas nos meios rurais e presentes em outros equipamentos, nomeadamente noutros sistemas de moagem, já o mecanismo motor externo requer conhecimentos tecnológicos que, normalmente, não estão disponíveis no fundo tecnológico dos meios rurais, porquanto pertencem à tecnologia e às técnicas navais. A confecção das velas e do respectivo cordame, os métodos de fixação e formas da sua utilização são conhecimentos da arte de marinharia assimilados pelos moleiros para poderem operar com eficiência e segurança estes complexos equipamentos de moagem.
De forma genérica podemos referir que a escolha de uma determinada solução para resolver os problemas da moagem num local específico está condicionada por três factores: as disponibilidades energéticas do meio, os conhecimentos tecnológicos existentes e a capacidade construtiva disponível.
Quanto ao estudo dos sistemas tradicionais de moagem existentes no concelho, ele não pode esgotar-se no levantamento das estruturas sobreviventes nem no estudo exclusivo dos sistemas do ponto de vista tecnológico. Para ficar completo, ele implicará necessariamente várias outras vertentes de análise, das quais destacamos:
1) O planeamento e a construção do moinho (universo relacional dos saberes existentes e do fundo tecnológico disponível):
- Escolha do local de implantação (Localização – em função do terreno e dos acessos ao mercado);
- Optimização funcional dos elementos do moinho (compatibilização de todos os mecanismos entre si e com a estrutura da torre);
- Estruturação/organização (optimização) do espaço interno;
- Planeamento dos aspectos de segurança (acesso, colocação da porta e delimitação do espaço exterior de segurança; colocação de elementos mágicos propiciadores de boa sorte ou de esconjuro de mau-olhado) e conforto (condições de habitabilidade: arejamento e comportamento térmico);
- Escolha, preparação e aparelhamento dos materiais (mastros, capelo, varas, vigas e pedras para as mós);
- Construção da torre (alvenaria) e colocação dos sistemas mecânicos internos;
- Construção do capelo, colocação das velas, búzios e acessórios de moagem;
2) A compreensão dos princípios mecânicos envolvidos na construção, funcionamento e manutenção do equipamento;
- Instrumentos de medida (búzios, catavento e guizo do tegão)
- Controlo de funcionamento (velocidade e esforços mecânicos)
3) Organização da produção: tipologia dos produtos obtidos, processo de obtenção de matérias-primas (cereais e farinhas) e distribuição de produtos e subprodutos;
- Controle da qualidade da farinha pela variação da velocidade de andamento da mó e do afastamento da superfície das mós, sendo que o abastecimento do grão a farinar é feita de forma automática;
4) Estatuto sócio profissional do moleiro: origem (camponês-moleiro, proprietário ou assalariado), o seu posicionamento na comunidade e o conjunto de actividades que desempenha.
Nesta óptica, aqui fica uma listagem meramente exemplificativa do dia-a-dia de um moleiro, ou seja, das tarefas que executa de forma repetida (em períodos diários ou de maior amplitude temporal) agrupadas pelo seu nexo incidental na actividade genérica da produção de farinha.
1) Acções de controle e manipulação:
- Inicialização do moinho (posicionamento do mastro e abertura das velas)
- Moagem (regulação da altura da mó e calibragem do doseamento do grão pela fixação da inclinação da quelha e da abertura do tegão)
- Abastecimento de cereal a moer
- Recolha e ensacamento da farinha
- Finalização / paragem (afastamento do moinho da direcção do vento, “afogamento” da mó, abaixamento do urreiro, lançamento da corda do cabresto, paragem do movimento das varas, recolha do pano das velas, ata-as às varas e encabresta o moinho
2) Acções de manutenção com objectivos funcionais:
- Limpeza do espaço;
- Lubrificação das partes móveis;
- Substituição de dentes da entrosga ou fuselos do carreto, remendo das velas ou substituição de outras partes danificadas ou desgastadas
- “Picagem” das mós
3) Acções de manutenção com objectivos de durabilidade:
- Limpeza do sulco do fechal de pedra
- Erradicação das ervas e sujidade acumulada
- Limpeza da área envolvente do moinho, em especial do espaço onde correm as varas quando o moinho está em andamento
- Verificação e ajuste das cunhas de prisão das varas ao mastro
- Amarração/substituição dos búzios
- Impermeabilização do cordame e caiação das velas (cal e sebo)
- Reforço e impermeabilização das estruturas do capelo.
Na realidade, como pode inferir-se do que fica dito, uma abordagem minimamente estruturada do complexo molinológico traria um imenso valor acrescentado ao conhecimento do concelho já que implicaria, para além da inventariação dos meios técnicos existentes e da sua distribuição, uma análise antropo-sociológica da “vida” dos moleiros e das suas redes de relacionamento humano assente no estudo do meio geográfico e tecnológico em que se insere. Ademais, proporcionaria um desenho muito nítido da realidade da estrutura humana, tecnológica e económica do concelho de Alenquer (e da sua integração/relação com o complexo nacional do abastecimento de produtos farinados). Em especial no período áureo do desenvolvimento desta actividade (do séc. XVII ao final da primeira metade do séc. XX).