Há algumas semanas, a reboque dum programa da RDP, abordei aqui, de forma muito sumária, o papel dos media no conjunto dos sistemas de poder, nomeadamente do poder político, integrando-os no conjunto dos “aparelhos ideológicos” do(s) estado(s).
Para alguns seguidores destas linhas, pareceu estranhíssima a abordagem efectuada (até pelo tipo de linguagem e de conceitos utilizado) e não se coibiram, inclusive, de se manifestar pela inoportunidade do escrito, tendo especialmente em conta a alusão a um programa “de memória(s)” cujo objectivo é “lembrar” às pessoas os malefícios do passado, num sistema político onde, legal e oficialmente, não existe censura. Como “importa não esquecer…” e “estamos em democracia”… a desadequação era manifesta.
Volto, de novo, ao tema acicatado pelas críticas e alertado por um pequeno texto de jornal (Metro, edição de 3 de Julho de 2013, pg. 5) que transcreve algumas directrizes dadas aos jornais chineses sobre a forma correcta de lidar com a “notícia” dum crash de liquidez.
Não resistimos a transcrever integralmente o texto:
“Primeiro, temos de evitar assuntos maliciosos. Os meios de comunicação devem reportar e explicar que os nossos mercados têm a liquidez suficiente garantida e que a nossa política monetária é estável, não contracionista. Segundo, os media devem reforçar as suas reportagens positivas. Devem reportar totalmente os aspectos positivos da nossa actual situação económica, sustentando a confiança do mercado. Terceiro, os media devem conduzir positivamente a opinião pública. Devem, imediata e exactamente, explicar de forma positiva as medidas tomadas e a informação do banco central.”
Mais claro que isto, é impossível!…
Arrimando-se na autoridade que lhes dá o poder e a propriedade, os agentes do estado não só definem o papel que os órgãos de informação na sociedade e no estado, como definem os critérios e a forma concreta/correcta para desempenhar o seu papel que, de forma lapidar, sintetizam como sendo: “conduzir positivamente” a opinião pública!
Desenganem-se aqueles que entendem que “isto” só acontece em estados autoritários onde vigoram regimes de censura!… A nossa experiência de vida (feliz ou infelizmente, em regimes políticos de diferentes tipos) ilustra e dá respaldo a um axioma que define a relação e clarifica o estatuto e papel dos media em regimes políticos diferentes. São sistemas autónomos (embora relacionados) e a alteração de um não acarreta necessariamente a alteração do outro. Daí que, independentemente do tipo de regime político, o papel dos órgãos de informação continua a ser o mesmo, objectivos mantém-se e suas funções permanecem.
A diferença (apenas cosmética?) é que a intervenção do(s) poder(es) instituídos, em regime democrático, não se faz de forma tão despudorada como no exemplo chinês. As suas formas de actuação são mais dissimuladas, os media são “pluralistas” e os agentes da informação proclamam-se “isentos”.
Todavia, basta olhar para os nossos mass media e ficamos devidamente elucidados sobre pluralismo e independência!…
Por estas e por outras é que defendo que cada órgão de informação, mormente no seu estatuto editorial, ao invés de tentar enganar-nos com um pretenso compromisso, único e absoluto, com a verdade informativa, nos diga ao que vem: que objectivos prossegue, que interesses defende, a quem obedece…
Ganharíamos todos com esta clarificação e seria um sinal de adultez!