África a régua e esquadro “Isso é coisa de brancos…”

Corria o ano de 1973.

Cunene - Mapa

Cunene – Mapa

No Cunene, a estrada que seguia para a Namíbia (território que nesses tempos ainda se chamava Sudoeste Africano) desenhava, na paisagem seca, uma linha estreita e cinzenta que, deixando para trás Namacunde, se dirigia para o posto fronteiriço de Santa Clara que pouco mais era que um pequeníssimo aglomerado de instalações governamentais e militares ligadas ao trânsito numa região de povoamento ovambo que, cortada pelo paralelo 18, se encontrava submetida à soberania colonial de dois países diferentes.

A linha de fronteira, uma recta a perder de vista, era assinalada por uma frágil vedação de rede com a altura de um homem. A norte da vedação-fronteira, estávamos em Angola; a sul, encontrávamo-nos no Sudoeste Africano (hoje Namíbia).

Nesse tempo, as chamadas “férias grandes” preenchida-as eu com viagens inesquecíveis por essa Angola imensa, sempre “à boleia”, encontrando alojamento gratuito em casa de amigos e participando em actividades de lazer, culturais ou genericamente sociais que me permitiam sobreviver e que, às vezes, me permitiam até regressar a Luanda com mais dinheiro no bolso do que aquele com que contava à partida!

Creio que terá sido no mês de Setembro de 1973 que, terminado o Grande Encontro de jovens em Benguela, rumei ao Cunene onde se desenrolava o “Cunene 73”, uma actividade de cariz cultural cujo registo se encontra num pequeno opúsculo homónimo, elaborado por alguns participantes e coordenado pelo saudoso Muata Sa Kapuma.

Aí, quem quiser aproveitar a temperatura agradável do alvorecer e o ambiente luminoso e calmo do despontar do sol, tem que levantar-se cedo.

Foi num dos dias desse mês, já não me lembro qual, que, madrugando mais que o habitual, me dispus a desfrutar da tranquilidade matinal com um passeio a pé ao longo da vedação-fronteira ao longo da qual se desenhava uma picada estreita e poeirenta, percorrida quase exclusivamente por viaturas militares ou da administração local.

Eumbo ovambo

Eumbo ovambo

Uns três ou quatro quilómetros adiante, não distante da fronteira mais que um quilómetro, ficava o eumbo de um dos meus amigos, cuanhama de idade  indefinida, com quem, em anteriores excursões matinais, tinha estabelecido uma relação muito próxima, sublinhada com libações recorrentes com uma bela aguardente, de fabrico artesanal, destilada por ele próprio a partir de massango, o pequeno cereal conhecido entre nós por milho-painço.

Nesse dia, reparei que, próximo do eumbo, a vedação que delineava a linha de fronteira tinha sido cortada de alto a baixo. Na abertura, sinais evidentes de trânsito recente de pessoas e animais em ambos os sentidos!

Como em digressões anteriores, quando me acerquei do eumbo, lá estava o “mais velho”, à minha espera, para me levar para a epatalakola (pequena “sala de visitas”), bem ao lado da sua habitação, onde habitualmente conversávamos.

Depois dos cumprimentos habituais e de um início de conversa sobre assunto banais, resolvi informar o meu interlocutor sobre o corte feito na vedação de fronteira que ele provavelmente já conhecia. Mas, – arrimado naquele meu etnocentrismo inconsciente que pretende universal uma visão do  mundo que, afinal, é apenas local, – depois da informação factual, continuei perorando sobre os eventuais problemas que a pretensa “violação de fronteiras” poderia motivar.

Ele, calado, ouviu-me sem pestanejar, mas logo rematou:

– Então a minha família está quase toda do lado de lá! Como pode ter fronteira?

– Fronteira?!… resmungou ele mais para si que para mim.

– Isso é coisa de brancos!

Foi como que um soco violento a lembrar-me que, alguns dos nossos conceitos pretensamente universais, mais não são do que correntes a agrilhoar pessoas e a atrapalhar vidas!

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About A. Santos

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3 Responses to África a régua e esquadro “Isso é coisa de brancos…”

  1. Ana Gourgel's avatar Ana Gourgel diz:

    Não sou anónima, sou Ana Afonso Gourgel, para ti Alberto Santos, a tua velha amiga Anita, Esse artigo que apresentas, lembrou-me muitas coisas da minha infância em Onjiva, de hoje, cuanhama de outros tempos!……..

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    • ALENCULTA's avatar A.Santos diz:

      Que bom ler o teu comentário e saber que ele te recorda as “coisas da infância”, querida amiga e “companheira de luta”!
      São tempos que já não voltam, mas que deixam sempre saudade! Como aquela que – penso, – transparece no texto que comentaste.

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  2. Desconhecida's avatar Anónimo diz:

    Eu era miúda, tinha uns 4ou 5anitos, e quando atravessávamos a fronteira, éramos divididos,com base na cor da pele, apesar de sermos uma mesma Familia.

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